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Tico Santta Cruz celebra nova era do Detonautas na Bahia e relembra fato curioso sobre Luiz Caldas: “Figura extraordinária”

Por Bianca Andrade

Tico Santta Cruz celebra nova era do Detonautas na Bahia e relembra fato curioso sobre Luiz Caldas: “Figura extraordinária”
Foto: YouTube/ TV Globo

Que o Papa é pop, isso já é de conhecimento público desde 1990, quando os Engenheiros do Hawaii lançaram a canção inspirada no Papa João Paulo II. Mas e para o rock ser pop? O que é necessário para transformar um dos estilos mais nichados da música em algo pop, no sentido popular da palavra, e não nos diversos estilos que abraçam o conceito da "música pop"?

 

Pois é, este é um questionamento implícito que a banda Detonautas responde com o novo álbum, 'Rádio Love Nacional', que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira, 13 de março, data marcante para Tico Santta Cruz por seus diversos simbolismos, mas nenhum que envolva política, garante o artista.

 

Em entrevista ao Bahia Notícias, o líder do Detonautas foi categórico ao afirmar que, para o rock ser pop, ele precisa dialogar com a sociedade, entendendo suas especificidades e se misturando com ela. Mas o caminho não é fácil nem simples. O disco ‘Rádio Love Nacional’, por exemplo, começou a ser produzido em 2023 e só foi lançado oficialmente três anos depois.

 

 

"O Detonautas nesse álbum conseguiu fazer um aprofundamento, na verdade, do rock dentro do universo brasileiro; vários gêneros de música brasileira, vários assuntos também que dizem respeito à nossa percepção ao longo desses quase 30 anos viajando o Brasil e conhecendo o país, as dores existenciais, as dores sociais. Mas, ao mesmo tempo, a gente equilibrou isso com leveza, porque tem uma característica que muitas vezes o rock é: com uma batida astral mais para cima, com batidas que levam a uma frequência alta, elas falam de coisas legais, de coisas bonitas, mas não conseguem fazer uma coisa que lá fora se faz muito, que é colocar uma música dançante com tema mais denso. Então, eu acho que o Detonautas conseguiu acessar, dentro dessas faixas, esses lugares que a gente não tinha conseguido acessar em outros álbuns."

 

Lançado via Deck, o projeto marca uma fase musical de experimentos do grupo. Ao longo de 11 faixas inéditas, Tico, ao lado de Renato Rocha (guitarra), Fábio Brasil (bateria), Phil Machado (guitarra) e André Macca (baixo), explora uma sonoridade diferenciada que mistura elementos de rock, pop, tecnobrega e batidas eletrônicas.

 

"Todas as músicas que foram feitas foram produzidas pelo Pablo Bispo e pelo Ruxell, e eu escrevi muito junto com o Pablo. E, até então, os hits do Detonautas basicamente eram escritos todos por mim. Tinha um pouco de parceria, em alguns momentos a gente fez algumas parcerias com o Leoni, o Frejat, dentro da banda com o Rodrigo, antes dele falecer em 2006 — ou seja, tem 20 anos. E quando eu encontrei o Pablo nesse lugar, para poder conseguir a narrativa do disco com outro parceiro compondo, deu uma abrangência ainda maior; foi uma das melhores experiências que eu já tive em termos de composição na minha vida."

 

Foto: Divulgação

 

Para levar o trabalho para frente, Tico conta que chegou a enfrentar resistência na gravadora. Inicialmente, o disco seria um projeto de regravações de sucessos da música brasileira. O EP nesse estilo foi lançado, mas Tico só conseguiu fazer com que investissem no 'Rádio Love Nacional' ao apresentar uma música original com o DNA Detonautas em um novo estilo.

 

"O rapaz ouviu e falou: 'Ó, isso aí é mais do mesmo pra gente'. Aí eu falei: 'Não, mas espera aí que eu tenho uma música aqui que talvez, sei lá'. Era a única música inédita que eu tinha, que era 'Potinho de Veneno'. E aí mostrei para ele e ali ele ficou entusiasmado para caramba, tipo eufórico, né? Quando ele ouviu 'Potinho de Veneno' falou: 'Eu quero mais 10 músicas como essa e tal'."

 

Ao BN, Tico contou ter encarado a missão como um grande desafio até se encontrar na espiritualidade com os parceiros de produção, algo que fez com que o ‘Rádio Love Nacional’ fluísse com naturalidade.

 

"Foi um desafio muito grande, porque imagina: eu não tinha 10 músicas iguais a essa. Eu não sabia nem por onde começar. E como essa música tinha sido um convite que eu tinha feito ao Pablo e ao Ruxell para me ajudar a compor e a produzir, eu falei: 'Cara, eu vou chamar eles dois e vamos tentar ir para o estúdio'. E aí entra um elemento que eu acho que é fundamental nesse disco também, que é o elemento da espiritualidade. Eu acho que a gente se juntou no lugar da espiritualidade mesmo, porque nós três conversamos nesse mesmo lugar, somos ligados a religiões de matriz africana, com uma série de simbolismos importantes que a gente visualizou."

 

A Bahia será o primeiro estado a receber um show da banda após o lançamento do projeto. O grupo é uma das estrelas do projeto 'Rock N' Villas', uma noite intensa dedicada ao rock nacional, com a 1ª apresentação da banda em Lauro de Freitas, além do show do Roda de Rock. O show acontece no Villas Shows e Eventos, o antigo Villas Music, a partir das 19h, e os ingressos podem ser encontrados no site Meu Bilhete a R$ 90.

 

Ao ser questionado sobre como conseguir inserir um novo projeto no repertório, Tico usou a analogia de dar uma vacina em uma criança: primeiro você a distrai para depois conseguir aplicar o “novo” sem doer. A ideia é que a transição seja feita de forma “indolor”, para que o público conheça e se interesse pelo novo trabalho sem se assustar.

 

"Esse é o grande desafio, né? Porque as pessoas querem ouvir o hit. Querem ouvir as músicas que elas cantam. Então, é muito difícil, e é por isso que eu acho que alguns artistas de longa data, que já têm uma trajetória grande, têm muita dificuldade de conseguir renovar o seu legado, porque ficam aprisionados dentro de um ambiente aonde as pessoas querem ouvir só os hits, só o que é realmente muito conhecido, e às vezes perdem a oportunidade de ouvir músicas que podem abrir novos caminhos. Então, a construção do nosso show é super estratégica e eu estudo essa parte real. A gente vai incluir três músicas novas do álbum; a gente cria um ambiente ali dos hits para as pessoas estarem cantando e estarem vindo de uma euforia e depois coloca uma que elas não conhecem, e volta de novo para um ambiente que elas conhecem, para que assim você possa ir dando de pouquinho em pouquinho essa construção do álbum novo."

 

 

Uma das grandes surpresas do novo projeto da banda está ligada ao Carnaval. O apresentador e carnavalesco Milton Cunha é a estrela da música 'Vampira' junto ao grupo de rock, e a mistura surpreendeu quem não está ligado à cena.

 

"Ele é uma figura extraordinária, e a gente queria uma voz muito característica [para participar do disco]. Aí eu falei: 'E se a gente chamasse o Milton Cunha?'. Todo mundo começou a dar uma gargalhada, achando que a gente nunca conseguiria acessá-lo nesse lugar. Aí eu falei: 'Ah, quer saber? Vou mandar uma mensagem para ele aqui no Instagram', e ele me respondeu no mesmo dia e falou: 'Claro, é só você me mandar a música que eu vejo aqui e faço'. E aí a partir desse momento a gente entendeu que a nossa conexão está tão forte nesse lugar com as pessoas que têm a mesma vibração que a gente, que eu acho que isso é uma coisa de frequência vibracional."

 

O ROCK NO LUGAR POPULAR
O pop está ligado ao consumo, algo que se conecta com tendências mundiais, fácil de ser compreendido e apreciado pela maioria. Algo que vai contra o rock, estilo que por anos foi marginalizado, associado à delinquência e que até os dias atuais enfrenta desafios, especialmente com a questão da religião, por ser associado pelos mais conservadores à agressividade e ao "diabo".

 

Então, como ser pop e se manter pop após quase 30 anos de estrada? Ao BN, Tico relembrou os períodos de dificuldades sofridos pela banda nos últimos anos.

 

“Eu acho que a gente conseguiu fazer uma base sólida, mas passamos por momentos muito difíceis, de shows vazios, de lugares que a gente chegava e as pessoas estavam conectadas com outro estilo, porque é cíclico, as coisas mudam de tempos em tempos e a gente teve que atravessar esse período. Foi um período muito complicado, mas o Brasil entrou num ciclo destrutivo, de modo geral, com a cultura, que foi aquele período em que as pessoas começaram a criminalizar a cultura, e isso começou a reverberar em algumas áreas e ficou difícil, principalmente para o rock. Mas a gente se manteve criando. Eu acho que a gente conseguiu resistir por resiliência, por conseguir acreditar que continuar criando seria uma boa estratégia”, contou o artista.

 

 

Para Tico, a movimentação da maré, assim como a metáfora da vacina, consegue explicar como a música é cíclica, e até o "ser pop" consegue mudar em questão de segundos. É uma realidade: o rock já foi pop e teve seu auge nos anos 2000. Mas depois que a maré boa passou, só resistiu quem aprendeu a nadar, surfar ou ao menos boiar.

 

"A gente conseguiu construir uma base sólida e agora, depois da pandemia, a gente percebe que houve uma movimentação muito forte de novo, de festivais, de uma série de movimentos que trouxeram o rock para o protagonismo. É claro que hoje o rock não se compara a estilos tão populares como o sertanejo, ou como o pagode e o samba, que são músicas tradicionalmente brasileiras, mas a gente tem tido uma agenda muito positiva desde 2023”, disse.

 

Atualmente, a tábua de maré indica movimentação no mar. E o ditado popular sempre disse: "mar calmo nunca fez bom marinheiro". O cantor celebra o retorno dos festivais e o interesse do público no rock, como um marinheiro que aprendeu a superar a zona de conforto.

 

“Eu acho que isso mostra que a gente atravessou essa arrebentação. Agora tem que ficar sempre atento. Eu tenho uma relação muito boa com o mar e uso essa metáfora sempre. Você pode até ter passado da arrebentação, mas tem que estar ligado porque pode vir uma série ali para trazer a onda grande de novo e arrastar você. Ou você pode pegar essa onda e aproveitar ela, que é o que nós estamos tentando fazer agora.”

 

UM POUQUINHO DE BAHIA NO DETONAUTAS (ex-ROQUE CLUBE)
E se o assunto é popular, nada melhor do que regionalizar o assunto. Detonautas e Bahia… tem ligação?

 

Mote do Esporte Clube Bahia para a temporada de 2026, não há mentira nenhuma em dizer que ‘Todo Brasil Tem um Pouco de Bahia’, afinal, foi aqui que tudo começou. Mas se a referência do atual campeão baiano é o futebol, por aqui falamos do impacto do estado na música.

 

 

E, para o Detonautas, a Bahia está presente em um momento fundamental da banda: a criação de um dos álbuns mais icônicos do rock brasileiro e disco que levou a banda carioca ao Grammy, 'O Retorno de Saturno'.

 

"A Bahia tem uma relação muito forte com o Detonautas. Foi onde eu compus 'O Retorno de Saturno', que é o álbum que levou o Detonautas ao Grammy, e eu acredito muito nesse campo energético da Bahia, que é muito importante. E a gente está lançando o disco no dia 13, que é um número simbólico — não tem nada a ver com política. É na sexta-feira 13, que também é algo simbólico, em que as pessoas têm seus misticismos, etc., na Bahia, que também é um lugar simbólico para a gente. Então, eu acho que tem uma conjuntura aí para quem acredita."

 

A Bahia também aparece para a banda como inspiração. Afinal, um dos maiores nomes da música baiana, considerado o Pai da Axé Music, é também um roqueiro de corpo e alma: Luiz Caldas. Tico revelou que o artista o surpreendeu positivamente ao lançar o álbum de rock ‘From Dawn to Dusk’, com 11 faixas inéditas e autorais no gênero mais improvável para um ícone do axé.

 

Em meio aos 147 álbuns já lançados por Luiz Caldas, o artista tem outras referências ao rock, como em 'Castelo de Gelo', de 2010, e no 'Rock 16'. O estilo do artista baiano é o que conversa justamente com a nova fase do Detonautas.

 

 

"Eu tive uma experiência muito boa com o Luiz Caldas, que tem um álbum de rock pesado, porque ele é uma figura extraordinária. E aí, durante uma época, eu pegava o álbum do Luiz Caldas que é só de rock e colocava antes do show do Detonautas, tocando lá como se fosse um DJ, e as pessoas ficavam muito curiosas, do tipo: 'O que é isso aí que está tocando?'. E aí depois eu falava que era do Luiz Caldas e as pessoas não acreditavam."

 

A admiração do artista não para por aí: "Eu acho que a Bahia tem esse potencial de conseguir atravessar todos os lados da música, seja no axé, seja na mistura com rock, seja na mistura com outros gêneros, e manter a identidade."

 


Foto: Wally Guedes/Instagram

 

Para Tico, a experiência com o show em Lauro de Freitas é um caminho de retorno do Detonautas a Salvador. "A gente fica sempre na torcida de fazer esse show em Salvador. Já tem muitos anos que o Detonautas não faz um show aí. Então, espero que este ano a gente consiga construir, se não para este ano, o degrau para nos levar até Salvador no ano que vem", afirmou.