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Revolta dos Malês: conheça a ligação da história da Bahia com o islamismo em centro cultural em Nazaré

Por Paulo Dourado

Revolta dos Malês: conheça a ligação da história da Bahia com o islamismo em centro cultural em Nazaré
Foto: Alana Dias / Bahia Notícias

Quando se fala em Bahia, muita gente pensa imediatamente no sincretismo religioso, nos terreiros de candomblé, nas igrejas históricas e nas tradições afro-brasileiras. Mas, no meio de Salvador, existe uma comunidade que carrega uma fé presente há mais de mil anos no mundo e há séculos também ligada à história baiana.

 

Após visitar a Sociedade Israelita da Bahia, na Pituba, em reportagem anterior, o Bahia Notícias foi até o bairro de Nazaré para conhecer o Centro Cultural Islâmico da Bahia e entender como funciona a comunidade muçulmana na capital baiana, além da relação histórica entre o islamismo e a Revolta dos Malês, um dos episódios mais marcantes da resistência negra no estado.

 

“A palavra ‘malê’ vem do iorubá imalê, que significa ‘muçulmano’. Os malês, dentro das coisas que fizeram, não esconderam a religião”, explicou o Sheikh Ameesh, líder religioso do centro cultural.

 

Segundo ele, a ligação entre Bahia e islamismo ultrapassa o episódio histórico da revolta de 1835. O sheikh afirma que até hoje existem mesquitas na Nigéria batizadas em homenagem ao Brasil, criadas por descendentes de africanos que retornaram ao continente após o período escravagista.

 

“Até hoje existem algumas mesquitas na Nigéria em nome do Brasil. Um povo que foi levado de volta para a África colocou esse nome para lembrar da história”, contou.

 

ISLAMISMO EM SALVADOR
A retomada organizada da religião islâmica em Salvador começou no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, principalmente através de estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que passaram a pesquisar a história dos Malês e decidiram praticar o islamismo.

 

Sem condições financeiras para abrir um espaço próprio, os encontros e orações aconteciam inicialmente nas casas dos próprios estudantes.

 

A história mudou quando o então presidente do Centro de Divulgação do Islã para a América Latina e Caribe, Ahmad Ali Saifi, soube do movimento e decidiu apoiar a comunidade local.

 

Em 1991, Salvador recebeu o primeiro congresso sobre islamismo e a Revolta dos Malês. O evento reuniu estudantes, professores e pesquisadores da história africana e islâmica na Bahia.

 

“Quando o presidente chegou aqui, ele viu que a história dos Malês tinha que surgir novamente. Ele falou para os estudantes: ‘vocês têm que me prometer que vão começar a praticar’”, relembrou o sheikh.

 

A primeira sede da comunidade funcionou em uma casa alugada nos Barris, próximo à Biblioteca Central. Pouco tempo depois, o grupo mudou para um espaço maior na região do Dique, passou pela Independência, até chegar ao imóvel atual, em Nazaré.

 

CINCO ANOS
Natural da Nigéria, o Sheikh Ameesh chegou ao Brasil em 1992 após passar oito anos na Arábia Saudita, onde recebeu o título religioso de sheikh, função equivalente à de uma autoridade espiritual dentro da comunidade islâmica.

 

Segundo ele, a escolha por um líder africano para atuar na Bahia não foi por acaso.

 

“O presidente dizia que um sheikh árabe talvez não conseguisse trabalhar aqui, porque os costumes da Bahia são muito parecidos com os da Nigéria. A maneira do povo, a cultura, o jeito de fazer as coisas”, afirmou.

 

Inicialmente, a ideia era permanecer em Salvador por apenas cinco anos. Mas a relação histórica da Bahia com os Malês fez o religioso mudar de planos.

 

“Cheguei para ficar cinco anos. Depois percebi que cinco anos não resolveriam nada. Os nossos irmãos malês fizeram tudo isso para plantar essa história aqui. Eu precisava fazer minha parte também”, contou.

 

A atual sede do centro cultural foi adquirida em 1994. Segundo o sheikh, o imóvel praticamente não precisou de reformas.

 

“O dono estava indo embora para Recife. Ele era fotógrafo e tinha um estúdio na parte de cima. Não gastamos praticamente nada para adaptar”, disse.

 

ALÉM DA ORAÇÃO
Quem visita o centro cultural encontra um espaço simples, com salas de oração, biblioteca e áreas separadas para homens e mulheres durante os momentos religiosos.

 

O sheikh explica que a divisão acontece por questões litúrgicas ligadas à forma da oração islâmica.

 

“Na oração, sete partes do corpo tocam o chão. Então existe essa separação durante o momento religioso”, explicou.

 

Apesar da imagem frequentemente associada apenas aos rituais, ele afirma que o islamismo também funciona como orientação social e comunitária.

 

“Islam não é só oração. A gente ensina socialmente o que pode e o que não pode fazer. O Alcorão fala sobre convivência, família, respeito e fazer o bem”, afirmou.

 

Durante a conversa, o sheikh também relatou situações curiosas envolvendo pessoas interessadas em conhecer a religião. Segundo ele, alguns homens chegam ao centro motivados pela ideia de que o islamismo permitiria casar com várias mulheres.

 

Ele, no entanto, diz que costuma responder imediatamente que esse não é um motivo válido para se converter.

 

“Tem gente que aparece aqui achando que virar muçulmano é só para ter duas mulheres. Eu digo logo que religião não é brincadeira e nem motivo para isso”, contou, em tom bem-humorado.

 

SERES HUMANOS
Ao longo da entrevista, o sheikh reforçou diversas vezes a ideia de convivência entre diferentes culturas e religiões, citando trechos do Alcorão para defender respeito e diálogo.

 

“Deus diz no nosso livro que criou homens e mulheres e fez povos e tribos para que uns conheçam os outros e façam o bem. Não diz que criou apenas muçulmanos. Criou seres humanos”, afirmou.

 

Hoje, o Centro Cultural Islâmico da Bahia segue funcionando em Nazaré, recebendo fiéis, visitantes e curiosos interessados em conhecer mais sobre uma religião que, apesar de muitas vezes pouco lembrada, possui ligação direta com a formação histórica e cultural da Bahia.

 

MALÊS
A Revolta dos Malês foi um levante de africanos escravizados ocorrido em 1835, em Salvador. Na época, a capital baiana concentrava uma grande população africana escravizada e registrava constantes movimentos de resistência nas primeiras décadas do século XIX.

 

No caso da Revolta dos Malês, cerca de 600 africanos escravizados participaram do movimento. A maioria era de origem nagô e haussá, e muitos deles eram muçulmanos.

 

Entre os principais objetivos do grupo estavam a luta contra a escravidão e a garantia da liberdade religiosa. A revolta acabou reprimida pelas autoridades, e diversos líderes foram presos, punidos e até deportados de volta para o continente africano.