Márcia Franco diz que os gays são mais educados e que pretende reformular a boate Off Club
A Parada Gay aconteceu esta semana e a Coluna Holofote resolveu pegar carona de vez nessa grande festa, que movimentou a cidade. Paralelo a isso, no dia 24 de outubro, comemorou-se os 10 anos da Boate Off Club, um dos empreendimentos de maior sucesso voltado para o público GLS de Salvador. Por isso, esta coluna resolveu fazer uma homenagem a este público que tanto acessa e contribui com o sucesso deste site e entrevistou Márcia Franco, proprietária da Off. Nessa entrevista, Márcia surpreende e faz uma revelação que promete movimentar o mundo gay: a Off Club pode fechar as suas portas, passando para um outro local, ou até repaginar-se como espaço OFF Plus. O motivo? Márcia deixa explicadinho na conversa. Ela também contou a principal diferença encontrada entre o público gay e o heterossexual e lamentou o fato da marca “Márcia Franco” estar atrelada somente aos gays, já que ela pretende, também, angariar os heteros, por estes apresentarem um ticket médio mais alto que o seu público-alvo atual. E as novidades de Márcia não param por aí, as alfinetadas a sites e concorrentes também não. A Coluna Holofote tem o prazer de convidá-lo a este doce deleite, que está esta entrevista!
"O sucesso não é tão lucrativo assim. O que existe é um resultado de um trabalho de competência"
Coluna Holofote: A boate Off Club está completando 10 anos de existência. Existe alguma fórmula para este sucesso?
Márcia Franco: Olhe só, fórmula não existe, não. Existe sim, muito trabalho, muita dificuldade e, inclusive, eu não gosto muito dessa palavra “sucesso”, porque ela, para mim, é uma palavra muito efêmera. Eu acho que o que existe é um resultado de um trabalho de competência e nisso aí você coloca qualidade, conforto, carinho, tratamento, estrutura, então, é um somatório dessas coisas. Até porque, eu acho que sucesso não é algo tão lucrativo assim.
CH: Agora, são 10 anos de Boate Off Club. Por que você resolveu fazer essa festa no Cais Dourado e não na própria Off?
M.F: Todas as festas e aniversários da Off eu faço na própria boate, mas fica pequeno, porque o espaço da Off cabem 600 pessoas. Como são 10 anos e 10 anos a gente só faz uma vez, eu achei que podia abraçar mais público. Então, eu resolvi fazer num local maior, onde abarca, no mínimo, 1.500 pessoas.
CH: Como surgiu a idéia de montar um segmento voltado para o público GLS?
M.F: Olha, na verdade eu era do mercado financeiro, até 14 anos atrás eu trabalhei em banco e eu morei por quatro anos em Recife e eu ficava impressionada como a vida noturna de Recife gay era tão mais intensa do que qualquer outro lugar aqui no Nordeste. E Salvador sempre teve essa carência de lugares de qualidade. Até porque, nós temos uma característica aqui do baiano, que o baiano tem a cultura da coisa mais simples, a cultura do boteco. Então, eu fui ousada. Eu abri a minha primeira casa sem ter experiência nenhuma, que foi o Club Mix Ozone, há 14 anos, lá no Largo 2 de Julho. Então, quando eu vinha para Salvador, eu sentia falta desse tipo de lugar. Então, puxa vida! Uma cidade como Salvador, que você imagina que tenha uma grande população GLS e com poder aquisitivo e não ter um lugar legal para este público? Então, a minha idéia surgiu disso. Eu abri um negócio sem nem saber o que é bebida, porque eu nem bebo.
CH: Como está o poder aquisitivo do público gay hoje?
M.F: Eu acho que essa crise que assolou o mundo e que ainda assola, ela teve um impacto muito grande. Eu diria que o ticket médio desse público, ele caiu uns 30% de um ano para cá. Porque também, juntou a Lei Seca, os Fumódromos e a própria crise. Então, a figura não é tão bonita quanto era há dois anos atrás. E nós estamos sentindo esse peso, porque 30% é uma queda considerável. E olhe que meu cardápio é um dos mais baratos de boates aqui em Salvador e meu cliente ainda consegue reclamar dos preços!
CH: Você já teve algum negócio voltado para o público hetero?
M.F: Eu digo assim: é pena que o nome Márcia Franco esteja associado apenas a esse público (GLS). Mas eu tenho um grande sonho escondido sobre isso, porque é um ticket médio muito mais alto, porque tem uma população noturna muito maior do que o público GLS. Nós temos hoje em Salvador 240 mil gays, só que, deste montante, 98% é de classe média baixa, então sobra aí muito pouca gente de poder aquisitivo alto e esse povo não curte aqui, esse povo vai pra fora. Esse nicho de cliente, ele não quer aparecer aqui. Então, o que sobra pra gente é muito pouco. E também eu tenho um público formado por jovens, muito jovens de 18 anos, que dependem de mesada.
CH: Qual a principal diferença entre esses dois públicos?
M.F: Tem diferenças bem grandes. Um exemplo disso é a “vibe”. A “vibe”, quando a gente fala é a intensidade da alegria do povo gay numa festa, numa boate. Eles dançam mesmo, eles estão alegres. E também tem outro ponto: é um público pacífico. Em 14 anos de vida noturna, se eu pontuar aí meia dúzia de brigas eu vou estar mentindo, porque não existe. O que existe é um público mais educado. Mas a Off hoje tem 10% do público de heteros. Por questão da segurança, do atendimento, da estrutura e, principalmente, por conta da música. Porque a música para gay é diferente da música para hetero, então a “vibe” é completamente diferente.
CH: Na sua opinião, por que várias outras boates GLS’s abriram, mas não deram certo?
M.F: Primeiro existe uma cegueira dos empresários de achar que... É a história do Pink Money: que a galera tem grana por isso, isso e aquilo. Claro que existe o Pink Money se você for analisar numa escala mundial, é óbvio. Mas é como eu digo: Salvador por ter um público no geral que tem uma cultura diferenciada, que é um público que se satisfaz num botequinho, tomando aquela cervejinha de garrafa, comendo seu caranguejo, sua lambretinha, ele se satisfaz ali e é muito mais barato que você estar numa casa com estrutura, onde você vai pagar para entrar e você vai pagar o consumo. Então, eu acredito que esses empresário, que ao longo de dez anos, abriram algumas casas aqui, que eu posso pontuar que foram umas sete casas, foi pela questão da cegueira e de não dar qualidade. Porque não basta você abrir uma casa, você tem que ter qualidade, tem que ter estrutura e, principalmente, atendimento. E esse é o diferencial da Off Club. Eu tenho funcionários que fundaram a casa comigo e o cliente da Off se sente em casa, é como se fosse a família Off. Meus clientes chamam o funcionário pelo nome, o funcionário já sabe quantas pedras de gelo ele quer no uísque dele, sabe qual é a cerveja que ele toma, então existe essa familiaridade entre meus clientes, meus funcionários e a minha casa. Eu acho que esse é o grande segredo dos 10 anos da Off.
CH: Você considera a Off Club o maior empreendimento de Salvador voltado para este tipo de público?
M. F: Não é considerar o maior empreendimento, até porque, uma casa de 500, 600 pessoas é um clube mediano. E eu acho que Salvador não tem demanda para um público grande, eu lhe garanto que não tem. A Off, nesses 10 anos, ela passou por cinco reformas, uma reforma a cada dois anos e essa última de 2007 eu derrubei, literalmente a casa e construí outra.E inclusive, eu já estou me coçando para virar novidade de novo. Porque, no fundo, no fundo, esse ônus de ter 10 anos, na minha cabeça, é algo que tem começo, meio e fim, porque você precisa oxigenar. Então, eu pretendo abrir uma nova casa em Salvador, em 2010. Uma casa com mais um “plus”, diferente da Off.
CH: E o lugar seria ali mesmo pela Barra?
M.F: Estamos em estudo para sabermos se será lá, se será em outro local, mas com certeza, a marca Márcia Franco fica, mas o nome Off Club está na hora de se reciclar. Porque eu acredito que o ciclo da Off está chegando ao fim.
CH: O que isso quer dizer? A Off vai acabar?
M.F: Não acabar de fato, mas sim se reestruturar, uma reformulação geral, porque eu acredito na inovação e é como eu estou te falando: eu estou com muita vontade de sangue novo, de coisa nova, mas ainda estamos em estudo.
CH: Mas a Off hoje é referência. Por que não abrir uma casa em paralelo com a Off?
M.F: Fernanda, entenda: a minha administração da Off, não é que eu seja centralizadora, mas é porque eu gosto de participar em todos os aspectos da casa. Então, desde os bastidores, que é a criação de line up, de festas, até a parte administrativo-financeira e também estar no campo atendendo ao meu cliente, sendo acessível ao meu cliente, atendendo ao meu cliente atrás do bar, como eu canso de fazer, eu entro no bar e viro garçonete, eu adoro atender, então, eu tenho esse carinho especial. Mas eu não sei se eu, como pessoa, eu estou com 50 anos, e tenho 14 anos de noite. E a noite não é brinquedo. Então, apesar de eu ser uma pessoa extremamente saudável, porque eu me alimento bem, eu malho, eu cuido bem da minha saúde, não uso drogas, não bebo, mas eu lhe confesso que é muito cansativo. Então, manter dois estabelecimentos, para que você tenha qualidade, serviço, atendimento, eu tenho que estar perto e eu não sei se eu teria “braço” para isso. Então, é uma decisão que eu ainda não sei. Eu só vou tomar essa decisão, talvez, ao longo do verão, porque é algo que eu já penso, mas eu quero pensar com muita calma.
CH: Estão surgindo novas casas neste ramo, como a San Sebastian. Você as encara como concorrentes ou para você a Off já se consolidou e não existe mais nenhum risco?
M.F: Olha, na verdade, concorrências sempre existem e vão existir. Existem as diretas e as indiretas. Além dessa nova casa, a gente não tem só essa casa como concorrente. A gente tem outros locais, a gente tem bares, a gente tem os pequenos lugares, a gente tem os produtores de festas, então a Off sempre sofreu concorrência a vida inteira. Então, eu considero que a concorrência, ela vem também para somar e eu volto a dizer: quando é um espaço com estilo, com qualidade, com estrutura. Agora, se o empresário vem pensando que vai abrir qualquer portinha e o cliente vai estar lá, ele quebra a cara. No caso de casas que possuem grande estrutura e um bom atendimento, sim, eu as encaro como concorrentes. A grande pergunta é se essa demanda vai se sustentar por muito tempo.
CH: Um site publicou uma vez que mataram um bode na frente da boate San Sebastian e que você tinha sido a autora do “crime”. É verdade?
M.F: Eu acho isso engraçado, porque isso passa. Aqui em Salvador, infelizmente, existem alguns aspectos, alguns sites que meram muito por esse tipo de coisa que eu chamo de tipo de coisa ignorante, sabe? Quem não gosta de uma fofoca, né? O público GLS, ele já gosta de uma polêmica e tem sites que não levam a sério a coisa e fazem esse tipo de trabalho, que não me atinge. É o meu direito fazer algo desse tipo, que não é o meu perfil, mas eu não fiz. Porque se eu tivesse feito, eu não mataria um bode, eu mataria uma boiada, uma seara inteira, entendeu? Mas isso não é do meu perfil, porque eu nem acredito nessas coisas e eu repito: um bode não fui eu, não. Se tivesse sido uma boiada inteira, podiam até ter dito que fui eu. Mas é uma coisa de fofoquinha, de gente que não tem o que fazer, que gosta de criar polêmica e tem alguns especializados nisso e que não é jornalista por trás, porque eu sei que tem pessoas por trás do site, então, existe esse nivelzinho de guerrinha, que eu também sou contra, que eu acho que não tem que existir, porque eu acho que cada coisa é uma coisa e não pode existir essa guerra. Senão, seria uma guerra geral no mundo, no comércio, porque todo mundo tem concorrência. Mas a concorrência nos oxigena, nos tira do comodismo.
CH: Fora as casas noturnas, cada dia surgem mais empreendimentos voltados para o público GLS, a exemplo de um condomínio só para eles em Arembepe. O que você acha disso?
M.F: Eu acho que o povo brasileiro não tem cultura para isso. Não estou dizendo que a gente não seja inteligente. É claro que as coisas mudaram muito nesses últimos anos. Só para você ter uma idéia, eu recebo avós, mães de clientes na minha casa, que vão lá conhecer o local que os filhos estão freqüentando e isso me deixa muito feliz. Mas eu acho que essa cultura de você segmentar em determinados departamentos, eu ainda acho cedo para aqui. Para a Bahia, principalmente.
CH: Por que você diz isso? Na sua opinião, essa segmentação exclui?
M.F: Olha, é uma questão de evolução mesmo. A homofobia ainda existe na sociedade e eu vou lhe dizer: pelo que eu observo do meu público jovem, de 18 a 25 anos, que talvez essa evolução esteja vindo deles. Daqui a 10 anos eu acho que as cabeças vão estar muito mais abertas, porque esse público jovem, ele já fala com os pais, com os avós, eles já abrem e isso é diferente do público antigo, que é mais fechado, que prefere se formar em guetos, então, eu ainda acho cedo para essas coisas. Claro que tudo começa com um começo, é óbvio, né? Para você quebrar isso, você tem que fazer, mas é uma coisa de risco. Eu não me meteria numa coisa dessas, excetuando o entretenimento, que é diferente.
CH: Qual a maior carência de Salvador em relação ao público GLS?
M.F: Fica difícil dizer isso, porque Salvador é uma cidade que, eu volto a dizer, tem muitos botecos que o público freqüenta e eu acredito no medo dos empresários em investir em lugares mais sofisticados porque não tem uma resposta do poder aquisitivo, então, fica muito difícil você correr esse risco. Eu fui, porque eu sou muito ousada, eu sou o contrário. Eu não fiquei rica na Off, hoje eu mantenho o mesmo padrão de vida que eu mantinha na época que eu era da área financeira e eu não fiquei rica. Por quê? Porque eu sou uma pessoa exigente. Eu gosto de ser bem atendida nos lugares que frequento,de comer bem, se for para pagar, eu gosto de qualidade, entende? Então, é muito difícil eu sair na noite de Salvador que não seja para um restaurante, porque você não tem bares sofisticados em Salvador. A não ser que seja bares heteros, aí tem. Existem muitos bares heteros em Salvador com muito boa qualidade e talvez, o que esteja faltando para esse público GLS seja outros empresários que também se voltem um pouco para isso, entendeu? Para bons lugares e não cassetes armados como se fazem por aí o tempo inteiro e que duram um ano ou dois e depois caem.
Por Fernanda Figueiredo