Clássico noturno, 'Você Decide' pode retornar à Globo em novo formato, adianta João Falcão
Por Júnior Moreira Bordalo
A famosa frase “Telefone, participe, dê a sua opinião. Porque aqui, o final você decide” pode voltar à programação da Globo. Quer dizer, provavelmente com algumas alterações. Isso porque o clássico noturno “Você Decide” da TV Globo, que ficou no ar por 18 anos até agosto de 2000, ganhará uma nova leva de episódios. Pelo menos, novos episódios foram escritos. A novidade já vinha sendo ventilada por alguns veículos, porém em entrevista ao Bahia Notícias, o roteirista da produção João Falcão – ao lado de Guell Arraes – confirmou o projeto e revelou mudanças.
“Está escrito e com vários episódios prontos, mas é muito complicado estruturalmente, pois é preciso gravar várias saídas. O formato agora será diferente do anterior. Antigamente, o público escolhia o final, agora as pessoas irão escolher por qual caminho a história irá. Então, a gente escreve para gravar várias versões”, explicou. Contudo, aos entusiastas ele adiantou que ainda não sabe quando e nem se será exibido. “Não sei quando sairá do papel. Acredito que não será mais para esse ano. O formato é muito interessante. No final das contas é legal porque a audiência que conduz tudo”.
Para quem não sabe, Falcão está em temporada por Salvador. Após dirigir no início do ano o musical “Sonho de uma noite de verão na Bahia”, adaptado de “Sonho de uma noite de verão”, livro de Adriana Falcão que remonta o clássico de William Shakespeare (veja aqui), o dramaturgo esteve em cartaz no último final de semana com a leitura dramática de “O Pequenino Grão de Areia”. O evento integrou a terceira edição da Flipelô e foi apresentado na Casa de Castro Alves, no bairro do Santo Antônio Além do Carmo (relembre aqui). Para ele, a Terra do Axé pode virar um celeiro de musicais, assim como Rio de Janeiro e São Paulo.
“Acho que a produção musical aqui é muito grande. Os músicos, compositores e cantores são bons e ao mesmo tempo Salvador tem um polo de produção teatral, com grandes escolas de teatro. Então, é muito agradável ver que o teatro aqui tem uma produção muito séria. Acho que o eixo Rio-São Paulo tem uma coisa do musical importado, de franquia, que não me interessa tanto. O que é feito aqui é original. Está na frente”, explanou.

Na conversa, pontuou que gosta de apostar em jovens artistas justamente pela disponibilidade. “Não têm compromisso com algo que já adquiriram, como carreira e estilo. É essencial na arte arriscar”, frisou. “Já fiz televisão, cinema e gosto ainda, mas o teatro é onde posso experimentar todos os dias. Depende basicamente do humano. O teatro é o maior legado, é onde a coisa acontece. A possibilidade de conhecer novos artistas, de pode trabalhar por mais tempo com eles é cativante”, vibrou.
Responsável por sucessos na TV, teatro e cinema, a exemplo de “O Auto da Compadecida”, “A Dona da História”, “Sexo Frágil”, “Clandestinos” e “Ó Paí Ó”, ele também ajudou a revelar talentos da dramaturgia como Lázaro Ramos, Wagner Moura e Vladimir Brichta. Porém, algo que nunca experimentou foi escrever novela, principal produto da Globo. O motivo? Acha que não seria capaz. “Tenho uma coisa com o texto... às vezes, fico o dia inteiro em uma página, sabe? Novela é cansativo, são 40 páginas por dia. Não conseguiria escrever um capítulo por dia. Admiro muito quem faz, mas não sou muito produtivo em quantidade. Gosto do artesanato do texto. Em novela você tem que ser desapegado disso. Não consigo escrever sem revisar cada palavra, vírgula...”, avaliou.
Contudo, acredita que o produto ainda terá muito futuro, mas “não é mais aquela única coisa que todo mundo vê”. “Quando jovem, assistia muitas novelas. Adorava, pois era uma das poucas coisas que se tinha para ver dramaturgia, já que o cinema brasileiro não era tão popular. Hoje, o público tem várias opções e formas de consumo. A novela virou uma delas. Por exemplo, as pessoas já assistem fora do horário que é exibida, através do GloboPlay”, lembrou.
MOMENTO DO BRASIL
Diante de um cenário em que a produção cultural tende a ser controlada, perspectiva provada pela própria postura do presidente Jair Bolsonaro ao dizer que não “admitirá produções fora dos interesses e tradição judaico-cristã" feitas pela Agência Nacional de Cinema (Ancine), o pernambucano prefere ter esperança. “Acho que não há dúvidas que estamos passando por um momento obscuro, estranho e assustador. Porém, ao mesmo tempo, a história mostra que há o renascimento de valores humanos em crises”, ponderou.
Por outro lado, para aqueles que sonham em ser artistas, ele foi enfático. “Acho que tem que pensar que não é um ramo fácil. A primeira coisa que se dispensa é a cultura no nosso País. Pense mesmo se não tem outra coisa que queira fazer. Desculpa se é pessimista, mas é um negócio que pede muito de você e tem um retorno muito incerto. Nada do que faça concretamente vai dizer se você conseguirá. Você pode ser excelente e não ter algo que a pessoa queira. É uma atividade que o concreto não determina”.
