Caminhada do Samba chega a 18ª edição e deve levar 800 mil pessoas às ruas: “O samba é de todos nós"
Por Bianca Andrade
Arte popular, o nosso chão… É o povo que conduz o show e assina a direção. Em ‘Coisa de Pele’, o mestre Jorge Aragão já mostrava o sentimento do samba e do pagode, algo que só é sentido por quem está ali, vivendo aquela realidade.
Em 2026, o samba completa um marco centenário: os 110 anos da gravação do primeiro samba no Brasil, o registro da música “Pelo Telefone”, de 1916, de autoria de Donga e Mauro de Almeida.
Mas, antes de virar o ano, o samba é celebrado nas ruas de Salvador com a 18ª edição da Caminhada do Samba, evento idealizado pela Unesamba (União das Entidades de Samba da Bahia), que em 2025 promete levar cerca de 800 mil pessoas para o centro da cidade com um único propósito: comemorar um dos gêneros mais importantes para a construção da identidade baiana e brasileira.
Foto: Instagram/ unesamba
Em entrevista ao Bahia Notícias, Jairo da Mata, presidente da Unesamba e secretário-geral do Conselho Municipal do Carnaval de Salvador, falou sobre o evento, que reúne as nove entidades que compõem a Unesamba e artistas do gênero em uma grande festa.
“O projeto surgiu a partir de uma celebração do dia do samba, que é no dia 2 de dezembro. Há 18 anos a gente realiza este evento que leva para as ruas essa proposta festiva, mas também algo conceitual para toda a população de Salvador, aumentando esse nível de consciência coletiva acerca do gênero samba, que nasce aqui na Bahia, se materializa no Rio de Janeiro e ganha o mundo.”
Para Jairo, é necessário que o público entenda a Caminhada como algo além da festa, como uma forma de protesto e reflexão na salvaguarda do ritmo. “A comemoração é um momento de reflexão de onde nós viemos, a partir dos terreiros, e chegando até a sociedade atual. Várias lutas foram travadas para que a gente pudesse chegar aqui e essa luta é permanente. A gente precisa, cada vez mais, elevar o nível de consciência do que nós somos, a importância que nós temos para a economia da cidade, para o social, para a juventude, para que a gente consiga levar essa mensagem com clareza”.
Foto: Instagram/ @unesamba
A mensagem a qual o presidente da Unesamba se refere é a consciência de que o projeto tem o propósito de educação, de elevação da consciência coletiva. “As pessoas precisam entender a importância que o samba tem na formação social de cada ente e, sobretudo, da juventude que está chegando, que precisa se apropriar desse instrumento coletivo tão importante para a nossa formação”.
A Caminhada, que terá concentração a partir das 13h em frente ao Teatro Castro Alves, no Campo Grande, seguirá o percurso do circuito Osmar até o Largo da Casa D’Italia, quando seguirá o contrafluxo pela rua Carlos Gomes até a Praça Castro Alves, sendo cerca de cinco quilômetros de trajeto ao som do que faz os pés se moverem no ritmo da canção.
Quem for prestigiar a festa, poderá conferir o desfile de blocos tradicionais e de artistas da nova geração, entusiastas do samba, que passaram a se dedicar ao ritmo com vigor. Entre as estrelas da Caminhada estão: Alvorada (Ala de Canto do Alvorada e Aline Souza); Alerta Geral (Swing do Fora e convidados); Pagode Total, Proibido Proibir (Samba Trator); Reduto do Samba (Escandurras); Vem Sambar (Dan Mocidade); Amor e Paixão (Eduardinho); Samba Popular (Morango, Samba Top, A Grande Família, Tonho Matéria, Samba L A e J. M.) e Q'Felicidade (JAMBAHIA e convidados).
Foto: Instagram/ @unesamba
Na lista de gêneros mais consumidos do ano, levantamento indicado pelas plataformas de streaming, o samba tem apontado uma crescente há alguns anos, tanto no número de ouvintes quanto no número de eventos direcionados ao estilo musical. O fato é celebrado por quem faz samba, e para Jairo, é essencial que a nova geração se interesse pela cultura.
O presidente da Unesamba reforça que o aumento no consumo não foi algo que aconteceu da noite para o dia e faz parte de um processo iniciado pelos mais velhos para salvaguardar o samba.
“Esse consumo elevado que o samba alcançou na cidade é justamente pelos instrumentos que nós estamos praticando. A Unesamba tem tido importância significativa nesse processo porque ela exterioriza e viabiliza a formação de novos atores, ela insere no mercado novos grupos e a gente alimenta toda essa cadeia. Para você ter uma ideia, em todo canto da cidade de Salvador, em todas as periferias e não só na periferia da cidade, mas hoje na sociedade soteropolitana o samba é executado, mas isso não foi de uma noite para o dia, foi a partir de ações, de formação de novos grupos, e através de discussões filosóficas, sociológicas, de seminários e fóruns que nós fazemos. Isso criou no ambiente coletivo um sentido de pertencimento, um sentido de que o samba é nosso, o samba tem um sentido de formação.”
Foto: Divulgação
Durante o papo, Jairo da Mata citou eventos como Banjo Novo, idealizado por Samora Lopes, que veio da família do Bloco Alvorada e vivia nos bastidores da música, e o Suco de Bahia, projeto tocado por Taian Riachão, neto do lendário mestre Riachão, responsáveis por despertar o interesse da nova geração no samba.
“Eu sou uma pessoa de 71 anos, mas eu sou apaixonado pela inovação. Então, eu creio que a chegada dessa juventude, que é oriunda do samba, é de grande importância para que o samba continue a acontecer. Essa juventude precisa ter espaço e é isso que a gente precisa fazer, abrir esses caminhos para que eles possam se consolidar, porque a gente não é eterno. Nós estamos aqui de passagem, mas nós queremos que a nossa cultura permaneça e para que a nossa cultura possa permanecer é preciso cuidar, formar novos elementos e abrir caminho, porque o samba é de todos nós.”
Para além da caminhada, o presidente da Unesamba reforça que o trabalho para salvaguardar o gênero é feito ao longo de todo ano e em toda a comunidade. “Se nós não cuidarmos desse elemento cultural essencial das nossas vidas, a gente vai perder muito na nossa formação. Além da Caminhada, nós promovemos o Seminário Nacional do Samba, temos o Samba da Feira, que é executado por um dos participantes da Unesamba, temos projetos sendo desenvolvidos em todas as comunidades de Salvador e atividades que vão desde a música até a formação mesmo”.
Como citado no início da matéria, em 2026, o samba terá um protagonismo ainda maior no Carnaval de Salvador. Os 110 anos da primeira gravação de um samba será tema da festa na capital baiana e o fato só poderá ser celebrado se o gênero realmente tiver espaço na folia, para além do que já é de praxe, como a quinta-feira dedicada ao samba no Circuito Osmar.
“Esperamos que o poder público, os executores da festa, o prefeito, a Secretaria de Cultura e Turismo e a Saltur, dialoguem com a Unesamba e com os demais membros que fazem o carnaval de samba da cidade para entender a nossa realidade. Nós temos, por exemplo, figuras marcantes na nossa cidade que não podem deixar de compor o cenário da celebração, Nelson Rufino, Edil Pacheco, Gal do Beco. A homenagem é um motivo de celebração, mas esperamos que a nossa voz seja realmente ouvida”.
