Xô forró? Atrações de outros gêneros aparecem com altos cachês em lista de contratações para São João da Bahia
Por Bianca Andrade
Que o som do São João é uma boa sanfona tocando, junto a uma zabumba e um triângulo, isso é consenso de quem vive a festa. No entanto, há alguns (muitos) anos, o forró deixou de ser o protagonista nas contratações para agitar o estado durante os festejos juninos, abrindo espaço para estrelas de outros gêneros ganharem os palcos debate que aquece a cena mais do que uma fogueira estralando no dia 24 de junho.
Para o ano de 2026, apesar das promessas, os cachês mais altos do São João na Bahia seguem sendo os de estrelas fora do forró. A dupla sertaneja Zé Neto e Cristiano, por exemplo, irá faturar um total de R$ 2.715.000,00 por três shows no estado. Os artistas receberão por show R$ 905 mil, o equivalente a três vezes o cachê de Adelmário Coelho, por exemplo, que, até o momento, tem cinco apresentações registradas no Painel de Transparência dos Festejos Juninos nos Municípios do Estado da Bahia (MP-BA).
O Bahia Notícias fez um levantamento, com base nos dados divulgados pelo Ministério Público da Bahia, dos 10 artistas com maiores cachês do São João da Bahia que não tocam forró, ritmo que deveria predominar nos palcos no período junino.
Entre os estilos que dominam a lista está o sertanejo, com seis atrações. O pagode aparece apenas uma vez, com Léo Santana, que receberá R$ 1.300.000,00 por dois shows na Bahia - R$ 650 mil por cada apresentação. O valor do artista é o dobro do cobrado por Flávio José, por exemplo, grande nome do gênero, que até o momento tem um show na lista do MP-BA por R$ 350 mil.
- Zé Neto & Cristiano: R$ 905 mil em Tucano, Conceição do Jacuípe e Porto Seguro
- Maiara e Maraisa: R$ 784 mil em Serra do Ramalho e Conceição do Jacuípe
- Matheus e Kauan: R$ 705 mil em Jaborandi
- Pablo: R$ 704 mil em Ibitiara e R$ 700 mil em Queimadas, Ibititá, Itamaraju, Riachão do Jacuípe e Serrinha
- Thiaguinho: R$ 700 mil em Serrinha
- Léo Santana: R$ 650 mil em Jussari e Itamaraju
- Murilo Huff: R$ 650 mil em Riachão do Jacuípe
- Eduardo Costa: R$ 600 mil em Queimadas e Tucano, R$ 590 mil em Pilão Arcado e Riachão do Jacuípe
- Amado Batista: R$ 600 mil em Itamaraju
- César Menotti e Fabiano: R$ 590 mil em Nova Viçosa
Da lista acima, apenas uma contratação foi feita com verba estadual: a de Léo Santana para o show na cidade de Jussari, que aconteceu no dia 3 de maio. Todas as outras atrações foram contratadas com verba municipal.
O maior aumento de cachê da lista, em um comparativo entre 2025 e 2026, foi o de Eduardo Costa, que passou a receber R$ 600 mil, sendo que antes cobrava R$ 490 mil por apresentação. Veja lista do valor recebido pelos mesmos artistas no ano passado:
- Zé Neto & Cristiano: R$ 804 mil em 3 shows, e R$ 800 mil em 1 show
- Maiara e Maraisa: R$ 754 mil por 5 shows
- Matheus e Kauan: R$ 625 mil por 3 shows
- Thiaguinho: NÃO CONSTA NO MP-BA
- Léo Santana: R$ 600 mil por 9 shows
- Murilo Huff: R$ 500 mil por 8 shows
- César Menotti e Fabiano: R$ 500 mil em 2 shows e R$ 480 mil em 4 shows
- Eduardo Costa: R$ 490 mil por 13 shows
- Amado Batista: R$ 560 mil em 1 show, R$ 550 mil em 3 shows, R$ 500 mil em 1 show, R$ 462 mil em 1 show e R$ 418 mil em um show
Em 2025, a lista contava com uma predominância de sertanejo; no entanto, tinha nomes do axé, por exemplo, como Ivete Sangalo e Bell Marques, aparecendo na lista com cachês de R$ 750 mil.
Para este ano, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) e artistas de projeção nacional e regional firmaram um acordo que resultou na redução voluntária de cachês de aproximadamente 180 contratos para apresentações nos festejos juninos.

Segundo o órgão, a medida representou uma economia estimada de R$ 8,8 milhões aos cofres públicos. Ao programa Achei Sudoeste no Ar, do site Achei Sudoeste, parceiro do Bahia Notícias, o presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Wilson Cardoso, afirmou que o acordo veio de forma positiva e impactou diretamente na contratação de estrelas do forró, gênero que deveria predominar na festa.
“Tudo isso foi um ganho muito legal porque já estavam descaracterizando o São João em muitos lugares, inclusive com música eletrônica. Agora, temos a oportunidade de viver um clima junino muito favorável. Quem ganha são os cofres públicos, os moradores e os artistas”, comemorou Wilson Cardoso.
Até o fechamento da matéria, o Painel de Transparência dos Festejos Juninos nos Municípios do Estado da Bahia — plataforma do MP-BA que revela os gastos das prefeituras com cachês artísticos para os festejos de época — registra R$ 124 milhões em gastos para a contratação de artistas para o São João deste ano.
De acordo com o Governo da Bahia, a prioridade para o São João de 2026 é preservar a essência da festa, com foco no forró e em atrações que valorizem a cultura nordestina.
"Este ano temos uma novidade importante: a reserva de pelo menos 25% dos investimentos para a contratação de forrozeiros, bandas de forró e trios nordestinos, fortalecendo a identidade cultural que está na raiz dos festejos juninos", salientou o secretário de Cultura, Bruno Monteiro.
TRADIÇÃO NO SÃO JOÃO
A descaracterização do São João é uma pauta antiga entre os agentes da festa. O cantor Del Feliz, por exemplo, em entrevista ao Bahia Notícias, pontuou a importância do reconhecimento do forró como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade junto à Unesco como uma forma de salvaguardar o gênero e, com isso, preservar o São João.
"A gente precisa ter uma perspectiva de proteção desse bem, que inclusive se encontra ameaçado do ponto de vista dos grandes espetáculos que se transformaram as festas juninas e com a sua descaracterização; e o patrimônio registrado, reconhecido, se torna uma responsabilidade maior também do ponto de vista institucional e administrativo político."
Foto: Philipe Sampaio/ GOVBA
Na ocasião, Del reforçou ao Bahia Notícias a importância do cumprimento da Lei da Zabumba, aprovada em 2015 pela Assembleia Legislativa da Bahia, que prevê a obrigatoriedade de percentuais para a contratação de artistas e conjuntos musicais para eventos culturais, shows e festejos realizados pelos entes públicos com verbas oriundas do Estado da Bahia.
“Nós todos estamos trabalhando por isso. Eu sou um defensor de que as festas culturais se mantenham na sua essência para que elas continuem sendo viáveis economicamente e continuem belas, porque não faz sentido as festas se transformarem em uma festa de qualquer coisa pelo mero apelo. Não pode substituir a nossa cultura, sob pena de a gente perder, de as nossas gerações não terem acesso a algo que é tão valioso para nós, e para o qual já existe um reconhecimento.”
