A Revelação deste carnaval diz que deseja ser Daniela Mercury e comenta "abandono" de Durval
Maristela Müller é uma verdadeira "Goiaba", como ela mesma gosta de se intitular. Mas antes de chegar a Salvador e criar a sua própria identidade na música, a cantora Revelação do Carnaval contou que sonhava em ser "a própria Daniela Mercury", aliás, uma das grandes responsáveis pelo caminho da loirinha pelas vertentes do axé. Em meio a muitas risadas e num bate-papo descontraído, Maristela não conseguiu fugir da "pimentinha" que já faz parte desta coluna. A cantora comentou sua indicação consecutiva numa das categorias mais polêmicas do Troféu Dodô e Osmar, a de Cantora Revelação, a qual faturou o prêmio este ano, mas saiu de mãos abanando no ano passado, quando sua concorrente, Luana Monalisa, levou a melhor "em cima" dela. Müller credita a vitória de Luana ao apoio da TV Aratu. Confira este ardor de entrevista!

"Claro que prefiro ser indicada no próximo carnaval como melhor banda, melhor cantora, melhor música, melhor bloco"
Coluna Holofote: Você é de Salvador?
Maristela Müller: Sou “soteropolitana e sou baiana” de coração, mas nasci na linda cidade de Porangatú, no interior de Goiás. Sou, na verdade, uma verdadeira "Goiaba" – goiana com baiana. (risos)
CH: Como você chegou até a cidade?
MM: Durval Lelis foi o grande incentivador para essa minha decisão. Quando ele foi agraciado com o título de Cidadão Goianiense, fez uma promessa de que queria fazer alguma coisa por Goiás abrindo seu estúdio para gravação “free” do meu CD.
A partir daquela promessa decidi que minha meta era vir para Salvador pois o artista de Axé tem que receber a bênção do Sr. do Bonfim, senão acaba se tornando um cantor regional que era o meu caso na época.
CH: Pois é. Todo cantor que está iniciando tem um padrinho ou madrinha. Durval te trouxe e te abandonou?
MM: Ao contrário, foi extremamente importante em minha carreira. Me deu muito apoio, abrindo seu trio elétrico e suas trivelas para participações especialíssimas, liberando sua música "Dia dos Namorados" para meu CD e sua participação mais que especial comigo na música "Prá Variar" de Alexandre Peixe e Beto Garrido. Ele foi extremamente honesto quando me disse que ia me apresentar alguns produtores de musica baiana porque ele só entendia de Asa de Águia.
CH: Você não conseguiu fazer sucesso lá?
MM: Goiás, a terra do sertanejo, foi meu maior desafio. Consegui conquistar os goianos e fiz uma boa relação de amizade com os grandes nomes da música baiana como Bell, Durval, Tatau, Tuca e Manno do Jammil, Ivete participando dos principais eventos de Axé Music em toda região englobando Brasília, Tocantins, interior de São Paulo, Minas e Goiás.
CH: Você já gostava de cantar axé ou resolveu entrar nessa pelo sonho apenas de ser cantora, independente de um estilo musical?
MM: Comecei a trabalhar muito cedo. Meu primeiro contato com a música foi através do instrumento quando minha mãe me obrigou a estudar piano. Logo percebi que aquela seria minha opção de futuro. Em pouco tempo, já estava tocando e cantando em casamentos, funerais, formaturas, festas de debutantes, aniversários e principalmente na igreja, acompanhando as missas.
Interessante que meu cachê era, quase sempre, um livro de música. Não sei se era porque não tocava bem ou porque gostavam de meu trabalho e queriam o meu crescimento profissional. Cheguei a fazer até 5 eventos no mesmo dia! Minha mãe dizia que já toquei em tantos casamentos que acabaram não dando certo que, provavelmente, devo demorar ainda muito para me casar (risos).
CH: Mas e profissionalmente, como começou?
MM: Como cantora profissional foi na banda de baile Mec Music que me destaquei na região. Cantava de tudo um pouco, do bolero à musica internacional. Eram noites e mais noites perdidas nas estradas de Goiás. Foi assim que conheci o trabalho de Daniela Mercury e me encantei pelo axé, pois além de minha paixão pela música, gostava muito da área de dança. Eu queria ser a própria Daniela. Essa profissional extremamente competente me encantou e foi minha principal referência. Toda artista precisa de uma referência. Posteriormente, conheci Margareth Menezes, essa baiana maravilhosa com uma marcante presença no palco, Ivete que me encantou com sua forma irreverente de fazer música além de Bell, Durval, Tuca, Tatau, Netinho e outros grandes nomes do axé. Hoje procuro cada vez mais desenvolver um trabalho com identidade definida, sem copiar ninguém, para que um dia poder ser referência para novos artistas. No desenvolvimento da criação dessa identidade, registro a importância de um produtor musical experiente que, com sua gama de informações, vai lapidar e moldar o novo artista.
CH: E você acha que tem esse grande produtor musical?
MM: No meu caso tive a alegria de encontrar aquele que costumo chamar de o “maior produtor de música baiana do universo” (ele não gosta disso), o baiano Wesley Rangel - famoso WR - que além de dar a direção para meu trabalho, participou da elaboração de todos os grandes sucessos da música baiana desde 1985 quando produziu o primeiro disco "Axé - Magia" com Luiz Caldas e vem participando até hoje de todos os movimentos importantes da música baiana como o reggae de Edson Gomes, o New Afro da banda Reflexus, o pagode do É o Tchan e Terrsamba, o axé protesto das "As Meninas", a percussão pós moderna da Timbalada e Afrodisíaco, etc etc etc.
CH: Você toca piano, canta músicas em inglês. Que habilidades mais você tem na música?
MM: Me atrevo, também, a compor!(risos). Inclusive, meu primeiro sucesso na carreira foi a música "Manda Vê", em parceria com meu irmão Edinho, que me rendeu vários shows na região do Centro-Oeste brasileiro e até hoje, quando volto por lá, as pessoas cobram essa canção que não pode faltar em meu repertório. Estou começando a praticar violão, continuo a me aprofundar no estudo do piano, atualizando sempre minha leitura musical e me preparando mais na área da dança, especialmente no jazz com minha querida professora Monique da JkL Dance, além das aulas de canto com meu professor Netinho, muito competente e rigoroso!
CH: Você consegue aplicar essas habilidades no axé?
MM: Claro! O axé é uma das vertentes musicais brasileiras mais ricas, pois além de ser a única música no mundo construída especificamente para dançar na rua, traz em seu caldeirão rítmico, fusões que vai do samba ao reggae, do galope ao rock, da marcha ao frevo, do sertanejo ao calypso e no nosso caso, o Axé Metal, onde fundimos as percussões do axé com o rock.
CH: Você não acha que o mercado do axé já está saturado?
MM: Acredito que a música baiana ainda está em seu momento inicial. Quando o mercado internacional descobrir essa expressão musical multi-cultural e multi-rítmica, iniciaremos uma invasão sem precedentes nas Américas, Europa, África e Ásia.
O que está faltando é o profissionalismo de nossos produtores para iniciarmos essa escalada de crescimento no mercado externo. É necessário, também, dar mais oportunidades aos novos artistas que oxigenam o mercado com novas idéias. Vamos parar de pensar que, para um trabalho ser reconhecido, é necessário que outro deixe de existir!
CH: Se você tivesse oportunidade de fazer algo em outro estilo, tipo o de Vanessa da Mata, você arriscaria?
MM: Adoro a música brasileira e suas grandes intérpretes. Vanessa, Maria Rita, Maria Gadú, Ana Carolina, Marisa Monte além dos grandes ícones como Caetano, Gil, Bethânia, João Gilberto, Sérgio Mendes, Jorge Benjor etc. Todos fazem parte do “meu show”. Só que interpreto suas canções com meu estilo, pois o axé me dá essas possibilidades por sua completa independência rítmica e harmônica. Adoro também o trabalho de Jau, desde seu início com o Olodum, passando pela Banda Ifá e principalmente sua atuação no Afrodisíaco, que lhe rendeu maturidade musical e pessoal. Hoje sua música pode ser considerada a nova MPB.
CH: Não seria interessante para você entrar nessa onda, ao invés de continuar insistindo no axé?
MM: Já estou nessa onda! Apenas com minha linguagem instrumental e rítmica baseada na alegria. Meu show vai de "Let it be" ao arrocha, do axé ao pagode. Não tenho nenhum preconceito musical.

"A exposição que Luana Monalisa teve na mídia naquele período foi muito grande e, certamente, isso interferiu no prêmio"
CH: Você tem fã, fã-clube?
MM: Fã Club Manda Vê, Ligados na Maristela Müller, Malucos por Maristela Müller, Resposta do Coração, Maristela Müller Oficial, Tá na Cara Club, Maristela Müller Mania e vários outros que estão surgindo no Brasil e até na Argentina!
CH: Onde você sente que a sua carreira é mais bem recebida?
MM: Sem dúvida no Centro-Oeste, que já consome meu trabalho há mais de 10 anos, desde meus tempos de banda baile. Atualmente, minha munição está voltada para o mercado baiano, principalmente Salvador, onde tenho feito meus ensaios todo verão, tenho fortalecido meu bloco Faço Direitinho, tocado minhas músicas nas rádios, barracas de praia, além da exposição de minha imagem nas mídias de outdoor, busdoor, revistas especializadas, sites, programas de TV etc.
CH: Ano passado, você foi indicada a cantora revelação pelo Troféu Dodô e Osmar e não ganhou. Você concordou com a vitória de Luana Monalisa em cima de vocês?
MM: Luana Monalisa é uma boa profissional. Não me cabe julgar o resultado de um prêmio conceituado como o Dodô e Osmar.
Não vejo a vitória de Luana “em cima” de mim ou de Larissa, somos profissionais ativas no mercado da música baiana e o meu prêmio esse ano, por exemplo, não desmereceu nenhuma das indicadas. A exposição que Luana teve na mídia naquele período foi muito grande pois ela era um produto da TV Aratu e, certamente, esse dado interferiu diretamente no resultado do prêmio. Penso, sim, que uma avaliação para um prêmio de cantora revelação ou mesmo de melhor banda, além do voto popular, deve, no mínimo, ter o aval de uma bancada de jurados que entenda da área específica. Repito: essa minha opinião refere-se tão somente à fragilidade dos instrumentos de pesquisa popular por amostragem, sem desmerecer, em nenhum momento, a capacidade profissional de Luana.
CH: Esse ano, para espanto geral, você foi indicada novamente a categoria de cantora revelação. Você concordou com isso?
MM: Lá vem você com essa polêmica (risos). Vejo a forma de indicação dos prêmios locais sem muito espanto. Cada prêmio tem sua mecânica própria. No caso do Dodô e Osmar, o cantor tem um caminho a percorrer até chegar ao prêmio de melhor cantor. Antes tem que concorrer ao prêmio revelação e enquanto ele não se “revela” concorre nessa categoria quantas vezes for indicado até sua efetiva vitória. Não acho errada essa estratégia. O prêmio de cantora revelação é pré- requisito para o de melhor cantora. Nem sempre o fato de estar no Carnaval de Salvador leva o artista a ser automaticamente revelado, pois existem vários que participam do carnaval e apenas um é revelado, por ano, dentro do mesmo prêmio. Além disso, cada premiação tem sua autonomia, não se envolvem umas com as outras. Portanto, a premiação como cantor revelação de um prêmio não credencia o premiado a concorrer ao prêmio de melhor cantor do outro prêmio.
CH: Você vai ser eternamente uma cantora revelação?
MM: Posso ser a revelação do Programa do Faustão! Por que não? Ou mesmo ser indicada novamente como revelação de qualquer outro prêmio nacional. Isso não desmerece meu trabalho. Ao contrário, acho que a indicação para qualquer prêmio dignifica meu esforço. Claro que prefiro ser indicada no próximo carnaval como melhor banda, melhor cantora, melhor música, melhor bloco – o Faço Direitinho (risos). Procuro fazer sempre o meu melhor, para receber o reconhecimento daqueles que incentivam nossa atividade.
CH: Dizem as más línguas que toda cantora revelação do Dodô e Osmar se desrevela. Você tem medo de cair no esquecimento agora com o prêmio?
MM: Cada um tem sua história, sua singularidade. Diziam também que todo cantor que saía de uma banda “morria”. Ivete demonstrou que isso não é uma regra. Não “morreu” nem Ivete nem a banda Eva, que é uma das melhores bandas do mercado.
CH: O que você acha que é preciso fazer para virar uma grande estrela do axé?
MM: Precisa-se de paciência, perseverança e, principalmente, de uma grande música. Não é dinheiro, nem gravadora, nem televisão. Precisa-se de competência e um trabalho sério, para não ser artista de apenas uma música. O trabalho é duro, é árduo, mas tem que ser feito com amor e muito profissionalismo, formando uma equipe coesa e forte. Veja o exemplo do Chicletão!
CH: Quais são os planos daqui pra frente?
MM: Trabalhar, trabalhar e trabalhar em todos os sentidos. Vamos conquistar o mercado com a verdade de nosso projeto, a beleza de nosso repertório, a competência de nossa banda, o esforço de nossos parceiros e principalmente o amor de nosso público. Este ano pretendemos gravar nosso primeiro DVD profissional e mostrar nosso trabalho com um bom nível de produção.
Obrigado a todos vocês do site Bahia Notícias por essa oportunidade de me mostrar para meu público de forma clara e sem cortes.
Por Fernanda Figueiredo