Zelito Miranda se considera "o cara" do forró e diz que Gonzagão não foi seu mestre na arte
Ele não é simplesmente o Rei do Forró, ele é o Rei do Forró Temperado. E ponha tempero nisso! Sempre antenado ao que acontece no mundo da música e com o que há de moderno, Zelito Miranda não hesita na hora de temperar, principalmente quando o prato do dia é o forró. Aí, ele mistura rock, blues, e por aí vai. Numa entrevista envolvente à Coluna Holofote, Zelito revelou que era roqueiro e tocava MPB e enveredou no mundo do forró por mero acaso, ou melhor, por conta de Telma, sua esposa, que o incentivou a seguir nessa vertente agendando shows e tornando-se sua empresária. O dono do forró temperado também criticou os cantores de forró que preferem ficar estáticos tocando forró tradicional e disse que o forró precisa evoluir, ratificando o que Léo Macedo, da Estakazero, falou sobre o forró universitário: “forró universitário existe, sim e é, sim, uma evolução do forró”.
"O forró foi chegando assim, sem eu querer..."
Coluna Holofote: Como se deu o seu contato com o mundo da música?
Zelito Miranda: É uma longa história. Eu nasci no interior da Bahia, em Serrinha, e essa geração minha sempre tem uma história ligada ao mundo rural no começo. E eu também tive esse contato logo cedo, eu nasci em fazenda e depois, quando eu vim para Salvador, logo que cheguei, eu tive um contato muito rápido com a música.
CH: Mas quando você estava em Serrinha, você não teve contato com a música?
ZM: Eu comecei a tocar violão lá, eu tinha uma galera assim, porque Serrinha é uma cidade muito de música.
CH: E você tocava forró?
ZM: Não, muito pelo contrário. Na minha vida musical, eu passei por um período muito longo para aceitar o forró e até hoje eu chamo meu forró de temperado, por ser um forró diferente dos demais, porque eu tinha uma ligação com a música de lá, que era Vicente Barretos, que fazia música na cidade, e a gente ficava ouvindo aquela galera tocar e eu ficava doido. E quando eu cheguei a Salvador, eu tocava violão e meu primeiro contato foi logo com o teatro.
CH: Você deixou de tocar para se dedicar ao teatro?
ZM: Eu fui fazer teatro no Teatro Vila Velha, mas logo estava dando um pulo para a música, retomando para o lance da música e eu trabalhava muito com a raiz nordestina, tinha uma formação de rock muito grande, porque eu gosto muito de rock, de blues então... E voltando, a cidade vivia aquela efervescência monstruosa dos anos 70, tinha a coisa política se estabelecendo, o movimento estudantil, o movimento operário e aí a gente estava no meio, fazendo teatro. Nisso aí, eu fui morar no Rio, aí fiquei um tempo no Rio e quando eu parei com o teatro, e fui fazer música, nesse tempo que eu fiquei no Rio, eu estava com uma galera também só do Nordeste: Lenine, Ivan Santos, Blau Tavares e essa galera toda com aquela movimentação nordestina.
CH: Isso tudo no Rio?
ZM: No Rio. E eu já vinha com essa coisa da linguagem cordel, da linguagem nordestina, trabalhando muito com isso aí eu resolvi voltar para a Bahia. Chegando aqui em Salvador, eu gravei o meu primeiro disco.
CH: De forró?
ZM: Não. Foi de MPB, mas eu prefiro chamar de “MPN – Música Popular Nordestina”, mas eu sempre tive um pé no rock. Aí, sim, fiz meu primeiro disco e fui cair num trio elétrico para cantar com Sarajane, Laurinha... Depois gravei um outro disco, que eu nem gosto dele, chamado “O grande mistério”, na época gravei com Rangel, da WR e ele lançou um selo chamado “Nosso Som”, que era distribuído pela Warner e lá estava eu também, com meu segundo LP gravado. E daí eu montei um estúdio de gravação e com essa coisa da música nordestina assim, a gente sentia que o forró estava muito próximo, o forró foi chegando assim sem eu querer...
CH: E como ele se firmou?
ZM: Eu tinha acabado de fazer um projeto de Pixinguinha nacional com Belchior, fiz 27 shows com ele e quando eu cheguei aqui, um maluco amigo meu me disse “Zelito, eu tenho um show para você em Heliópolis, agora, só vai ser forró”. Aí, Telma namorava comigo e ela disse “não, vamos fazer esse show, que vai dar uma grana e pá pá pá”, aí virou empresária, virou tudo. Aí, eu montei um show de forró e fui fazer um dia. Era São Pedro e não tinha nada para o dia seguinte e eu fui logo contratado para o segundo show, né? E quando eu voltei de lá, eu voltei com um cachê maravilhoso, aí eu pensei “pô, forró dá dinheiro, legal”.
CH: Mas você gostou de cantar forró nesse momento ou fez só por dinheiro?
ZM: Eu sempre gostei da música como um todo e eu entrei para o forró, mas eu procurei e procuro, cada dia, não me separar dessa ideia de que a música não pode ficar estática, não pode ficar parada. Eu quando vejo aquela coisa tradicional ou até quando eu vejo como o forró está caminhando, às vezes para aquela coisa tradicional, em alguns lugares, com alguns artistas colegas nossos, eu até tento conversar com os caras. Eu digo “bicho, vamos tentar dar uma dimensão melhor ao forró”, então é isso. Hoje eu tenho 10 discos gravados, sendo 8 de forró, um DVD e umas 3 ou 4 coletâneas.
CH: Quando você enveredou pelo forró, quais foram as dificuldades que você encontrou?
ZM: Muitas, muitas. Eu só não senti na platéia, a resposta sempre foi bacana. Mas os meios de comunicação – eu diria que a Bahia tem um péssimo hábito , principalmente no meio de rádio, porque comunicação de rádio é uma coisa muito difícil, eu nunca me enquadrei muito com eles, porque eu sempre digo que minha obra é muito maior do que Zelito Miranda, porque ultrapassou o limite de não execução em rádio. Eu sou um cara que sou pouquíssimo executado, até por minhas ideias, eu acho eu sou um cara que pensa demais e eu acho que as pessoas não gostam de quem pensa muito. E eu me enquadro nessa ideia de pensar, de ter ideia própria, de querer transformar um pouco as coisas. Essa foi uma das muitas dificuldades.
CH: Agora, de onde vem essa fama do “Rei do Forró Temperado”?
ZM: Eu fui fazer forró no Lagoa Mar, um bar que tinha em Patamares de Paulo Leitte e eu tinha acabado de gravar um disco e eu não tinha como botar o nome do disco, então, eu passei para Rafael Júnior e André Simões, que tinha um programa na Metrópole e Andrezão não tinha o que botar no nome e inventou “Rei do Forró Temperado”. Eu fiquei brigando, porque do “Forró Temperado” eu gostava, mas do rei, não. Mesmo assim, ficou como marca minha, ficou como o nome do disco, do meu primeiro CD de forró. E eu sou conhecido até hoje como o “Rei do Forró Temperado” por causa disso.
CH: Quem foi ou é seu espelho, aquela pessoa que te inspira?
ZM: Eu não gosto de ficar falando Luiz Gonzaga, porque todo forrozeiro diz isso e eu detesto forrozeiro que fica falando assim “meu mestre é Luiz Gonzaga”. Eu não tenho esse negócio de mestre, eu acho que meu mestre foi isso tudo, meu mestre é o aqui e agora, é o mundo, entendeu?
CH: Mas hoje, qual seria o nome do forró?
ZM: O meu. Porque eu acho que o forró mais moderno que está no mercado é o meu e aqui na Bahia, eu gosto da Estakazero. Eu gosto muito do que Leo Macedo faz, eu acho que é um trabalho muito bonito, agora, todos os nossos colegas aí estão fazendo um trabalho muito bacana, como Adelmário Coelho, Targino Godim...
CH: Quando chega essa época de São João, a gente vê algumas bandas que são figurinhas marcadas nesses eventos, aparecem muito mais. Por que o mesmo não acontece com Zelito Miranda?
ZM: Olha, eu lhe digo que o mesmo não acontece comigo, porque eu não foquei isso. O meu foco foi diferente. Leo (do Estakazero) trabalha hoje muito ligado a essa coisa de blocos carnavalescos, a festas de camisa de axé, essa coisa que eu acho muito legal e eu não foquei isso. Eu foquei em sedimentar um trabalho que eu tinha há muito tempo. Eu faço uma média de 45 shows por ano, então, eu quero sedimentar isso eu quero investir em outras coisas. Eu fiz um investimento muito grande no meu DVD. E eu vou lhe dizer: eu cansei um pouco de Salvador. Salvador enche o saco, realmente, porque Salvador tem uma cultura com a música muito negativa, com essa coisa de que quem é baiano estreia, né? E como eu sou do interior, eu tenho uma visão diferente desse negócio.
CH: Como assim?
ZM: Olha, o show aqui em Salvador é convite, quer dizer, criou-se uma cultura de convite , para uma banda de forró tocar, só toca lincado com um bloco carnavalesco, que está botando suas bandas hoje. Então, a gente não está mais trabalhando, eu acho que o caminho agora é outro e eu tenho um trabalho que sobrepôs isso. Eu não dependo de rádio, não dependo de televisão, não dependo de jornal, não dependo de nada.