Sábado, 09 de Fevereiro de 2019 - 13:40

Diretora da Vogue causa polêmica por festa em Salvador com negras ‘vestidas de escravas’

por Júnior Moreira Bordalo

Diretora da Vogue causa polêmica por festa em Salvador com negras ‘vestidas de escravas’
Foto: Reprodução / Instagram

A diretora da Vogue Brasil, Donata Meirelles, decidiu comemorar seu aniversário de 50 anos em Salvador. Os festejos durarão todo o final de semana, porém o pontapé está rendendo polêmica nas redes sociais. Isso porque, ela promoveu um jantar nesta sexta-feira (08), no Palácio da Aclamação, no Campo Grande, em que o tema - pelo que se observa nas fotos divulgadas - foi algo em torno do "Brasil Colônia". Para isso, mulheres negras foram colocadas "fantasiadas de mucamas" com abanadores ao lado do "trono" para fazer a recepção dos convidados.

 

A jornalista baiana Rita Batista foi uma das primeiras a questionar o "tema" escolhido. "'Já as escravas de casas ricas eram adornadas por seus próprios senhores. Quando saíam para as ruas acompanhando suas senhoras ou crianças, eram exibidas em trajes finos e carregadas de joias. A própria escrava era um objeto de ostentação do dono, um objeto de luxo a ser mostrado publicamente'. Trecho do livro "Jóias de Crioula" de Laura Cunha e Thomas Milz. A primeira foto foi tirada entre 1870 e 1880 por Guilherme Gaensly, a segunda é de 2019 mesmo", escreveu.

Logo cedo, a também jornalista e professora da Universidade Federal da Bahia, Malu Fontes, fez uma provocação em suas redes sociais. No seu perfil, a comunicadora questionou a revolta seletiva em situações semelhantes, como os ataques que Daniela Mercury recebe por “apropriação cultural”. “Tenho é muitas perguntas, muita ironia na interpretação do comportamento de muita gente e algumas hipóteses para o silêncio de muitos dos pretos e das pretas empoderados/as, e que volta e meia, por exemplo, descem o cacete em Daniela Mercury porque ela canta ‘eu sou neguinha’ e ‘a cor dessa cidade sou eu/o canto dessa cidade sou eu/é meu’. Vem cá, vocês que sopram o bafo quente de ataques a Daniela, que a acusam de black face: por que vocês fazem tanto barulho com esse verso na canção dela ‘a cor dessa cidade sou eu/o canto dessa cidade é meu’ e estão nesse silêncio todo sobre esse tipo de figuração negra nessa festa?”, indagou.  

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

DANIELA, FIGURAÇÃO NEGRA E SILÊNCIOS CONVENIENTES - Me perguntam: por que os pretos da Bahia ainda se submetem a isso, Malu? [A fazerem, felizes, figuração cênica para ilustrar a lacração da brancolândia (expressão do querido Roberto Albergaria) em suas festas hypadas?] E eu lá tenho respostas. Primeiro: se eu TENTASSE responder à pergunta, antes de concluir um sujeito + um verbo + um predicado, apareceria alguém para problematizar e dizer que não tenho “lugar de fala”. E não quero lugar de fala de ninguém. Só quero minha liberdade de expressão e pensamento. Pelo resto, Deus me free de briga por causas pelas quais já há um monte de gente com lugar de fala para dizer as coisas. Eu não tenho nem quero ter respostas prontas para isso. Tenho é muitas perguntas, muita ironia na interpretação do comportamento de muita gente e algumas hipóteses para o silêncio de muitos dos pretos e das pretas empoderados/as, e que volta e meia, por exemplo, descem o cacete em Daniela Mercury porque ela canta “eu sou neguinha” e “a cor dessa cidade sou eu/o canto dessa cidade sou eu/é meu”. Vem cá, vocês que sopram o bafo quente de ataques a Daniela, que a acusam de black face: por que vocês fazem tanto barulho com esse verso na canção dela “a cor dessa cidade sou eu/o canto dessa cidade é meu” e estão nesse silêncio todo sobre esse tipo de figuração negra nessa festa? Porque falar de Daniela gera likes e não fecha espaço midiáticos pelos quais muitos dão os dois rins. Ninguém quer ficar mal na fita com os deuses da terrinha, né? A coragem vai até a página 02. Ah, e nem venha me perguntar aqui que festa foi essa. Não sou um botão que se aperta para perguntar coisas. Cê não tem Google não? Vá lá ver. Acharam tudo lindo? Então, ótimo. Já sei que nunca leu Casa Grande e Senzala. Ainda dá tempo. Continua atualíssimo. Você aí que lacra nas redes contra Daniela por conta disso, jura que não tem nadinha a dizer sobre a figuração desses retratos? Estou bege. Me joga flores que estou morta com seu silêncio conveniente...

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"Bizarro é o mínimo pra começar a falar do sentimento desse povo...loucos, vivendo psicoses, delírios indizíveis", "Como diriam alguns sociólogos, escravidão no Brasil nunca acabou. Apenas mudou de nome", "A colonialidade bem a moda da casa. Tão previsível quanto cafona e deselegante. Muda o século, mas os padrões de comportamento, pensamento e lugares seguem tão intactos que é assustador. E respira fundo que são três dias de festa. Hoje, tem mais espumante e mucama pra elite se deliciar", foram alguns outros comentários deixados nas redes sociais.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma diretora de uma famosa revista fez 50 anos ontem 08/02 e comemorou com seus amigos num hotel luxuoso na Bahia com vários artistas famosos,até aqui tudo bem! A decoração da sua festa foi Brasil Colônia Escravocrata, com direito a mulheres pretas vestidas de mucama ambientando a festa e recebendo os convidados, como vimos na foto até o trono da sinhá tinha. Terão pessoas nesse post que falarão que não viram problemas nenhum que é mimimi e por aí vai, pois qdo não se sabe argumentar utilizam dessas falácias pra tentar reverter o irreversível. A branquitude (não estou falando do indivíduo e sim de uma sociedade privilegiada por ter a pele alvo mais que a neve) voltando... A branquitude ama vivenciar o ranço da escravidão, pq a final de contas eles gostariam que não tivesse acabado mas, será que acabou? Vivemos na tal escravidão moderna, onde nossas dores viram fantasias, decoração de festas pra beneficiar o mal gosto das sinhás e sinhóres. A senzala moderna continua sendo o quartinho da empregada. Quando leio sobre escravidão dá um nó na garganta, arrepia a pele e é óbvio que sinto meu corpo doer, sinto as dores dos meus ancestrais, afinal de contas fazem apenas 131 anos que o Brasil “deixou” de ser escravocrata. Nossas dores não pode ser fantasias, estampa de roupa ou decoração. O problema do racismo nem é dos pretos e de vcs que estão sentados nesse trono aí da foto trabalhados no privilégio, sendo assim revejam! E a sua riqueza hoje tem sangue indígena e preto, o que vc faz pra reparar essa história? E eu cobro mesmo, seja na internet ou cara a cara, pq aqui não passa batido não. Um povo sem história é um povo sem memória, a nossa história nesse país foi escrita com sangue, morte e dor e estamos aqui pra dar uma nova sequência para que não esqueçamos o nosso passado porém reescrever essa história atual de luta, resistência e sorriso, pq sorrir para nós tbm é um ato político! O tempo fechou pra vcs branquitude e agora não abaixaremos mais a cabeça até que todxs pretxs sejam realmente livres ????? . No meu storie tem mais fotos desses absurdos #PretaRara #BeemBonita #PesaDona #doshow50

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O evento contou com shows de Orquestra Rumpilezz e de Caetano Veloso. Além da presença de famosos, como Regina Casé, a aniversariante ainda recebeu uma mensagem de parabéns do ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton. Neste sábado (9), a celebração continuará no restaurante Amado, na Avenida Contorno, com shows de Preta Gil e Ivete Sangalo. Já no domingo (10), Gilberto Gil comandará o evento, de acordo com informações do Alô Alô Bahia. 

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