Geraldo Azevedo fala da disputa entre o axé e o frevo e diz que já foi explorado
Num bate papo (não dá para chamar de entrevista) "prá lá" de descontraído, entre uma gargalhada e outra, o cantor e compositor, Geraldo Azevedo, falou dos seus gostos e contra-gostos e adiantou um pouco das surpresas que está preparando para seus fãs neste ano. Autodidata, ele conta como começou a cantar e revela que já foi muito explorado. Pernambucano, ele dá sua opinião sobre a rixa existente entre o frevo e o axé e comenta sobre o forró eletrônico deixando bem claro que entre um Aviões do Forró e um Táxi Lunar, ele é mais "um táxi lunar, com certeza, porque é muito mais evoluído".
"Eu fui explorado, mas foi assim que as pessoas acabaram me descobrindo"
Coluna Holofote: São quantos anos de estrada?
Geraldo Azevedo: Olha, eu gravei meu primeiro disco em 1972. Eu e Alceu Valença, nós gravamos nosso primeiro disco juntos, era um disco em dupla naquele tempo, que tinham as duplas brasileiras, Antônio Carlos e Jucafi e aí a gente fez um disco em dupla, também: “Geraldo Azevedo e Alceu Valença” foi o primeiro disco da gente. Então, de lá pra cá, quer dizer, já são 37 anos. Mas, na verdade, eu tenho mais de 40 anos de carreira, considerando o tempo que eu toco.
CH: Eu andei lendo sobre você e vi que você é autodidata. Fale-nos um pouco sobre esse dom.
GA: Olha, meu contato com a música foi uma coisa muito natural, porque lá em casa, embora eu tivesse nascido na roça, mas minha mãe tinha uma escolinha de alfabetização – minha casa era uma escola- e minha mãe também gostava muito de cantar, meu pai tocava violão e sempre, na própria escola, minha mãe fazia umas festinhas de apresentação dos alunos e eu me lembro que eu, como aluno dela, muito cedo, com 4 anos de idade, eu já subia no palco para cantar. Eu me lembro que uma vez, ainda com 4 anos, eu subi no palco para cantar uma música de Luiz Gonzaga, música esta que eu cheguei a gravar adulto.
CH: Qual foi a música?
GA: Foi a música “Sabiá” e teve também “ABC do Sertão”. Eu me lembro eu cantando essas músicas criancinha, pequeninho. Então, o palco para mim foi o exercício da escola da minha mãe e que depois, todos os colégios que eu fui estudar, terminou que todo mundo me explorava. Quando tinha festa era sempre “bota o filho de Dona Nezinha pra cantar”. Até quando eu fui para Recife estudar para fazer o vestibular, no colégio que eu estudei lá, eu já tocava violão, então, foi isso, eu terminei sendo explorado pelas escolas todas.
CH: Você enxerga isso como uma coisa ruim?
GA: Não. Eu fui explorado, mas terminou que foi nessas escolas que as pessoas acabaram me descobrindo e eu acabei entrando na televisão, me apresentando nos shows das pessoas que já faziam sucesso lá em Recife, pessoas que foram meus colegas no começo, mas que hoje também tiveram projeção, como Naná Vasconcelos, o pessoal do Quinteto Violado, esse pessoal todo foi meu contemporâneo no início da carreira.
CH: Quando você começou a se apresentar com essas pessoas, você imaginava que se tornaria no Geraldo Azevedo com a projeção que tem hoje?
GA: Não, não. Eu não sabia que ia ser um artista, não. Eu tocava porque eu gostava, mas a música foi me puxando, me puxando... E eu sempre acho que não fui eu quem escolheu a música, foi a música quem me escolheu.
CH: Existe algum fato que lhe marcou no início da sua carreira?
GA: Olha, tem várias, porque a gente passou por cada situação... Eu atravessei vários momentos técnicos da música. Quando eu comecei, não existia digital, computador, até as gravações eram feitas em dois canais, entendeu? Era tudo muito precário. Eu me lembro que não existia violão elétrico, você tocava no palco com a maior banda e um violão acústico, um microfonezinho assim, não sei como é que funcionava. E eu me lembro de situações complicadíssimas que eu vivi por conta disso.
CH: Você pode nos contar uma dessas situações?
GA: Uma vez a gente chegou num lugar e só tinha um microfone para tocar. Um microfone para tocar o violão e para tocar, meu Deus do Céu! Era numa feira e eu me lembro assim, eu pensei “como é que eu faço?”. Peguei, botei o violão no joelho, a cabeça baixa, a boca perto da perna para alcançar o microfone, todo curvado, então, eram umas coisas muito interessantes, porque a gente não tinha os aparatos que existem hoje. Aliás, eu nunca tive muita frescura, não. Ainda hoje eu me deparo com situações de som ruim, equipamentos ruins, nos interiores da vida aí, mas essas coisas a gente tem que relevar e deixar que a arte supere tudo isso. Eu acho que todo o meu processo artístico foi mais pela superação, pela resistência, pela insistência.
CH: Por falar em resistência, você foi um artista que viveu a ditadura, né? Conte-nos um pouco sobre esse momento.
GA: Pois é. Eu sou um artista que minha carreira toda foi iniciada na época da ditadura e a ditadura perseguia os artistas. Fazer arte era uma coisa perigosa para a Ditadura. Todas as pessoas que pensavam em relação aos seres humanos, na dignidade dos seres humanos, eram como lixo. Naquele tempo, eu fui preso duas vezes.
CH: Por conta de alguma canção?
GA: Eu tive músicas censuradas por muito anos. Eu tive uma que passou 16 anos censurada e quando gravou foi sucesso, que foi aquela música “Canção da Despedida”. “Já vou embora, mas sei que vou voltar...”, essa música foi uma música que foi censurada mesmo. Eu cheguei a botar na censura assim, pra ver se rolava, né? Mudei de nome várias vezes, mas eu fui falar do rei mal coroado, que eram os ditadores e ainda mais que era o nome do rei, que era Artur Costa e Silva, entendeu?
CH: Seu último CD foi “O Brasil existe em mim”. Nos fale um pouco como foi a concepção deste álbum.
GA: Olha, esse CD é o grande CD meu do século XXI, foi o primeiro CD que eu fiz realmente com músicas desse século, só tem uma música bem antiga, que eu coloquei, mas as outras todas realmente são novas. Parece brincadeira, mas é verdade, minhas canções já atravessaram século e eu espero que atravessem outros séculos. Eu sempre pensava “ah, o século XXI fica longe demais”, mas a gente já está nele. Então, de fato foi o primeiro disco meu e quando eu fiz esse disco, já fazia algum tempo que eu não gravava um disco de canções inéditas. Pintou uma moda muito grande de você fazer regravações com essas coisas todas de fazer apologia eu cheguei a gravar, que foi o disco anterior, que é um disco só de músicas regravadas e são músicas realmente que marcam a minha história. Mas aí, eu resolvi fazer esse disco e quando eu me vi fazendo música, fazendo música, eu já estava com um leque imenso. E eu tenho uma diversidade de fazer música muito grande, eu faço canções de vários ritmos, então, quando eu vi tinha uma mistura de coisas e eu falei “rapaz, isso aqui é o Brasil”.
CH: Foi daí que surgiu o nome do CD?
GA: Isso. E aí também, tinha uma música de Capinam, que é um poeta daqui de Salvador, meu parceiro, que fez uma música chamada “Chorinho de Criança” e que tem essa frase: “o Brasil existe em mim”. Aí, eu achei que essa frase poderia definir muito bem esse disco. Aí, foi assim que saiu o título desse disco e, ao mesmo tempo, dessa diversidade de canções, de parcerias que eu tenho.
CH: Mas afinal, Geraldo é cantor de quê? Forró, frevo...
GA: Olha, é engraçado. Como eu falei aqui, o Brasil tem tudo isso e eu absorvo realmente a cultura brasileira, adoro toda essa diversidade e fico querendo assumir tudo. Agora, realmente tem coisas que são características de cada região e o nordestino tem de tudo isso um pouco: tem frevo, tem baião, tem forró, então, Pernambuco já é tudo isso, então, eu sou um pouco de tudo isso. Mas, na verdade, eu também sou cigano, porque eu absorvo música de fora do país, eu gosto de música, música não tem fronteiras, então eu tenho muitas influências, muitas tendências... Eu adoro rock, eu adoro pop, basco, eu adoro música.
CH: O que chama muito a nossa atenção é que você, com tantos CD’s gravados, não tem um DVD. Por quê?
GA: Olha, deixa eu te dizer uma coisa, a minha dificuldade em lançar um DVD é que, desde a década de 80, eu me tornei um artista independente, eu fui um dos primeiros a me livrar de gravadora, então, eu fiquei realmente independente. Todos esses trabalhos que você conhece dessas canções minhas, a maioria delas é feita por mim mesmo, eu não fiz com gravadora. Então, foi o público mesmo que me consagrou, não foi a mídia, tanto que eu não sou um artista reconhecido pela mídia nacional. É verdade que, localmente, em alguns lugares como Salvador, eu sou bem acolhido, meu público já não tem mais idade e finalmente, eu gravei o DVD e vai sair agora em junho, inclusive, será lançado, simultaneamente nas lojas e o canal Brasil vai fazer um especial também com esse DVD.
CH: O DVD tem participações?
GA: Não. Por incrível que pareça, não. É só um show com a banda, uma festa maravilhosa no circo Voador do Rio de Janeiro e foi realmente um momento muito especial e eu estava devendo esse DVD, porque, realmente, o pessoal me cobra muito.
CH: O DVD é todo autoral?
GA: Todas as músicas são minhas, só tem músicas minhas. Eu cheguei até a cantar, no show do DVD, uma música de Luiz Gonzaga, mas terminou que, na hora de mixar, de montar, eu acabei deixando só as minhas mesmo.
CH: E a gente vê sucessos antigos nesse DVD?
GA: A maioria. Todos os meus clássicos estão lá e mais algumas coisas que não são tão clássicas, mas que está com uma energia muito bacana. Tem música nova, também, porque eu cheguei a cantar músicas do disco “O Brasil existe em mim” e tem uma música inédita também, que eu estou lançando no DVD, que é uma música minha com Capinam, meu parceiro aqui de Salvador.
CH: Como é que você lida com as novas tecnologias da informação? Na sua opinião, a internet é vilã, ou uma ferramenta que democratiza a cultura?
GA: Não, eu acho que a internet é uma coisa maravilhosa, eu acho que o mundo se tornou menor com ela. Agora, é claro que foi colocado de uma maneira muito irresponsável, é tanto que nós como compositores, direitos autorais, pô, se já era ruim, ficou pior. Porque agora, todas as pessoas são donas das situações. A pirataria exerce uma função hoje com muita clareza, porque antigamente se fazia pirataria com cassete, a qualidade era ruim. Hoje em dia, você faz pirataria com CD, DVD, com a mesma qualidade. Então, quer dizer, realmente ficou muito difícil por esse lado aí. Mas por outro lado, esse processo tecnológico só veio valorizar, favorecer.
CH: Por exemplo?
GA: Gravações. Antigamente, a gente gravava em fitas, hoje a gente grava em computador. Hoje em dia, até quem não canta consegue cantar, porque você mexe no computador e afina a voz, você erra, conserta no computador...
CH: E você já está se entendendo com as novas tecnologias?
GA: É, tenho que conviver com isso. Agora, realmente, eu não tenho o controle de tudo, não. A ficha não caiu totalmente, não. É muito rápido. (risos)
CH: Como é a sua relação com o público da Bahia?
GA: Olha, vou falar, sinceramente: é meu público termômetro. É o público mais importante que eu tenho e não é porque eu estou aqui, não. Porque, realmente, foi um público que me acolheu desde o início da minha carreira. Quando eu lancei meu primeiro disco, eu vim fazer um show aqui, no Teatro Vila Velha, e foi maravilhoso! E depois, na década de 80, de 90, eu me lembro que eu enchia a Concha Acústica. Eu já cheguei a fazer duas sessões de show no mesmo dia na Concha e todos lotados. Então, a Bahia para mim serve de termômetro. Quando eu lanço um trabalho eu digo logo” vamos ver como é que Salvador vai receber. Se receber maravilhoso, é porque no Brasil todo vai dar certo”.
"O Brasil precisa de mim. O Brasil existe em mim"
CH: E por que você demora tanto tempo para vir aqui?
GA: Olha, o Brasil é muito grande e eu viajo o tempo todo. Eu me lembro que uma vez eu fui fazer uma turnê na Suíça e em um mês eu cobri o país inteiro. A Suíça é do tamanho de Sergipe, né? Mas o Brasil, eu viajo esses anos todos e todo ano eu vou em cidades que eu nunca tinha ido, para você ver como é a coisa. Então, quando eu demoro de vir aqui é porque eu tenho que, democraticamente, estar em outros lugares, porque o Brasil precisa de mim e o Brasil existe em mim.
CH: Durante o carnaval, surgiu uma polêmica por aqui porque a prefeitura de Pernambuco teria proibido shows de axé por lá. O que você acha dessa suposta rixa entre o axé e o frevo?
GA: Olha, essa é uma história cultural muito louca, né? Porque eu acho que o Brasil, com essa diversidade de músicas, tem lugar para tudo. Agora, você há de convir que o mercado do axé absorveu muito todo o Brasil criando carnavais fora de época em todos os lugares e realmente é um mercado que a Bahia inventou, que é maravilhoso para eles. Mas, enfim, eu acho isso tudo um pouco de absurdo. Eu acho que tem que valorizar as músicas regionais, mas tem que abrir espaço para músicas do mundo inteiro. Eu acho que, se o axé está chegando lá, tem que conceber. Eu sou contra essa coisa de discriminação, principalmente de arte.
CH: O que você acha dos forrós eletrônicos, como Calypso?
GA: Olha, essas coisas têm que acontecer, porque a gente está vivendo um período diferente, então, a gente tem que absorver todos os elementos que vão surgindo. Então, era inevitável que a coisa eletrônica chegasse na música primitiva para dar uma outra dimensão. O que acontece muitas vezes é que essas músicas de forró “oxente”, elas começaram a degenerar um pouco da idéia de forró.
CH: Como assim?
GA: As pessoas começaram a achar que qualquer música pode ser transformada em forró e cantada feito forró. Existem músicas realmente feitas como forró. O forró pé de serra ainda é um forró autêntico e a partir daquilo é que você tem que desenvolver as coisas, mas “neguinho” começou a tocar música do “iêiêiê” em forró. Quer dizer, não que seja ruim essa coisa toda, mas às vezes, é feita de uma maneira muito... Meio brega. Existe uma maneira meio cafona. Então, a arte exige realmente que você crie em cima, mas sem perder a sua dignidade. Mas eu não sou contra nada, não. Se o povo concebe e está se alegrando com isso, ela está cumprindo a sua função. Por exemplo, eu não compro disco de sertanejo, eu não gosto de ouvir, mas tenho o maior respeito, porque é uma manifestação deles lá.
CH: E Geraldo Azevedo prefere um Aviões do Forró ou um Táxi Lunar?
GA: Eu prefiro meu Táxi Lunar, viu? É muito mais evoluído do que o Aviões do Forró. (risos)
CH: Você acha que suas músicas só têm espaço durante o período junino?
GA: Olha, uma coisa que aconteceu da década de 90 pra cá é que o forró foi muito valorizado. O forró não tinha essa dimensão que tem hoje, de chegar a todas as classes. O forró era do povo, quem consumia forró era a classe C e depois começou com essa coisa de forró universitário e hoje, eu acho que graças um pouco à gente, a manifestação do forró está mudada e o Brasil percebeu que o forró é um ritmo, uma dança particular do Brasil. Hoje, todas as classes, todas as idades absorvem o forró. E eu sinto que, do comecinho de 2000 para cá, as festas juninas começaram a criar uma efervescência muito maior em todo o Brasil. Hoje eu acho que o forró não tem mais jeito: é um dos maiores representantes do Brasil, assim como o samba foi durante muito tempo.
CH: Como você avalia a participação de artistas na gestão cultural, a exemplo de Gilberto Gil, que durante algum tempo ocupou o cargo de Ministro da Cultura?
GA: Primeiro que, por ele mesmo, é muito difícil. Porque você ter a sua profissão e ter que exercer outro cargo que não seja a sua profissão... Porque Gilberto Gil ficou tolhido, tanto por exercer o seu cargo, quanto também para exercer a sua profissão. Então, realmente, é uma coisa muito difícil.
CH: Você achou que Gilberto Gil fez um bom trabalho?
GA: Olha, Gilberto Gil foi muito criticado pelo fato de ficar essa desassociação assim, entre ser Ministro e ser artista, entendeu? Eu acho que todos os dois foram lesados, tanto ele na profissão dele, quanto no Ministério. Porém, com tudo, com tudo, ele fez um Ministério muito bom. Ele chamou a atenção para certas coisas que a gente tinha necessidade, aconteceu muita coisa boa. E ele deixou um herdeiro bom, que foi o assessor dele, que é o Juca, que deu continuidade ao trabalho dele.
"Eu não aceitaria (ser Ministro) porque eu gosto muito de fazer o que eu faço"
CH: Você aceitaria ser Ministro da Cultura?
GA: Eu não aceitaria. Assim como eu já vi também, Fernanda Montenegro ser convidada, no Governo Sarney, para ser Ministra da Cultura e ela não aceitou, exatamente por essa distinção entre as duas coisas. Então, eu não aceitaria. Até porque, eu gosto muito de fazer o que eu faço, de tocar, de cantar, então, muitas vezes, você fica tolhido um pouco e você não pode, você tem que exercer o seu cargo como Ministro
Por Fernanda Figueiredo