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revolta dos males
Quando se fala em Bahia, muita gente pensa imediatamente no sincretismo religioso, nos terreiros de candomblé, nas igrejas históricas e nas tradições afro-brasileiras. Mas, no meio de Salvador, existe uma comunidade que carrega uma fé presente há mais de mil anos no mundo e há séculos também ligada à história baiana.
Após visitar a Sociedade Israelita da Bahia, na Pituba, em reportagem anterior, o Bahia Notícias foi até o bairro de Nazaré para conhecer o Centro Cultural Islâmico da Bahia e entender como funciona a comunidade muçulmana na capital baiana, além da relação histórica entre o islamismo e a Revolta dos Malês, um dos episódios mais marcantes da resistência negra no estado.
“A palavra ‘malê’ vem do iorubá imalê, que significa ‘muçulmano’. Os malês, dentro das coisas que fizeram, não esconderam a religião”, explicou o Sheikh Ameesh, líder religioso do centro cultural.
Segundo ele, a ligação entre Bahia e islamismo ultrapassa o episódio histórico da revolta de 1835. O sheikh afirma que até hoje existem mesquitas na Nigéria batizadas em homenagem ao Brasil, criadas por descendentes de africanos que retornaram ao continente após o período escravagista.
“Até hoje existem algumas mesquitas na Nigéria em nome do Brasil. Um povo que foi levado de volta para a África colocou esse nome para lembrar da história”, contou.
ISLAMISMO EM SALVADOR
A retomada organizada da religião islâmica em Salvador começou no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, principalmente através de estudantes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que passaram a pesquisar a história dos Malês e decidiram praticar o islamismo.
Sem condições financeiras para abrir um espaço próprio, os encontros e orações aconteciam inicialmente nas casas dos próprios estudantes.
A história mudou quando o então presidente do Centro de Divulgação do Islã para a América Latina e Caribe, Ahmad Ali Saifi, soube do movimento e decidiu apoiar a comunidade local.
Em 1991, Salvador recebeu o primeiro congresso sobre islamismo e a Revolta dos Malês. O evento reuniu estudantes, professores e pesquisadores da história africana e islâmica na Bahia.
“Quando o presidente chegou aqui, ele viu que a história dos Malês tinha que surgir novamente. Ele falou para os estudantes: ‘vocês têm que me prometer que vão começar a praticar’”, relembrou o sheikh.
A primeira sede da comunidade funcionou em uma casa alugada nos Barris, próximo à Biblioteca Central. Pouco tempo depois, o grupo mudou para um espaço maior na região do Dique, passou pela Independência, até chegar ao imóvel atual, em Nazaré.
CINCO ANOS
Natural da Nigéria, o Sheikh Ameesh chegou ao Brasil em 1992 após passar oito anos na Arábia Saudita, onde recebeu o título religioso de sheikh, função equivalente à de uma autoridade espiritual dentro da comunidade islâmica.
Segundo ele, a escolha por um líder africano para atuar na Bahia não foi por acaso.
“O presidente dizia que um sheikh árabe talvez não conseguisse trabalhar aqui, porque os costumes da Bahia são muito parecidos com os da Nigéria. A maneira do povo, a cultura, o jeito de fazer as coisas”, afirmou.
Inicialmente, a ideia era permanecer em Salvador por apenas cinco anos. Mas a relação histórica da Bahia com os Malês fez o religioso mudar de planos.
“Cheguei para ficar cinco anos. Depois percebi que cinco anos não resolveriam nada. Os nossos irmãos malês fizeram tudo isso para plantar essa história aqui. Eu precisava fazer minha parte também”, contou.
A atual sede do centro cultural foi adquirida em 1994. Segundo o sheikh, o imóvel praticamente não precisou de reformas.
“O dono estava indo embora para Recife. Ele era fotógrafo e tinha um estúdio na parte de cima. Não gastamos praticamente nada para adaptar”, disse.
ALÉM DA ORAÇÃO
Quem visita o centro cultural encontra um espaço simples, com salas de oração, biblioteca e áreas separadas para homens e mulheres durante os momentos religiosos.
O sheikh explica que a divisão acontece por questões litúrgicas ligadas à forma da oração islâmica.
“Na oração, sete partes do corpo tocam o chão. Então existe essa separação durante o momento religioso”, explicou.
Apesar da imagem frequentemente associada apenas aos rituais, ele afirma que o islamismo também funciona como orientação social e comunitária.
“Islam não é só oração. A gente ensina socialmente o que pode e o que não pode fazer. O Alcorão fala sobre convivência, família, respeito e fazer o bem”, afirmou.
Durante a conversa, o sheikh também relatou situações curiosas envolvendo pessoas interessadas em conhecer a religião. Segundo ele, alguns homens chegam ao centro motivados pela ideia de que o islamismo permitiria casar com várias mulheres.
Ele, no entanto, diz que costuma responder imediatamente que esse não é um motivo válido para se converter.
“Tem gente que aparece aqui achando que virar muçulmano é só para ter duas mulheres. Eu digo logo que religião não é brincadeira e nem motivo para isso”, contou, em tom bem-humorado.
SERES HUMANOS
Ao longo da entrevista, o sheikh reforçou diversas vezes a ideia de convivência entre diferentes culturas e religiões, citando trechos do Alcorão para defender respeito e diálogo.
“Deus diz no nosso livro que criou homens e mulheres e fez povos e tribos para que uns conheçam os outros e façam o bem. Não diz que criou apenas muçulmanos. Criou seres humanos”, afirmou.
Hoje, o Centro Cultural Islâmico da Bahia segue funcionando em Nazaré, recebendo fiéis, visitantes e curiosos interessados em conhecer mais sobre uma religião que, apesar de muitas vezes pouco lembrada, possui ligação direta com a formação histórica e cultural da Bahia.
MALÊS
A Revolta dos Malês foi um levante de africanos escravizados ocorrido em 1835, em Salvador. Na época, a capital baiana concentrava uma grande população africana escravizada e registrava constantes movimentos de resistência nas primeiras décadas do século XIX.
No caso da Revolta dos Malês, cerca de 600 africanos escravizados participaram do movimento. A maioria era de origem nagô e haussá, e muitos deles eram muçulmanos.
Entre os principais objetivos do grupo estavam a luta contra a escravidão e a garantia da liberdade religiosa. A revolta acabou reprimida pelas autoridades, e diversos líderes foram presos, punidos e até deportados de volta para o continente africano.
Em homenagem ao Mês da Consciência Negra, a exposição “Ecos Malês”, baseada em fundamentos filosóficos, históricos e intelectuais presentes na Revolta dos Malês, vai ocupar a Casa das Histórias de Salvador, no Comércio, a partir de 1º de novembro. Com entrada gratuita no dia da abertura, a mostra é uma das diversas atividades do Salvador Capital Afro e fica em cartaz até maio de 2025.
Com curadoria de João Victor Guimarães e co-curadoria de Mirella Ferreira, a exposição reúne 114 obras de 48 artistas e parceria com o coletivo Arquiteturas da Revolta, para pensar e refletir as influências contemporâneas da luta pela liberdade dos africanos escravizados e libertos em Salvador, durante o século XIX.
A insurreição protagonizada por africanos muçulmanos, conhecidos como malês, em sua maioria haussás e nagôs, se destacou como um dos maiores e mais documentados movimentos de resistência escravista no Brasil, por sua intenção de libertar compatriotas escravizados e estabelecer um governo islâmico na Bahia.
“Salvador tem a chance de ver, de acessar uma exposição que fala de uma revolta que aconteceu na cidade, feita por negros africanos escravizados e libertos, que não foi vitoriosa diante dos seus anseios, dos seus planos e propostas, mas foi vitoriosa na medida que permanece com os seus fundamentos na nossa sociedade. O eco não é o som original, Salvador não se tornou a República islâmica que os Malês queriam, mas Salvador também é um Eco do que os Malês ansiavam”, diz o curador João Victor Guimarães.
A exposição reúne uma ampla variedade de obras, incluindo esculturas, pinturas, fotografias, gravuras, site specific de paredes de adobes, macumbas pictóricas, que é como o artista Cipriano se refere à própria obra, bandeiras, patuás e vídeo performance, divididas em três núcleos: Encontrar, Ruas da Revolta, e Inventar (Liberdade e Defesa).
Ecos Malês conta com assistência de curadoria de Ana Clara Nascimento, Breno Silva e David Sol. Coordenação de produção de Leonardo Góis e expografia assinada por Gisele de Paula. A pesquisa histórica é de Gabriela Leandro Gaia com auxílio de David Sol.
CONHEÇA OS ARTISTAS DOS NÚCLEOS
1° núcleo - Encontrar
Caio Rosa, Gil Scott-Heron, Helen Salomão, Jamile Cazumbá, Luan Gramacho, Luciano Carcará, Pierre Verger, Rafael Ramos, Rona, Voltaire Fraga, Wilson Tibério e Yan Nicolas.
2° núcleo - Ruas da Revolta
Ação Cemitério Desaparecido, Diego Crux, Jacopo, Malê Debalê, Mayara Ferrão, Pedro Marighella, Rose Afefé e Ventura Profana.
3° núcleo - Inventar (Liberdade e Defesa)
Antônio Pulquério, AZA, Bertô, Caio Rosa, Cipriano, Coletivo Arquiteturas da Revolta, Daniel Jorge, Édson da Luz, Gustavo Moreno, Hall Wildson, Ismael David, Jasi Pereira, João Nascimento, Junaica Barbosa, Karamujinho, Kauam Pereira, Lila Deva, Lucas Cordeiro, Simba e Ventura Profana.
SERVIÇO
Exposição: Abertura da Exposição Ecos Malês
Abertura: 01/11/2024, às 11h. Entrada gratuita no dia da abertura.
Período da exposição: 1° de novembro de 2024 a maio de 2025
Visitação: Terça a Domingo, das 9h às 17h (entrada até às 16h)
Local: Casa das Histórias de Salvador
Endereço: Rua da Bélgica, 2 – Comércio
Ingresso: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) - Venda na bilheteria da Casa das Histórias de Salvador ou na plataforma Sympla / Acesso gratuito às quartas-feiras (convenção municipal)
Ingresso único: Os visitantes também poderão visitar a Galeria Mercado (Subsolo do Mercado Modelo) com o mesmo ingresso.
Já contada através de livro e game (clique aqui e saiba mais), a Revolta dos Malês ganhou uma minissérie de ficção dividida em cinco capítulos de 25 minutos, disponível no serviço on demand da Sesc TV (clique aqui), gratuitamente, a partir desta terça-feira (19), véspera do Dia da Consciência Negra. O levante será retratado ainda em um produto derivado da série, um longa-metragem de 90 minutos, com pré-estreia prevista para o dia 5 de dezembro, no Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha, na capital baiana, com a presença dos diretores Belisário Franca e Jeferson De, além dos atores Shirley Cruz e Rodrigo dos Santos, e de personalidades da cultura e de movimentos sociais. O filme contou com o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador, no valor de R$ 400 mil, iniciativa que prevê também ações voltadas para a educação na cidade.
Tanto a série quanto o filme têm como proposta remontar um episódio da história brasileira conhecido por parte dos baianos, mas ainda não tão difundido ao grande público no país: o levante ocorrido em Salvador, no ano de 1835, liderado por negros escravizados muçulmanos, conhecidos como Malês, que tinham como objetivo libertar os escravos islâmicos e tomar poder, eliminando os traidores. “Revolta dos Malês é um resgate histórico fundamental para elaborarmos com consciência sobre o presente, já que nossa historiografia jamais destaca heróis afrodescendentes, minimizando suas conquistas. Ao sublinhar seu protagonismo na obra e na história, 'Revolta dos Malês' fortalece a autoestima da população afrodescendente tradicionalmente excluída da produção audiovisual. Assim, além de entreter e informar, nosso filme pretende também ser um elemento de valorização dos feitos da população negra brasileira e principalmente baiana”, diz a justificativa do projeto realizado pela Giros Projetos Audiovisuais e apoiado pela Secult.
As duas produções colocaram em prática a ideia de reafirmar o protagonismo negro, inclusive no processo de produção, desde roteiro, passando pela direção, até o elenco, que inclui atores consagrados em sua equipe, a exemplo de Zezé Barbosa, André Ramiro, Shirley Cruz e Rodrigo dos Santos.
Ambas se passam em Salvador no ano de 1835, quando, após mais de uma década de trabalho árduo, a escrava de origem muçulmana Guilhermina (27) consegue recursos suficientes para comprar sua própria alforria e a de sua filha Teresa (11). Apesar da conquista, seu “senhor”, o fazendeiro Souza Velho, contraria a promessa feita à ex-escrava e se recusa a vender a liberdade da garota.

Guilhermina encontra na Revolta dos Malês a esperança pela liberdade da filha Teresa | Foto: Reprodução / Sesc TV
Em meio a este impasse, o maior líder religioso islâmico na capital baiana, Pacífico Licutan, é preso pela polícia. O caso provoca então a ira dos Malês, que convocam os homens muçulmanos para uma jihad (guerra santa) no último dia do Ramadã (nono mês no calendário islâmico, durante o qual os devotos praticam o jejum). Para realizar o levante, eles compram armas e seguem o objetivo de libertar seus irmãos de fé. Diante do ambiente tensionado, Guilhermina vê no motim a única oportunidade para libertar Teresa.
Explorar a Revolta dos Malês, evento histórico em que um grupo de escravos africanos e brasileiros islamizados se rebelou contra a elite senhorial em Salvador, é o objetivo de "Sociedade Nagô - O Início", jogo para celulares que será apresentado ao público durante a Gamepólitan neste fim de semana.
O game é do gênero point and click, que convida o jogador a explorar cenários por meio de cliques na tela do celular. As ações desbloqueiam interações com personagens que, na trama, te contam informações históricas sobre a revolta negra baiana. “O jogador conduz a história para que ele mesmo faça uma imersão e participe da revolta. No jogo você pode lidar com alguns personagens históricos como um dos líderes do movimento, Manuel Calafate”, contou o criador do "Sociedade Nagô", Alexandre Santos.
A ferramenta é indica para estudantes do ensino médio e do fundamental. Na opinião de Santos, a aplicação pode fomentar debates dentro da sala de aula sobre o tema histórico, mas também deve atrair quem deseja saber mais sobre o levante de escravos na capital baiana. “Muitas vezes eu falo da Revolta dos Malês e as pessoas me perguntam ‘onde aconteceu isso?’. O 'Sociedade Nagô' é uma forma de dizer que a revolta aconteceu em Salvador, na Bahia e no Brasil’, ponderou o criador. “Isso ajuda na questão de se posicionar sobre nossos direitos, sobre o que a gente pode reivindicar. Existiram pessoas que lutaram pelos nossos direitos, e por aquilo que eles acreditavam, então de certa forma elas se inspiram para lutar por aquilo que elas querem atualmente”, completou Alexandre.
O game foi lançado no dia 16 de junho para celulares e, de lá para cá, já teve cerca de 750 downloads. “O pessoal do movimento negro gostou muito do jogo. Ele não tem atraído somente a sociedade que curte jogos justamente por ter uma jogabilidade simples”, comentou orgulhoso o inventor. "Sociedade Nagô - O Início" ainda deve ganhar uma sequência em dezembro, chamado "Sociedade Nagô - O Resgate", que dessa vez alterna entre 2018 e 1835 e traz uma personagem principal, chamada AnaLú, junto com perguntas contemporâneas, como qual foi o papel das mulheres na Revolta dos Malês. “Nós procuramos fazer jogos que possam acrescentar para a sociedade, e estamos indo por essa vertente histórica e pedagógica justamente para que as pessoa possam jogar, se divertir e aprender alguma coisa”, complementa Alexandre. O Gamepólitan de jogos ocupa o Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge) neste sábado (28) e domingo (29) das 10h às 19h.
A Revolta dos Malês vai virar jogo. Idealizado pelo designer Alexandre Santos e financiado pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, por meio do edital App pra cultura 2017, o game “Sociedade Nagô - O Início” será lançado neste sábado (16), a partir das 13h30, na Livraria Leitura, situada no Shopping Bela Vista.
O foco do jogo é trazer o conteúdo histórico da luta pela liberdade protagonizada por grupos de negros africanos e brasileiros em 1835, mostrando a Revolta dos Malês de forma mais aprofundada, com um suporte pedagógico, juntamente com o fator lúdico, mini games, mistério, desafio e tarefas que envolvem emitir opiniões, ilustrar, escrever textos e pesquisar. O título “Sociedade Nagô - O Início” faz alusão à sociedade secreta fictícia do jogo, formada pela maioria de libertos africanos da etnia Nagô. Tendo como gênero o point and click (apontar e clicar com exploração dos objetos, cenários e objetos), game teve cinco meses de produção.
SERVIÇO
O QUÊ: Lançamento do Sociedade Nagô - O Início
QUANDO: Sábado, 16 de junho, das 13h30 às 16h
ONDE: Livraria Leitura – Shopping Bela Vista – Salvador (BA)
VALOR: Gratuita
A nova produção da autora Manuela Dias, conhecida por tramas como a série “Justiça”, é o roteiro de "Os Malês". Com Camila e Rocco Pitanga, Lázaro Ramos e Seu Jorge no elenco, o filme vai retratar a revolta dos escravos muçulmanos, ocorrida em Salvador no século XIX. Antônio Pitanga e Walter Carvalho assinam a direção do projeto, que ainda não tem data de lançamento.
Fresquinha essa! ???? #OsMalês ???? pic.twitter.com/0jIo9INxfU
— Pitangão (@CamilaPitanga) May 29, 2017
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
João Roma
"A lei não pode ter lado político".
Disse o presidente estadual do PL na Bahia e pré-candidato ao Senado Federal pelo estado, João Roma, utilizou as redes sociais nesta sexta-feira (19) para comentar a operação de busca e apreensão realizada pela Polícia Federal (PF), com autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), que teve como um dos alvos o senador Jaques Wagner (PT), líder do governo no Senado.