O homem que descobriu Claudia Leitte critica o pagode e explica polêmicas do mundo do axé
Ele respira axé e vive do axé. Jaílson Figueiredo Oliveira foi o descobridor de Claudia Leitte, mas não se auto-intitula dessa forma. Para ele, sem Cal Adam e Manoel Castro, Claudinha não chegaria onde chegou. Ah! Faltou explicar quem é esse tal de Jaílson. Ninguém sabe o nome real dele, já que no meio, ele é conhecido como Pio Medrado (entenda de onde vem o apelido). O mesmo Pio que lançou a revista Festa Folia e que mantém um programa ao lado de Jefrey Athaíde na rádio Itaparica FM, o Festa Folia Mix. Ah! Ele não se diz descobridor de Claudia Leitte, mas se auto-intitula o showmen da música. Saiba essas e outras curiosidades e também polêmicas do mundo do axé nesta entrevista!
"Muita gente diz que eu descobri Claudia Leitte, mas não, nada disso"
Coluna Holofote: Como você ingressou no meio musical?
Pio Medrado: Eu tenho uma amizade muito grande com Cal Adam. Foi quando eu comecei a ouvir músicas com ele para o grupo Gera Samba, que hoje é o É o Tchan. E nessa de eu estar sempre ao lado de Cal em vários projetos, eu comecei a ouvir os compositores para ele.
CH: Você assina várias músicas. Você é compositor?
PM: Claro. Hoje, depois de tanto ouvir e peneirar músicas para grandes artistas, porque eu comecei a consertar letras de alguns compositores, eu percebi que eu já estava fazendo músicas. E quando eu percebi que eu já estava fazendo música nessa de ajeitar as canções, eu já estava entrando nessa parte de composição. Eu já crio grandes ideias, procuro buscar nos guetos e becos alguma novidade ou modismo para que possa ser traduzida em canção e dou as ideias. Então, hoje, no mundo da música, você não pode ficar na mesmice, tem que estar sempre inovando.
CH: Mas essas músicas que você peneira, você as assina?
PM: Não. Eu nunca assino uma música sem que eu tenha participado da composição. Porque esse trabalho de peneirar as canções que não são minhas, eu recebo para isso. Eu sou pago pelos artistas para que eu possa fazer esse trabalho para eles, porque a agenda desses artistas hoje não permite que eles parem para ficar ouvindo e peneirando as canções, principalmente os grandes artistas, como Ivete, Claudinha, Bell, então, é muito difícil esse pessoal parar para ouvir, até mesmo para dar atenção ao compositor.
CH: De onde vem essa parceria com a Banda Chiclete com Banana?
PM: A minha parceria com o Chiclete com Banana é muito forte, porque vem da minha parceria com Bell Marques, que, por sinal, não começou atrelado ao lado musical. É uma amizade que foi constituída em “peladas”, em “babas” e essa amizade ficou forte e quando eu comecei a entrar nesse mundo da música eu pensei: “pô, por que não ouvir músicas para o Chiclete com Banana?”. Então, muitos compositores sabiam que eu era muito amigo de Bell e começaram a me apresentar músicas. Dessa forma, com o ouvido apurado que eu tenho, graças a Deus, eu comecei a selecionar músicas para ele e isso deu certo. A primeira música que eu coloquei lá foi “Cabelo Raspadinho”, que virou um hit mundial.
CH: Agora, qual o seu grau de amizade com Bell Marques?
PM: Bell é o mesmo que meu irmão e a reciprocidade é muito forte. Apesar da gente não andar muito junto, eu encontro Bell mesmo nos shows, mas a coisa que une muito a gente é justamente isso: é saber que ele está bem lá e eu estou feliz aqui. É saber que as coisas estão acontecendo fortemente para ele e é uma banda que eu tenho mesmo no meu coração, que eu guardo uma forte admiração, até mesmo porque, eu fico preocupado de um dia o Chiclete com Banana acabar.
CH: Mas por que essa preocupação?
PM: Porque o Chiclete com Banana, assim como Ivete Sangalo, Asa de Águia, Claudia Leitte, já é uma referência no carnaval da Bahia.
CH: Você disse que muitos compositores lhe procuram para que você apresente as canções dele para o Chiclete. Você acredita que a sua amizade com Bell facilita a inserção dessas canções no repertório do Chiclete?
PM: Facilita o acesso porque Bell sabe que quando eu vou mostrar uma música para ele, já vai uma música que ele vai gostar, ele já sabe que vem coisa boa. Não só ele como Ivete, como Claudinha e tantos outros artistas. Quando Pio Medrado chega com alguma música, talvez ele possa até não gravar, mas ele sabe que é coisa muito boa. Eu nunca fui em um artista sem que ele levasse, pelo menos, duas ou três músicas selecionadas por mim em seu repertório. Hoje eu estou sendo contratado por várias bandas do país para fazer o repertório deles.
CH: Você pode citar algumas músicas que tenham sido levadas por você para algum artista e que tenha sido sucesso?
PM: “Eu quero esse amor”, de Chiclete. Aliás, já tiveram várias músicas que concorreram a melhor música do carnaval e que eu levei para Bell. Músicas peneiradas por mim como “A fila andou”; “Diga que valeu”; “Voa-Voa”, que até já ganhou como música do carnaval, então, são músicas levadas por mim. Não que sejam minhas, mas são músicas peneiradas e selecionadas por esse ouvido aqui.
CH: Para você, de uns tempos para cá, o axé perdeu espaço para outros ritmos, principalmente o pagode?
PM: Talvez no meio artístico aqui de Salvador. Lá fora, o axé é muito forte. Na verdade, eu acho que isso acontece aqui porque as grandes bandas de axé não tem a sua agenda voltada para Salvador, o que eu acho errado, porque eu acho que tem que fixar aqui. Mas é justamente pela procura do axé lá fora, que eles não estão aqui nessas festas que você vê o pagodão. Então, por isso que o pagodão ganhou uma força enorme.
CH: O que você acha do pagode?
PM: Eu acho bacana, eu acho show de bola, só não concordo com as letras que alguns grupos cometem aí, porque eu acho que desvaloriza muito a nossa música. Músicas do tipo “ela ta toda metralhada” e eu ainda vejo mulheres dançando esse tipo de música... Aquilo é pura desvalorização da mulher e eu acho que a mulher hoje é tudo, é sinônimo de canção, de amor, de harmonia, de beijo na boca e não chamar a mulher de metralhada. Eu acho que, para se alcançar o sucesso, não é preciso nada disso. Outro dia eu vi até no Bahia Notícias, um vídeo que o cara diz que “tá todo enfiado” e é por isso que, muitas vezes, a gente é criticado. Justamente por essas músicas mal feitas aqui.
CH: Você selecionava músicas para o É o Tchan, que era um grupo que falava muito sobre o bumbum, tinham as meninas dançando de forma sensual. E aí?
PM: Mas não era de forma vulgar. Era uma forma de valorização de um corpo bonito de uma mulher. A Gang do Samba, por exemplo, fez um hit maravilhoso valorizando a mulher. A música fala da bunda, mas de uma forma sutil, tipo “lá vai a bunda passeando pela feira, vai conduzindo Raimundo orgulhosa, lá vai a bunda rebolando à brasileira, lá vai Raimundo que coisa maravilhosa”, então, quer dizer, não falou de uma forma vulgar. Então, eu estou sentindo muito a falta disso no nosso pagode.
CH: De compositor para locutor. Como foi isso?
PM: É porque, graças a Deus, eu procuro sempre estar no mercado de todas as formas. Se você tem a competência de administrar a sua vida sendo locutor para promover cada vez mais a nossa música e as produtoras também se conscientizarem de que precisam ajudar esses programas, porque muitas produtoras aqui não apostam no projeto axé, nos nossos programas. Mas, graças a Deus, o meu programa “Festa e Folia”, com Jefrey Athaíde, já está há três anos no mercado. Mas por quê? Porque existe a minha competência no lado musical servindo música a essas produtoras, agradando de um lado a outro – porque o pensamento é assim “Pio me ajuda de um lado, então, vou ajudar o programa dele do outro”, mas eu não gostaria que eles olhassem dessa forma. Eu queria que eles enxergassem que a gente tem um programa de sucesso.
CH: Por que Itaparica FM?
PM: Porque, logo de cara, foi quem apostou no nosso trabalho. Não só Bell Marques, como Wadinho também, que hoje é o diretor da rádio e hoje é a quem nós damos todas as sugestões e procuramos também, ser aconselhados por ele, que é uma figura magnífica, uma figura que deu todo o apoio para que esse programa existisse e estivesse no ar até hoje. Eu e Jefrey, nós agradecemos muito a Wadinho Marques o sucesso que é o Festa Folia Mix.
CH: A ascensão de emissoras como a Bahia FM, a Tudo FM, a Itapoan FM incomoda a Itaparica FM?
PM: Olha, nós não estamos preocupados em estar chegando em primeiro lugar ou ultrapassando essa ou aquela rádio, nós só estamos querendo levar informação correta e que o público ouça o programa Festa Folia Mix e eu não tenho dúvida hoje, da audiência do Festa Folia. Então, eu e Jefrey e até a própria Itaparica, não estamos preocupados com essa ascensão da Piatã, de Itapoan e de outras rádios. Até porque, eu acho que deveria existir mais seriedade do Ibope quanto a questão das pesquisas. Deveriam falar os verdadeiros índices de audiência.
CH: Como vocês encaram a chegada da Tudo FM, que também é uma rádio popular?
PM: Eu não vejo a Tudo como uma rádio popular e, sim, como uma rádio extremamente democrática. Eu acho que hoje existem poucas rádios com profissionais tão competentes como existem hoje na Tudo, então eu acho que ela chegou não para ficar brincando de rádio, mas para disputar a audiência. E são pessoas que eu admiro bastante, porque são pessoas que respeitam o trabalho do outro.
CH: Na Itaparica FM existem acordos operacionais?
PM: Olha, o horário do Festa Folia Mix é arrendado, é uma parceria, um horário locado Por Pio Medrado e Jefrey Athaíde em parceria com o Chiclete com Banana e na realidade, não existe jabá. É claro, é evidente que nós vivemos de rendas para, pelo menos, manter porque as pessoas são pagas para trabalhar. Mas lá você não paga para a música tocar lá, isso não. São só comerciais. É daí que vem o nosso faturamento.
CH: É verdade que seu nome não é Pio Medrado?
PM: Pio Medrado é um apelido que foi dado para mim porque eu tenho uma amizade muito forte com o deputado Marcos Medrado, ex-prefeito da cidade, e onde eu fui também um dos articuladores da campanha dele. E pela forte amizade que eu tenho com ele, me apelidaram de Pio Medrado, como me apelidaram também de Pio Adam, por causa da minha amizade com Cal Adam.
CH: Mas afinal, qual o seu nome?
PM: Meu nome é Jaílson Figueiredo de Oliveira.
CH: Você falou aí em Cal Adam. Você e Cal Adam são sócios?
PM: Não. Eu tenho algumas parcerias com Cal na editora, porque muitas vezes eu edito músicas na “Fábrica da Música”, que é a editora dele e de Claudio Adam, que é irmão dele. Então, existe uma parceria.
CH: Dizem que lhe deram um “capote” na carreira de Claudia Leitte...
PM: Muita gente diz que eu descobri Claudia Leitte, mas não, nada disso. A verdadeira descoberta de Claudia Leitte foi em cima de um palco no Rock in Rio, onde eu percebendo que ela era uma garota de sucesso, a convidei para um projeto novo de axé e nesse projeto incluiria Cal Adam. Aí, eu marquei um almoço para apresentar Cal à ela e nesse almoço, logo de primeira, Cal gostou de Claudinha e, à noite, fomos a um bar chamado Lagoa Mar para ela dar uma canja e a gente ver o potencial de voz dela e Cal descobrir se era aquilo mesmo que eu tinha dito a ele do talento dela. Ela conquistou a todos e aí Cal assinou o contrato com ela e a colocou na Nata do Samba, provisoriamente, até sair o projeto que era o projeto de axé, que foi o Babado Novo, e quando conseguimos fazer esse projeto, eu era sócio também. E aí, a gente saiu com um disco maravilhoso, que estourou no Norte/Nordeste e logo eu vendi a minha parte para Manoel Castro porque eu não gostaria de estar sendo rotulado como dono de banda, que minha vida é outra. Então, aliado ao talento de Claudia Leitte, tinha que ter Manoel Castro e Cal Adam para existir o sucesso. Eles dois é que alavancaram, verdadeiramente, a carreira dela para o sucesso.
CH: Futuramente, você pretende empresariar alguma banda?
PM: Não. Não estou empresariando nem pretendo empresariar, porque hoje para você lidar com o artista é muito difícil e eu não tenho papas na língua. Porque o artista quando ganha um cachê de 10 mil, 20 mil é uma maravilha. Mas se ultrapassar os R$ 50 mil, já muda de comportamento, já passa para o estrelismo. Então, como eu não quero ser inimigo de nenhum artista, eu prefiro ficar na minha, com a minha revista, com o meu programa de rádio, dando assessoria musical e graças a Deus, hoje eu posso ser chamado de showmen.
CH: Quem tem mais tempo de camarote, você ou Blau?
PM: Blau. E Blau hoje serve como uma fonte de informação. E olhe, para você saber se sua festa foi sucesso ou não, é só você encontrar lá Paulinho Xoxoto do Cocobambu, Blau e Cal Adam, aí sim, porque eles não perdem uma festa boa.
Por Fernanda Figueiredo