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Integrantes do Olodum relembram passagem de Michael Jackson por Salvador: "Ele veio e se tornou um de nós"

Por Bianca Andrade

Integrantes do Olodum relembram passagem de Michael Jackson por Salvador: "Ele veio e se tornou um de nós"
Foto: Facebook/ Olodum

Trinta anos se passaram e os olhos da tenente-coronel Claudia Mara ainda marejam ao falar sobre o dia 9 de fevereiro de 1996, data em que Michael Jackson fez do Pelourinho um dos cenários do clipe de "They Don't Care About Us", considerado um dos maiores sucessos da carreira do Rei do Pop. Ao menos, para quem vive no Brasil e viu o país se transformar diante da produção de Spike Lee.

 

"Emociona muito fazer parte da história, estar aqui no momento em que Michael Jackson estava fazendo a filmagem", relembra a tenente-coronel com lágrimas nos olhos.

 

Ao Bahia Notícias, Claudia contou que foi acionada para fazer o policiamento da operação junto à sua turma de aspirantes. A baiana foi uma das poucas que tiveram os olhares de Michael voltados para ela, em um momento que até hoje é lembrado pelo público.

 

"Na ocasião, foi solicitado policiamento e quem veio fazer o patrulhamento de toda a área foi a minha turma, aspirantes de 96. Nós fizemos e, para a gente, foi muito emocionante estar diante de um astro — um astro que a gente só podia admirar, viver e curtir; só podia mexer os olhos. Então, assim, é inexplicável, sabe? Inexplicável. Emocionante. E ficam na nossa memória esses momentos vividos, essas ocasiões, porque marcaram a gente até hoje. Mesmo se passando 30 anos, até hoje parece que foi ontem que a gente viveu tudo aquilo."

 

Com a regra explícita de não interagir com o astro, Claudia e seus colegas ficaram imóveis, mas nada preparou a turma para a interação do artista com a equipe.

 

"Ele interagiu, ele tirou o cassetete de um dos colegas nossos, ele chegava, tocava no ombro de outro, mas a gente não podia fazer nada, só admirar. Naquele dia, a gente viu Michael Jackson se divertindo; naquele dia, Michael Jackson tocou na gente; naquele dia, a gente olhou para Michael Jackson e viu: 'gente, como ele é ao vivo e a cores'."

 

 

Para Bira, que se tornou Bira Jackson após a participação na produção, o clipe mudou a sua vida. O artista, que teve a vida transformada pela música através do Olodum, conta que, até hoje, os segundos ao lado de Michael em 1996 rendem bons frutos. Com o lançamento da cinebiografia "Michael", o músico se tornou estrela mais uma vez.

 

“É muito gratificante. Depois de trinta anos, e agora que veio o filme, fortaleceu mais ainda o nome Bira Jackson. O reconhecimento das pessoas na rua, falando, chamando... Agora eu estou tirando mais fotos, ficando um pouco mais famoso, mas é isso. O fruto é de levar amor através desse videoclipe. Isso me trouxe muita segurança, me trouxe muita paz, fez com que eu crescesse um pouco mais — não só financeiramente, mas fisicamente e mentalmente. Isso me ajudou bastante. Eu sou muito feliz e muito grato por tudo que está acontecendo até o dia de hoje na minha vida.”

 

Bira, que chegou ao Olodum ainda criança, encantado pelos batuques do tambor, afirmou que os 4 minutos e 42 segundos de clipe conseguiram impactar pessoas em Salvador e fora dela, que buscaram o Olodum para aprender a percussão e a história que movimentou MJ.

 

 

"Os jovens se interessaram bastante [no Olodum] depois desse clipe, de me ver levantando o tambor, pulando, saltitando, dançando com um sorriso. Então isso influencia. Influenciou muito jovem a vir procurar o Olodum, fez pais trazerem jovens para a Escola Criativa Olodum, para ingressarem na escola e poderem tocar. Isso é muito importante, foi muito importante e está sendo importante até hoje. Então é gratidão eterna. Que esse jovem que se inspira em mim guarde isso com muito amor e possa levar adiante, como estou fazendo, levando a batida do Olodum adiante."

 

Em entrevista à jornalista Carol Prado, colunista do Estadão, Jorginho Rodrigues, atual presidente do Olodum, revelou que o grupo chegou a Michael através de um desejo da banda. Segundo Jorge, após a participação do grupo na apresentação icônica de Paul Simon no Central Park, em 1991, o destino da banda foi determinado através dos dirigentes, que bateram o pé, firmes de que deveriam conhecer Spike Lee em uma tentativa de plantar uma semente.

 

Pois é, semeou. A força única do Olodum fez com que Lee se lembrasse do grupo para protagonizar, ao lado do maior nome do pop, o clipe de "They Don't Care About Us", faixa que leva para o público um debate importante sobre pautas raciais e desigualdade, assunto sempre tratado pelo Olodum em suas canções.

 

De acordo com João Jorge, presidente da Fundação Cultural Palmares e ex-presidente do Olodum, o impacto da banda no clipe foi tanto que o Olodum é lembrado por pessoas de fora do Brasil durante a exibição da cinebiografia de Michael ao redor do mundo. Uma forma de homenagear a estrela norte-americana é justamente lembrando da banda baiana.

 

"Neste momento, há o renascimento da imagem de Michael Jackson [com o filme]. E, para surpresa nossa, em todos os lugares em que o filme está passando, alguém vai com a camisa do Olodum para assistir. Na Suíça, no Benin...", afirma João Jorge.

 

 

O ex-presidente do Olodum relembrou o momento em que tentou convencer Spike Lee a conhecer Salvador antes da ideia do clipe de Michael. Para João Jorge, a ideia de apresentar a cidade como um lugar diferenciado, que exala cultura, é a melhor forma de convencer alguém a mergulhar na primeira capital do Brasil.

 

"Michael Jackson veio aqui não porque conhecesse qualquer um de nós. Nós que conhecemos Spike Lee. Até chamá-lo, ele dizia: 'Eu não vou à Bahia não, fazer o que na Bahia? Por que eu vou à Bahia? Aqui no Brooklyn tem negro para caramba, no Harlem', mas eu disse: 'Rapaz, nós temos uma história diferenciada, nós temos tambores, temos a capoeira, temos as mulheres mais elegantes do país. Temos Lazinho...'", relembrou em coletiva.

 

Jorginho, que, como lembrado pelo pai, também esteve no clipe com um tênis vermelho e uma bermuda maior que ele, guarda com carinho a lembrança do dia 9 de fevereiro. Para o atual presidente executivo do Olodum, o mais especial da gravação foi a forma como Michael Jackson não esteve ali apenas como uma estrela e seus "figurantes", mas como o artista fez questão de se tornar o 201º integrante do Olodum naquela data.

 

 

“Eu participei junto com outros 200 percussionistas. Todos nós fomos muito agraciados com esse momento, porque todo mundo era fã, é fã de Michael Jackson, e o filme traz isso de volta. Trinta anos depois, essa imagem dele no Brasil com o Olodum, na Bahia, no Pelourinho, o universo de percussionistas... e também no Rio de Janeiro. Mas marcou muito a forma como ele veio e se tornou um de nós, com camisetas do Olodum, tomando o sol da Bahia em pleno mês de fevereiro e muito à vontade com isso que eu acabei de falar: a força da percussão que entranha no corpo, que te consome e leva para um lugar mágico. O samba-reggae de Neguinho do Samba, criado e muito bem executado em uma das versões mais incríveis da música mundial."

 

"MICHAEL, MICHAEL... ELES NÃO LIGAM PRA GENTE"
Em "They Don't Care About Us", não é apenas o batuque do Olodum que conecta Michael ao grupo baiano. O artista, que é compositor da faixa, se aproxima de um discurso apresentado pela banda desde o seu surgimento: contar e cantar a história.

 

A voz de Angélica Vieira, produtora do Manhattan Connection, no início da versão brasileira de "They Don't Care About Us", quase em forma de protesto, consegue conversar com "Protesto Olodum", por exemplo, canção composta por Tatau, vencedora do Femadum em 1988 na categoria poesia, que através da música denunciava o abandono do Pelourinho.

 

Para Jorginho, é neste momento que Michael consegue se fazer parte da história do Olodum, ao se aproximar de um discurso que a banda leva até hoje para as ruas, aos 47 anos de existência.

 

"'They Don't Care About Us' é um reflexo da história do Olodum contada do Pelourinho para o mundo, com um grande nome da música e dessa transformação. A gente fica muito feliz de, 30 anos depois, estar revivendo essa história de novo, porque é muito emocionante e gratificante tudo isso.”

 

 

Trinta anos depois, as trajetórias do Olodum e de Michael Jackson voltam a se cruzar. Mas, desta vez, para lembrar que o Olodum não parou ali. Além de encantar o astro pop, a banda baiana deixou sua marca no mundo e segue como referência para artistas internacionais pela sua forma única de fazer e apresentar música.

 

“A nossa música é contagiante, inspiradora e também desperta pesquisa e curiosidade nas pessoas. Então, temos a facilidade de ser um grupo de samba-reggae; muitos nomes do reggae e da música pop internacional se conectam ao Olodum por conta dessa batida, que cabe em qualquer estilo. Somos muitas vezes procurados por esse interesse em saber que batida é essa, como essa gente consegue tocar esse estilo musical tão maravilhoso. Isso, além de criar ritmos, também tem uma mensagem social muito forte."