Margareth Menezes conta porque prefere ser mais reservada e diz quais ritmos enriquecem a música
A timidez esconde uma Margareth sorridente, brincalhona e carinhosa. Timidez essa que, muitas vezes, é confundida com arrogância ou seriedade. No entanto, nesta entrevista exclusiva à Coluna Holofote, Maga, como carinhosamente é conhecida, falou sobre a sua relação com a mídia e explicou porque e como faz para manter a sua vida pessoal longe dos holofotes. A cantora, que levanta a bandeira do movimento afropopbrasileiro também comentou da sua vida profissional e o que espera do futuro, agora que está lançando o CD e DVD do Movimento Afropopbrasileiro. Questionada sobre a aceitação do público sobre o estilo de música feito pelo afropop, Maga dispara: "essa música é uma música popular, que vem do povo. E é uma música que é bacana, porque ela fala da cultura, ela fala, inteligentemente da relação humana".
"A gente não sabe direito da nossa vida para ainda ficar expondo, para ficar mostrando 'olha, eu faço isso'"
Coluna Holofote: Margareth Menezes canta axé, mas nos últimos tempos tem preferido cantar afropop. O que, afinal, Margareth prefere cantar?
Margareth Menezes: É engraçado isso, porque se você pegar a minha discografia existe essa abertura dentro da minha discografia. Então, assim, eu sou uma intérprete de música popular brasileira, principalmente. Eu venho do teatro, eu gosto dessa movimentação de você experimentar, então, nos meus CD’s, eles sempre têm alguma diferença de um para o outro, essa pesquisa muito densa, porque a música popular brasileira, ela é muito ampla e eu gosto muito de ouvir várias coisas diferentes. Na questão da nossa influência, da cultura, da Bahia, que é muito forte não só no meu trabalho, mas eu acho que no trabalho de quase todo mundo, porque o artista baiano tem uma ligação muito forte com essa sonoridade, com esse estilo, então, esse rótulo para mim, essa coisa do afropopbrasileiro, eu acho bacana porque isso amplia, isso liberta, isso me dá milhares de possibilidades de trabalho e o axé music também. Eu acho que tudo está contemplado dentro dessa liberdade que a gente tem aqui na Bahia de misturar as coisas. Eu acho bacana quando você consegue colorir assim a carreira musical.
CH: O que é esse movimento afropopbrasileiro?
MM: Afropop é o tambor e o computador; é você ter o urbano e a ancestralidade e nós somos assim, a Bahia é muito isso.
CH: E como foi que começou essa sua ligação com o movimento afropop?
MM: Quando eu saí daqui do Brasil em 1991, quando eu fui com David Barner, quando ele me levou, a identidade que eles davam para o ritmo do samba-raggae, eu abria cantando samba-raggae, e os críticos internacionais diziam que era “Brazilian African Pop” porque, por exemplo, as músicas dos artistas africanos que moram na Europa é “African Pop” e o nosso é “Brazilian African Pop”. Quer dizer, a música brasileira com essa linguagem afropop. Então, eu só fiz fazer, na realidade, a tradução. E eu vejo isso, porque é tão amplo, não é só uma coisa carnavalesca em si, ela está em todos os lugares porque é uma música tropical, percussiva, mas a linguagem dela é muito ampla. Então, é por isso que eu me identifico melhor com esse movimento.
CH: E na sua opinião, o público baiano absorve bem este movimento do afropop?
MM: A Bahia tem tantos grupos, tanta gente fazendo música e que tipo de música é essa? É a música que eu faço, que Carlinhos Brown faz, é a música que Daniela Mercury faz, né? O nosso povo é isso.
CH: Mas você sente uma aceitação do público a este tipo de música?
MM: Com certeza. Claro. As pessoas gostam, sim.
CH: E o público que curte o movimento afropop é do tipo segmentado?
MM: Não. Segmentado, não. Todos os lugares que a gente vai, graças a Deus... Olha, eu toco aqui, toco na região Norte, região Centro-Oeste, região Sul e não tenho dificuldade com isso. As pessoas têm uma integração bacana, é um poder enorme. Você vai num ensaio de um bloco afro desse, o pessoal fica hipnotizado.
CH: Eu lhe pergunto porque recentemente você disse que participou de um show mais popular, onde fazia de tudo para as pessoas se animarem e elas não reagiam. Seria por que o público que curte afropop seria da classe AB?
MM: Não. Não existe isso. Essa música é uma música popular, que vem do povo. Como é que ela pode ser... Né? E é uma música que é bacana, porque ela fala da cultura, ela fala, inteligentemente da relação humana e eu acho que isso é muito importante. A Bahia tem um lugar dentro da música popular brasileira muito, muito importante de referencial, de beleza, de expressão. Nós temos nossa beleza natural, nós temos a baleza do povo baiano, então, a gente tem realmente todas essas inspirações, que não começaram agora. E a gente tem que valorizar isso e colocar isso de uma maneira que as pessoas possam perceber, que, apesar de toda dificuldade que a gente tem, a gente consegue suplantar isso com essa inteligência, com essa capacidade de você superar as dificuldades da vida.
CH: Você está lançando o CD e DVD documentário do Movimento Afropopbrasileiro. Qual o seu objetivo com esse novo álbum?
MM: Fortalecer mais o movimento, fortalecer as entidades que participam do movimento, a participação espontânea e capitalizar cada vez mais nesse sentido da gente se conhecer, se fortalecer e fortalecer a cultura da Bahia.
CH: Você acredita que, com esse álbum, todos esses objetivos serão alcançados?
MM: Eu acho que o DVD é um registro das ações que nós já fizemos sobre o movimento do afropopbrasileiro e é uma forma das pessoas conhecerem as ações do movimento, um movimento cultural e musical voltado para essa questão cultural e artística e fortalecer mais. A gente tem o projeto de repetir o show, o encontro que foi feito no Teatro Castro Alves e nós temos vários projetos em cima desse DVD. Então, nossa meta é fortalecer cada vez mais o movimento afropopbrasileiro.
CH: Na opinião de vocês, o afropopbrasileiro é um movimento que enriquece a música negra. Existe algum ritmo que, na sua opinião, também contribui para esse enriquecimento dessa música?
MM: Olha, o afropop não é um ritmo em si. Ele é um rótulo de comportamento, então, o afropop é tudo. A Bahia é afropop, até porque, o afropop não começou agora. Isso é só uma nomenclatura, na verdade. Mas a Bahia, ela tem essa mistura.
CH: Mas falando em ritmo. Existe algum ritmo que contribui, na sua opinião, para o fortalecimento da música negra?
MM: Todos os ritmos que tiverem essa função de comunidade, faz parte disso. Afropop é tudo. Nós nascemos numa cidade, nós temos essa linguagem urbana, que é uma linguagem importante e temos a ancestralidade, então é isso. Ser afropop é ter o ancestral e ter a tecnologia, não é uma questão de ritmo em si.

"As pessoas que me conhecem sabem do meu respeito pelo que eu faço"
CH: Por que Margareth reduziu a freqüência de shows aqui em Salvador?
MM: Realmente. Tem dois anos que eu parei de fazer ensaios, o que é também uma estratégia, né?! Dar um tempo um pouco assim das coisas e tem muita coisa acontecendo na cidade também, muitos ensaios, agora, esse ano eu estou pensando em voltar, estou analisando, mas isso faz parte da dinâmica da carreira. Cada artista tem uma dinâmica, então, essa é a dinâmica da minha carreira e eu tenho outros projetos também, tem alguns projetos sociais, tem outras coisas que eu quero realizar e, às vezes, a gente não pode contemplar tudo. Então, em função de outros projetos que eu estava implantando, eu tive que dar um tempinho, mas não significa que eu “ah, eu não vou mais cantar em Salvador”, isso não existe. Graças a Deus, eu tenho meu público aqui, as pessoas que me conhecem sabem do meu respeito pelo que eu faço e pelas pessoas que gostam do meu trabalho, então, é só uma questão mesmo de dar um tempo e daqui a pouco a gente volta.
CH: Agora, Margareth, você que acompanhou a transição de poder aqui na Bahia, você acredita que o governo carlista investia mais na cultura ou o governo de Wagner também está ajudando?
MM: Eu acho que cada governo tem o seu perfil e a mudança de tática, essas mudanças são naturais quando você vira a coisa, então, na verdade, é uma coisa que ainda está se desenhando, a gente ainda não tem uma ideia exatamente do que vem por aí. Eu só espero que fortaleça, porque eu acho que a Bahia merece, Salvador merece esse fortalecimento da cultura sempre.
CH: Mas você sente um esforço do governador em apoiar a cultura aqui da Bahia?
MM: Eu ainda não estou sentindo nada. Porque, foi como eu te falei: ainda está em fase de transição, não tem muito como você dimensionar isso, porque o governo está muito novo, muito recente.
CH: O que você achou da ação movida pelo procurador do Ministério Público do Trabalho, Manoel Jorge, em proibir cantores de axé em eventos juninos?
MM: Aí é a visão dele, né? Mas só que acontece o seguinte: muitas dessas festas de São João são promovidas pelas bandas da música baiana, são as próprias produtoras que fazem, então, é uma questão de oportunidade. São João é uma festa imensa, são dois meses de festa e não tem nem artista para suprir o São João inteiro. Vem gente de todos os lugares do Nordeste para tocar aqui durante o São João e eu acho que o povo aceita essa mistura e eu acho que isso é importante. Agora, é claro, eu acho que tem que haver sempre a coisa da música junina, porque é São João. Eu adoro São João. Eu acho que é a festa mais forte assim, que está no coração do povo e tem uma força muito grande. E todo mundo gosta de cantar um forró, de dançar um forró... Quem não gosta, né não?!
CH: Como é a sua relação com a mídia?
MM: Eu não tenho problema nenhum com a mídia.
CH: Mas você sempre adotou uma postura mais reservada, principalmente no que tange a sua vida pessoal, ao contrário de muitos artistas. Essa fissura da mídia em querer saber da vida pessoal do artista lhe incomoda?
MM: Olha, eu acho que isso aí é uma coisa que vai muito do artista mesmo, sabe? Pra mim, eu acho que vida pessoal é vida pessoal. É a minha maneira de ver isso. Você mostrar uma coisa ou outra, tudo bem. Mas entrar na intimidade, mostrar que isso e aquilo aconteceu, eu acho que é muito delicado, porque a gente não sabe direito da nossa vida para ainda ficar expondo, para ficar mostrando “olha, eu faço isso”. O artista, ele já é muito visado e ele é muito imitado também, então, a gente tem que ter muito cuidado porque é uma responsabilidade muito grande. Mas cada pessoas tem a sua história, a vida pessoal de um artista não se constrói na hora que ele vira artista. A vida pessoal de um artista se constrói desde a infância dele, então, isso é uma evolução da vida de um ser humano. Então, eu tenho essa conduta, existem outros artistas que têm a mesma conduta que a minha e eu acho massa. Porque é importante você ter um limite. Porque, quando falta o limite, gera-se muito desconforto.
Por Fernanda Figueiredo