Racismo e ameaça de morte na boate Lótus
Por Rafael Albuquerque
Há muito que se luta contra o racismo, principalmente em Salvador, cidade em que 87% da população é de negros e mestiços. Aqui, foi criada inclusive a Promotoria Especial de Combate ao Racismo, pelo Ministério Público. Mesmo com todas essas ações para coibir e reprimir os atos de racismo, aconteceu em Salvador mais um caso desse tipo de discriminação.
A prática criminosa, desta vez, ocorreu em uma das casas noturnas mais conceituadas de Salvador; a Lótus. Na noite de 29 de setembro, o estudante de Direito Leonardo Seyin Santos Owadokun foi à boate com um grupo de amigos comemorar a excelente nota que havia obtido num trabalho da faculdade. Após ter curtido a noite e já ter pago a conta para ir embora, Leonardo foi ao banheiro da boate. Foi lá que começaram as atrocidades.
Segundo o estudante, tudo começou por volta das 3h da madrugada: “Estava no banheiro e fui agressivamente abordado por seguranças da boate, que me acusavam de haver urinado em um copo e ainda ter feito o uso de cocaína”, disse.
Leonardo vai adiante: “Após refutar as acusações falsas contra mim, passei a ser absurdamente agredido moral e fisicamente. Os seguranças receberam ordens da direção da casa e me expulsaram aos gritos de 'preto safado', 'crioulo desavergonhado' e 'negão cheirador'”, declarou. Por conta das agressões físicas, o estudante sofreu várias lesões de natureza grave e teve um dos braços quebrado.
Veja o que o estudante disse sobre a agressão moral que sofreu das administradoras da boate: “Como se fosse pouco, as administradoras do estabelecimento também me acusaram de ser consumidor de drogas e de não procurar o meu lugar, pois a Lótus era lugar de branco”. O boletim de ocorrência das agressões foi lavrado na 14ª, na Barra.
O advogado do estudante, Carlos Alberto Torres, já entrou com uma representação no Ministério Público e fez o pedido da prisão provisória de todos os réus envolvidos no crime, inclusive das sócias da boate, Josiane Batista Pitarães e Maria Rosário dos Santos. Segundo o advogado, “O Código Penal diz que é possível decretar a prisão provisória quando ele vê solto os réus, que, por sua influência e poder econômico, podem interferir no processo”.
Ainda conforme o advogado do estudante, as duas testemunhas que devem depor contra a casa noturna receberam ameaças de morte por telefone. “As testemunhas disseram que receberam ligações com avisos de que se fossem depor, acordariam com a boca cheia de formiga”.
O outro lado da história:
A Lótus nega a denúncia e alega, através de Roberta Carvalho, gerente da boate, que as administradoras citadas como agressoras racistas são as sócias investidoras do empreendimento e não participaram da operação noturna. Quanto aos seguranças, a gerente da boate disse que são funcionários de uma empresa terceirizada, mas que são altamente treinados e regularizados.
Foto: Max Haack