De Maju a Ludmilla: Racismo estrutural não é assumido, mas aumenta cobrança no Brasil
Por Júnior Moreira Bordalo
O ano é 2019, mas a jornalista Maria Julia Coutinho foi alvo de críticas ao promover um feito inédito: tornou-se a primeira jornalista negra a assumir como titular a bancada do “Jornal Hoje”, da Rede Globo, no início de outubro (relembre aqui). O ano é 2019, porém Ludmilla foi chamada de “macaca” por uma plateia ao ser a primeira negra a ganhar o troféu de “Melhor Cantora” no Prêmio Multishow, também realizado em outubro (veja aqui). O que esses casos têm em comum? Racismo estrutural.
Por racismo estrutural entende-se o conjunto de práticas, hábitos, situações e falas que promovem, direta ou indiretamente, a segregação ou o preconceito racial. Pode ser visualizado pela repulsa causada quando uma pessoa negra ocupa um lugar por muito tempo destinado à elite - que no caso do Brasil tem uma cor específica -, como a presença em universidades ou programas de televisão. Presente em todas as esferas sociais, é considerado uma das formas mais perigosas por ser, muitas vezes, imperceptível.
No caso com Maju, o episódio ainda foi mais profundo. Como nunca visto com outro profissional na mesma situação, um site contabilizou a quantidade de tropeços na leitura de teleprompter (equipamento acoplado às câmaras de vídeo que exibe o texto a ser lido pelo apresentador) e até indicou seus “momentos de insegurança”.

Cleidiana Ramos / Camila Santos | Montagem: Bahia Notícias
Para a psicóloga Camila Santos, ao conseguir furar a barreira do preconceito e se destacar em sua área, “muitas vezes [o profissional] é cobrado a exercer tal função de forma impecável, cobrança essa que o sujeito não negro muitas vezes não recebe”.
“Constantemente se é colocado para esse indivíduo um estereótipo, seja sob seu corpo (mulher forte, tem um limiar de dor maior; hipersexualização), seja sob seu intelecto (destinado a atividades braçais, ocupando lugares mais inferiores nas hierarquias das empresas). Quando existe um sujeito que quebra com esse lógica, que age de forma disruptiva, ele é sempre mal visto, pois foi de encontro ao imaginário racista”, explicou.
Uma das maiores vozes da Axé Music, a cantora Marcia Short, que ficou nacionalmente conhecida no final dos anos 90 pelo sucesso na Banda Mel, admitiu que este traço do racismo é o grande empecilho de sua carreira. “Atrapalha até hoje. Por isso é importante falar do assunto o tempo todo. Na Bahia, quanto mais embranquecido, mais sucesso faz. Todas as tendências saíram do gueto, onde a ‘preta’ é maioria. Porém, é preciso que os movimentos 'embranqueçam' para ficar bom. Quando a gente inventa, não tem o mesmo espaço”, criticou.

Marcia Short | Foto: Reprodução / Instagram
No Brasil, a causa do racismo é entendida pelos estudiosos como resultado direto do longo processo de escravização da população africana somado à tardia abolição da mesma, já que foi o último país ocidental a extinguir a escravidão. E ao contrário de outros lugares, os povos “libertos” pela Lei Áurea, promulgada em 13 de maio de 1888, não foram inseridos nas discussões sociais.
Ou seja, não se criou um sistema de políticas públicas para que estas pessoas e seus descendentes tivessem acesso a direitos básicos, como moradia, saúde e alimentação, além do estudo formal e posições no mercado de trabalho. Como consequência, tem-se a perpetuação de um sistema de marginalização até os dias atuais.
“Temos mais de 300 anos de um processo de escravidão e menos de 200 de abolição. Naquele momento, disseram que as pessoas estavam livres, mas não trouxeram nenhum tipo de inserção”, frisou a jornalista e doutora em antropologia Cleidiana Ramos. “Depois, a República faz outra coisa grave. Quando partem para a articulação da expansão agrícola no Brasil, eles trazem estrangeiros para cá. São dados benefícios aos imigrantes italianos, alemães e um pouco aos japoneses. Novamente, estas pessoas que construíram durante anos não são incluídas no que já sabiam fazer”, acrescentou a pesquisadora.
Na sua análise não é um coincidência que todas as famílias negras - até a sua geração - sejam compostam por bisavós analfabetos, avós que no máximo sabem assinar os nomes, pais e mães que fizeram as primeiras séries. "Desse modo, é a quarta ou quinta geração que vai ter os primeiros universitários. Quando a gente olha o passado, consegue entender os motivos. O Brasil só passou a fazer ações afirmativas em 2003”, contextualizou Ramos.
Camila Santos apontou ainda que estas marcas são capazes de gerar quadros patológicos como depressão, transtorno de ansiedade e assim por diante. “Por ser estrutural, o racismo perpassa toda a vivência do povo negro desde o nascimento dessa criança, seu acesso e sua passagem pelo período escolar, até a entrada no mercado de trabalho e a possibilidade (ou não) de se aposentar. Independente da sua classe social, a todo momento o sujeito negro é lembrado que ele é um ‘sujeito negro’ e não só um ‘sujeito’”, apontou.
Enquanto isso, Márcia Short reafirmou que esta realidade permeia sua carreira a todo instante e que permanecerá na resistência. "Não vou desistir. Sei meu valor, meu peso e a voz que ganhei de presente e é isso que vai mover. O melhor de tudo é saber que não se pode passar pela história da música da Bahia sem passar por essa preta aqui e vários outros pretos”, salientou.
OCUPAR ESPAÇOS
Há dois anos na TV Câmara e um ano e três meses integrando o time de repórteres da RecordTV Itapoan, a jornalista Tarsilla Alvarindo sente na pele diariamente essa necessidade de “ser perfeita”. A vontade de estar no vídeo vem da infância, mas por muito tempo descartou a possibilidade. “Não me via. Era um sonho que ficou morto lá dentro. Ficava pensando que para substituir Glória Maria seria difícil, pois muitas outras pessoas estariam na frente. Era como se fosse a única oportunidade”, lembrou.
Na TV ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, a equipe de repórteres só tem três negros, sendo ela a única mulher. “Sinto falta [de mais pessoas] sobretudo por conta da importância de estarmos nesses espaços para que outras pessoas tenham o interesse em estar ali”, explanou. Muitas vezes “sozinha” nos espaços, ela sente a obrigação de “se provar e se cobrar a todo instante”.

Tarsilla Alvarindo | Foto: Reprodução / Instagram
“A gente passou a vida inteira fazendo assim na escola, no mercado de trabalho... Temos que exibir o tempo inteiro o quão bons somos. As outras pessoas podem ser medianas, a gente não. É preciso fazer muito sempre. Entendemos que estar ali é difícil. Precisamos fazer de tudo para permanecer”, destacou e completou: “Somado ao fato de estar sempre bem vestida, maquiada, cabelo arrumado... Se algo não estiver bom, vira justificativa”.
Na edição de outubro da revista Piauí, a jornalista Yasmin Santos fez um retrato dos negros na imprensa brasileira trazendo suas experiências para o foco da história, no texto "Letra Preta". Em diversos relatos de colegas da profissão, abordou a questão da solidão nestes ambientes. “Uma jornalista de 44 anos contou que seus problemas aumentaram conforme ganhou proeminência. Após ter sido premiada por uma reportagem, foi recebida na redação por repórteres que entoavam: ‘Esso, Esso, Esso/a negrinha é um sucesso’. O Esso da cantiga fazia referência ao então principal prêmio de jornalismo do país. Ela me disse também que foi chamada várias vezes por seus editores em reuniões de pauta de “nega”. 'Eu perdi meu nome lá. Eu era a nega'", explanou em um dos parágrafos.
Diante desses históricos, Camila Santos lembrou que os danos para a mente humana podem ser dilaceradores. Trouxe que as dificuldades ao acesso à saúde de qualidade, os empecilhos para adentrar ao mercado de trabalho e até mesmo as violências muitas vezes minimizadas e interpretadas como “brincadeiras” minam a autoestima desses sujeitos, que, neste momento, já encontra poucos pares em lugares de sucesso. Para a profissional, esse combo afeta diretamente a criação e o fortalecimento da autoestima, podendo gerar desesperança, desvalorização, falta de pertencimento, além de propiciar ao isolamento social e, consequentemente, se desdobrar em um quadro de patologia.
COMO COMBATER
Negro, homossexual, em um relacionamento estável com outro homem há quase 10 anos, e transformista. O ator e bailarino baiano Anderson Danttas, que ganhou notoreidade como a drag queen Dandara ao vencer o concurso "Eu Lacro", do programa "Universo", da TV Aratu, acabou de retornar da Europa (relembre aqui). Pela segunda vez, o artista esteve no Velho Continente circulando com o espetáculo "Polifonias", montado para mostrar como os corpos dialogam numa mistura das danças populares do Brasil, a exemplo do samba de roda do Recôncavo, e as danças populares da Polônia, como o oberek, em meio à contemporaneidade.

Anderson Danttas de Dandara | Foto: Reprodução / Instagram
Em seu corpo, carrega as marcas do preconceito. “A gente já tem uma carga ancestral muito forte, que é muito interessante, mas que vem junto com o racismo, independente da condição social, da profissão que você ocupe, do afazer que desenvolva, seja artístico ou administrativo. As pessoas sempre vão ter o primeiro olhar da dúvida. E te julgam mesmo. Mesmo que você se aproxime da realidade branca, no sentido do que a imagem te sugere enquanto a roupa e código social, o tempo inteiro a gente tem essa carga e essa demanda por conta do legado histórico. É um fardo”, lamentou.
Para ele, a maior dificuldade no combate do racismo é encarar que as oportunidades no meio artístico são escassas, já que precisa "brigar" por testes para atuação ou para dança. Danttas reforça que não é uma questão de mérito ou merecimento. "A imagem que dizem ser a que vende não é a minha, pois é padronizada. A não ser quando se trata de um perfil específico. Acho que o cenário está melhorando, embora o preconceito seja muito visível”, desabafou.
O sociólogo e político brasileiro Florestan Fernandes disse em 1965 que o “brasileiro tem preconceito de ter preconceito”. Por isso, diante de todas as considerações, Cleidiana reiterou que não tem como discutir o Brasil fazendo de conta que a questão racial não existe. “Há sim desigualdade de fundo racial e não é negando o racismo que ele irá deixar de existir como mágica. Seria muito legal se a gente dissesse e sumisse. Mas não é assim. Essa tentativa de negação é a negação do próprio país”, pontuou.
Contudo, Camila vê o “aquilombamento” como ponto positivo para fortalecer o entendimento enquanto seres negros na sociedade ainda preconceituosa. O movimento tem por objetivo reunir os pares como ferramenta importante de autocuidado e até mesmo de sobrevivência. A psicóloga revela que percebe nos consultórios uma tomada de consciência da população negra, em especial da população jovem, ao se reconhecer como vítima de um sistema que ainda sofre os efeitos de quase quatro séculos de escravização.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a população negra tem 2,7 mais chances de ser vítima de assassinato do que os brancos. Os dados são do informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil divulgados no dia 13 de novembro de 2019. Enquanto a violência contra pessoas brancas se mantém estável, a taxa de homicídio de pretos e pardos aumentou em todas as faixas etárias. Em outras palavras, além de lidar com todo o racismo estrutural a sua volta, a população negra precisa batalhar para sobreviver neste cenário.
Assim, Cleidiana advertiu que para o combate do racismo estrutural é preciso que as próprias empresas façam um processo educativo interno de forma ampla, em que as pessoas comecem a ser sensibilizadas para entender e fazer a mea-culpa. "É uma questão que passa primeiro pela educação. Está mudando, mas ainda temos um longo caminho a percorrer”, admitiu a doutora em antropologia.
