Léo Macêdo discorda de Flávio José e dá dicas para os forrozeiros.
Em entrevista concedida à Coluna Holofote o vocalista da banda Estakazero, Léo Macedo, fala sobre sua passagem pela banda Colher de Pau, onde foi cantor até de pagode e revela que ser cantor de forró dá dinheiro, mas, para isso, Léo dá algumas dicas. Tendo o forró universitário como um estilo seguido pela sua banda, ele discorda de um dos maiores forrozeiros do país, Flávio José, e diz que o forró universitário existe, sim e é “uma evolução do forró”. Sobre a concorrência nas sextas-feiras entre o Forró da AABB e os Ensaios de São João da Estakazero, Léo diz que trata-se de algo sadio, mas deixa claro qual deve ser a decisão do público: “eu não gosto de tal banda que vai estar na AABB e vou pro Estakazero”. E ao contrário de quase todas as bandas existentes por aí que sonham com seu lugar ao sol em cada canto do país, para a Estakazero, a Bahia já está de bom tamanho. Só lendo para crer!
"Estakazero tem um conceito de ser uma banda que não é passageira"
Coluna Holofote: Antes de assumir a Estakazero, você cantou na banda Colher de Pau. Por que você saiu da banda?
Léo Macedo: Eu saí porque queria buscar novos horizontes, queria mudar o destino, me aprimorar. Na verdade, foi um crescimento profissional para mim. Eu tinha montado a banda Colher de Pau, mas ela tinha começado de uma maneira muito mais informal, de brincadeira mesmo. Porque a banda era formada por primos meus, amigos e a gente tocava mais por curtição. Para você ter uma ideia, às vezes a gente tocava sem cachê, pela cerveja mesmo.
CH: A Colher de Pau, quando começou, tocava vários estilos, né?
LM: A gente começou tocando sambão, depois tocamos axé e na época de São João fazíamos um repertório só de forró. E foi nesse vai-e-vem, tocando todos os estilos que a gente se destacou tocando forró. E o São João da Bahia cresceu muito e a banda teve um destaque muito grande em Amargosa e foi quando a gente decidiu assumir a identidade de banda de forró. Mesmo assim, a gente tocava forró de todos os estilos: era uma mistura de forró com country, com brega, sertanejo...
CH: Pois é. A Colher de Pau começou como banda de pagode, de samba. Como é sair desses estilos para outro completamente diferente, que é o forró?
LM: Bom, na verdade, a gente nem chegou a entrar no pagode. A gente tocava todos os estilos. A gente tocava Skank também, tocava Chiclete com Banana, Asa de Águia. Então, a gente tinha uma banda que era para curtir mesmo, não tinha um compromisso com uma identidade musical. Porque a ideia, o projeto inicial não era viver de música.
CH: Ser cantor de forró dá dinheiro?
LM: Cantar qualquer coisa dá dinheiro, desde que tenha dedicação. Tudo dá dinheiro na vida, quando você faz com amor, com compromisso, dedicação. O dinheiro é consequência. A gente não faz pelo dinheiro, o dinheiro é uma consequência do compromisso que você tem com o trabalho.
CH: Mas por que vocês, que tocavam tantos estilos, quando resolveram se profissionalizar, assumiram um compromisso musical com o estilo forró? Essa não foi uma decisão guiada pelo mercado?
LM: Foi. Foi uma decisão muito guiada pelo mercado, mas também, com uma identificação que o público sentiu. Porque você não engana o público. O público percebe quando existe uma verdade no trabalho, então a gente, na época da Colher de Pau, como eu já disse, a gente se destacava muito no período junino. Então, tendo uma visão comercial, afinal de contas a gente precisava crescer, gravar um disco - porque não tínhamos nem um disco gravado ainda – então, a gente pensou “vamos gravar um disco de quê?”. E meio que sintetizamos um estilo onde tinha o forró, o country, o brega e o primeiro disco da banda Colher de Pau foi chamado de “Pop Rural” por conta dessa mistura da música do interior.
CH: Na terra do axé é fácil fazer som com instrumentos da época como sanfona, acordeom, triângulos, entre outros?
LM: Olha, o axé não prevalece na Bahia. A gente pode colocar esse termo para Salvador. Existe um pouco de falha nisso aí. O axé não é uma música baiana, e sim, soteropolitana, é uma música da capital. Porque os interiores todos da Bahia, eles consomem muito forró. Existem muitos artistas de forró, bandas de forró, eu diria que até mais que o axé. Só que, como a Estakazero é da capital, a gente realmente tem essa característica de ser a banda de forró da capital.
CH: Como você encara a entrada da guitarra no estilo tipicamente nordestino?
LM: É um processo natural. O próprio Luiz Gonzaga já fazia isso. Quando ele montou a banda, ele tocou muito com formação de zabumba, triângulo, mas sempre teve um contrabaixo, uma guitarra, isso aí são instrumentos de complemento, são instrumentos que dão mais peso, vamos colocar assim, que anima, que alegra os shows. E a Estakazero levou cinco anos, só no sexto ano foi que a gente colocou guitarra.
CH: Estakazero é forró pé de serra ou forró universitário?
LM: Olha, isso é apenas uma questão de nomenclatura. Hoje no forró, eu acho que a gente é obrigado a colocar esses termos tipo “pé de serra”, “universitário”, “tradicional”, “autêntico”, “forró eletrônico”, “forró de plástico”, enfim... E por que é que existe isso? Porque você não consegue definir nada quando você fala forró. Você tem bandas que são completamente diferentes – você não tem como comparar Estakazero com Aviões do Forró. O som é completamente diferente, o ambiente.
CH: Em entrevista à Coluna Holofote, o forrozeiro Flávio José disse que não existe forró universitário. O que você acha disso?
LM: Eu discordo um pouco de Flávio porque, eu acho que ele não gosta do termo “universitário” e também vi ele falando que não existe forró universitário, o que existem são universitários fazendo forró, que dá no mesmo, é a mesma coisa, né? Então, por que não chamar forró universitário?
CH: Afinal, o que é forró universitário?
LM: O forró universitário, para mim, é o forró feito pelos jovens. Eu acho que o forró universitário é uma evolução do forró. A cultura, ela não é estática. Então, o forró que Luiz Gonzaga fazia era um, o forró que Flávio José faz hoje é outro, tem um estilo diferente, eu diria que é um forró romântico, tem um estilo autêntico, mas é forró. Forró universitário, literalmente falando, é o forró feito por universitários. O universitário ouviu o forró que ele gosta, que ele admira, que eu acredito que seja o forró de Dominguinhos, de Luiz Gonzaga, do próprio Flávio José e aí o jovem universitário fez o seu forró, ele está recriando o forró, eu sou dessa opinião.
CH: Claramente, qual o estilo da Estakazero?
LM: A Estakazero toca o estilo que eu chamo de universitário porque tem uma identidade forte com o universitário, com o jovem. A gente cansa de ouvir elogios de gente falando que não gostava de forró, mas que gosta da Estakazero. Porque é mais suave, não tem aquela coisa carregada, tradicionalista nas letras, em nossos shows, é um show leve. E o jovem percebe isso. Não é aquela coisa do interior, tanto no sotaque quanto no comportamento, como nas letras, enfim.
CH: Mas há realmente alguma diferença entre esses dois estilos (o pé de serra e o universitário), seja na hora de compor, na dança, no arranjo?
LM: Sim, claro. O forró universitário tem uma linguagem atualizada, uma linguagem urbana, uma linguagem mais contemporânea, vamos colocar assim. E tem também a dança. Acompanhado com a música, o universitário recriou a dança do forró e o mais interessante é que isso veio do Sul para o Nordeste.
CH: Em seu projeto Ensaios de São João da Estakazero você convida alguns representantes do axé e de outros ritmos que não o forró para participações especiais. Eles são obrigados a cantar somente forró?
LM: Não. Imagina se eu vou obrigar esses artistas a alguma coisa... Não. Agora, esses artistas que geralmente vão cantar com a gente, ele têm um envolvimento com o forró, eles adoram o forró. Luís Caldas, que é nosso próximo convidado, nem se fala! Ele já gravou até disco de forró. E a gente também adapta os sucessos desses cantores de axé pra forró.
CH: Então, nos ensaios da Estakazero só se toca forró?
LM: Com certeza absoluta. Sem dúvida alguma.
"A gente não tem opção, mas o Forró da AABB eu não sei dizer porque é dia de sexta"
CH: Foi uma decisão estratégica colocar os ensaios nas sextas-feiras para competir com o forró da AABB?
LM: Não exatamente para concorrer com o Forró da AABB. A gente não tem tanta opção porque nossos sábados são comprometidos com as vendas de shows do interior. A gente está sempre viajando, tocando no interior. Então, a gente já fazia na verdade, antes dos Ensaios de São João da Estakazero, nós fazíamos o Forró Fashion, na Fashion Club, enfim, são oito anos de banda agora e a gente sempre fez os ensaios às sextas-feiras. Só que acontece que é um dia estratégico, né? O Forró da AABB eu não sei lhe dizer porque que é sexta. Podia ser sábado, porque não é um ensaio de uma banda. O Forró da AABB é um evento da Associação Atlética do Banco do Brasil, que já acontece com tradição há muitos anos. Mas é um ensaio onde diferentes artistas vão tocar. Estakazero é diferente. É um ensaio de uma banda, que recebe artistas como convidados.
CH: Mas você enxerga o Forró da AABB como seu concorrente ou são públicos diferentes?
LM: Não. Na verdade, são as duas coisas. É uma concorrência, mas é uma concorrência saudável e eu acho isso importante, eu acho que o público tem que ter opção, porque o público que vai dizer e ele pode escolher “hoje eu vou para o Estakazero” ou “não, eu não gosto de tal banda que vai estar na AABB e vou pro Estakazero” e vice-versa.
CH: Chega essa época do ano e a Estakazero começa a fazer show em tudo quanto é lugar. De certa forma, você não acha que acaba se expondo demais e isso pode ser negativo, as pessoas podem enjoar?
LM: Não é bem assim, calma. Estakazero já teve momentos de estar em tudo, mas, hoje em dia, eu discordo de você. A gente está fazendo ensaio e fora os ensaios, a gente só faz eventos fechados aqui em Salvador. E isso é uma faca de dois gumes: a gente tem lá uma superexposição, porém, o próprio forró, o próprio São João, ele tem esse mecanismo, existe uma superexposição, mas também depois existe uma ausência, depois disso, a gente some. Quando passa o São João você não vê mais Estakazero em lugar nenhum. Então, é aquela coisa, termina existindo uma sazonalidade. Tem gente que fala que forró toca o ano todo... Toca, mas não na capital. Mas, naturalmente a gente sendo uma banda aqui de Salvador e tendo um conceito muito bom, porque Estakazero tem um conceito de ser uma banda que não é passageira. E aí é aquela história, a gente não pode deixar a peteca cair, a gente tem que inovar sempre.
CH: Na primavera e verão quando Salvador ferve com outros ritmos vocês sentem dificuldade de subir ao palco?
LM: É aí que a gente fica mais atarefado ainda, porque a gente fica programando tudo que vai acontecer agora.
CH: Mas eu digo em termos de show. Estakazero faz shows nesse período ou some mesmo?
LM: Olha, a gente tem uma diminuição, lógico. Não digo em dezembro, que é um mês bom e a gente sempre toca em algum réveillon, sempre. Tem os interiores, tem festas de empresa no final do ano que a gente faz, então, a gente não para. Tem o projeto de “Luau do Estakazero”, que ano passado a gente não fez, mas há três anos atrás, tinha toda sexta o luau. Nosso verão é bem movimentado. A gente tem uma tendência a diminuir, justamente para não acontecer isso que você falou da exposição e saturação, mas a gente pretende este ano fazer, pelo menos um luau, gravar DVD, enfim, a gente toca o ano inteiro.
CH: Qual o mecanismo que a banda usa para divulgação nas rádios?
LM: Parcerias. Não só com rádios, mas com todos os meios de comunicação. A gente tem uma parceria muito forte com a Rede Bahia, com a TV Aratu, com a Record ainda estamos começando, mas é boa. Com as rádios todas eu tenho muita amizade, com a Piatã FM, Bahia FM, Nova Salvador. Porque é aquela história: o artista quando tem um conceito, a mídia busca o artista.
CH: Como é que a Estakazero encara a pirataria?
LM: A pirataria está acabando. A própria pirataria está morrendo. Os CD’s se transformaram num cartão de visita. A gente grava CD para dar para as pessoas.
"A mídia nacional não é um objetivo da Estakazero"
CH: E para você os downloads de músicas prejudicam as bandas?
LM: Eu acho que prejudica, na medida que eu, particularmente, desde que comecei a minha carreira, já tive promessas concretas de gravadoras. Nosso DVD então, foi a última esperança que eu tive. Uma gravadora comprou o type, disse que ia divulgar e não fez nada. Mas é um problema que não é nosso, é mercadológico, que eu acho que se a Estakazero tivesse acontecido há 10 anos, quando as gravadoras vendiam 1 milhão de cópias, talvez tivesse acontecido o que aconteceu com o Falamansa.
CH: Na sua opinião, qual o melhor cantor de forró da Bahia?
LM: Eu acho que é Adelmário Coelho, porque realmente é uma voz fantástica e... É ele.
CH: Quais caminhos vocês trilham para conquistar a mídia nacional?
LM: Olha, a gente não tem isso como uma meta, não. A mídia baiana já é pra gente um privilégio, já é uma conquista maravilhosa e a gente procura ter, cada vez mais, o apreço, a parceria da mídia daqui da Bahia. E na verdade hoje, o mercado se regionalizou. E, para falar a verdade, não vejo isso como um objetivo da Estakazero, não.
Por Fernanda Figueiredo