Muito mais do que pai, como ele mesmo se auto-intitula, ele é o parteiro do axé. Sendo assim, ninguém melhor do que o produtor musical Wesley Rangel para falar sobre o maior movimento que existe na Bahia e que ele ajudou a nascer, o axé music. Nesta entrevista, Rangel fala sobre o nascimento do axé, suas vertentes, faz críticas e elogios a novos e antigos artistas do ramo, bem como, dá dicas a essas pessoas de como conseguir alcançar o sucesso e mantê-lo. No caso dos novos artistas, até a pirataria é sugerida pelo produtor para se chegar a algum lugar. E sobre as letras de duplo sentido das canções, Rangel não faz corpo mole e solta o verbo, ou melhor, o adjetivo: " Como o povo baiano é um povo assim, bem descarado, e esse é o termo certo, então a gente sente que o povo tem um tipo de aceitação maior para esse tipo de música."




Coluna Holofote: Você é considerado o pai do axé. Eu queria que você explicasse melhor isso.
Wesley Rangel:
Bem, o pai do axé não, mas o parteiro do axé, com
certeza. Todos os filhos do axé passaram por mim de alguma forma: ou eu produzindo, ou eu gravando, ou eu orientando... Desde 1984, quando eu gravei o primeiro disco de Luiz Caldas, daí pra cá, todas as produções de todos os artistas que chegaram ao mercado, inclusive o último sucesso que é Claudia Leitte com o Babado Novo, todos passaram pelo meu estúdio, pela W.R. Produzimos Luiz Caldas, Olodum, Daniela Mercury, Banda Reflexus, É o Tchan... Então, nós passamos por todas as vertentes musicais, desde o samba até o axé. O raggae também, com Edson Gomes, em 1988. Algumas bandas de rock nós também fizemos. Então, quer dizer, nós estamos, desde o início do estúdio, procurando quais são as vertentes musicais fortes da Bahia.

CH: Então quer dizer que você não trabalha só com a axé music?
WR:
Não. Na verdade, nós já gravamos todos os
gêneros de música que você possa imaginar, de Elomar até  bandas de rock, de raggae. E as bandas de rock, na verdade, acabaram sendo a verdadeira origem do axé. Por exemplo: a Scorpion, que era a banda que Bell Marques tocava, era uma banda de rock que acabou virando Chiclete com Banana; a Diário Oficial vira Jammil; a banda de Durval, que eu não me lembro o nome, acabou virando Asa de Águia e todas as vertentes do axé, hoje, tiveram sua origem no rock.

CH: Muitas pessoas falam que o axé morreu, inclusive, o produtor musical, Jonga Cunha, afirmou isso no dia do lançamento de seu livro. O axé está mesmo em crise, ou isso é lenda?
WR:
Olha, é estranho... O que Jonga talvez tenha querido
dizer é que o axé original, aquilo que deu origem a todo esse movimento, tenha se transformado em outra coisa. Mas, na verdade, essa transformação não modificou o axé. Em alguns momentos ela tentou deteriorar o trabalho que foi feito no início. Por exemplo: Netinho quando resolveu ficar muito pop, ele perdeu o mercado dele e acabou tendo que repensar sua carreira. A própria Daniela tem uma vertente pop muito forte, que acaba interferindo no projeto dela de axé. Daniela hoje é uma artista internacional, tem todo o seu prestígio, mas Daniela hoje não tem a pegada que tinha no início. Ela hoje é uma artista que tem outra linguagem, que a gente poderia até não caracterizar  como axé. Em alguns momentos ela é do axé, em outros, não.

CH: E Ivete, Rangel? O que você diz sobre a musa que mistura tanto os ritmos e faz tanto sucesso?
WR: Apesar de 70% do disco de Ivete ser pop internacional, ela tem que, no mínimo, investir 30% do disco dela no axé, que é o que dá o sustento dela. Não é a televisão Globo, não é a música romântica de Ivete que mantém a vida de Ivete. O que mantém o sucesso de Ivete é "Poeira", são as músicas de axé como "Dalila" que trazem para ela todo o prestígio como uma cantora diferenciada. Porque, no momento que você tenta se comparar a um artista do Rio de Janeiro e de São Paulo, fazendo o mesmo trabalho que eles fazem, evidentemente que o Rio e São Paulo vão acabar ganhando da gente.

CH: Por quê? Os cantores de lá são melhores que os daqui?
WR:
Não. Não porque eles tenham os melhores artistas, mas porque os produtores, os diretores, as gravadoras, todos têm os cantores de sua preferência, que são cantores do Rio e São Paulo. Às vezes de Brasília, às vezes de Minas, mas sempre daquela região sul, sudeste. Então, seria difícil uma Ivete, uma Daniela chegarem por lá. Então, foi a forma que nós tivemos de quebrar a força da mídia no Rio e em São Paulo pra que, ao invés de irmos pra lá fazer essa mídia, eles virem pra cá pra buscar os nossos artistas. E foi o que acabou acontecendo. 
 

CH: E essa mistura? Afinal, o axé eletrônico de Daniela Mercury, o pop de Ivete Sangalo, o afro de Margareth Menezes, o rock do Cheiro com Alinne Rosa, o humorístico do Asa, isso é bom, ou é ruim para o movimento axé music?
WR:
Primeiro, a gente tem que caracterizar que o axé
music é a música feita na Bahia pra dançar na rua. Essa é a primeira coisa que tem que ser fixada. O axé music não é um ritmo, é um comportamento musical, que leva alegria para as ruas, é a relação entre o cantor de trio elétrico e o povo. Então, Asa de Águia tem uma relação com o axé fazendo um galope, um raga, alguns elementos pops com relação com a dança ou com o humor. E isso caracteriza o Ada de Águia com uma sonoridade própria. Na verdade, eu chamo o axé de um grande liquidificador rítmico. Nós não temos um ritmo chamado axé, nós temos misturas rítmicas, que caracterizam a música do axé.

CH: Mas, de qualquer maneira, essas influências são positivas ou negativas ao movimento?
WR:
É positivo, porque o axé, como eu lhe disse, é uma
mistura. Ele aceita qualquer tipo de mistura, desde que tenha característica de dançar, de brincar na rua... Aí, ela é um axé.

CH: Hoje em dia temos na grande maioria das bandas, letras com duplo sentido. O que é que você pensa sobre isso?
WR:
Eu me lembro que eu fui muito preconceituoso no
início do trabalho... A música "Chupa Toda", eu achava que não deveria ser gravada e ela hoje é um sucesso na voz de Gilberto Gil e da Ivete Sangalo. "Na boquinha da garrafa", eu fiz toda questão de não gravar esta música. Gravei e aí, eu vi até Xuxa descendo na boquinha da garrafa. Então, eu não posso ser uma pessoa preconceituosa e dizer que essas músicas com letras de duplo sentido não têm o seu espaço. Porque o Brasil viveu 30 anos cego, surdo e mudo com a revolução que foi feita neste país. Então, a educação foi pra, pra... Pra casa da mãe! Então, hoje a gente não tem referências críticas pra dizer que o povo tem outro nível de pensamento. O povo quer é brincar o carnaval, assistir futebol e tomar cachaça. Então, esse povo quer alegria, quer uma forma de expressão, de brincadeira e, de preferência, como o povo baiano é um povo assim, bem descarado, e esse é o termo certo, então a gente sente que o povo tem um tipo de aceitação maior para esse tipo de música.

CH: Será que o preconceito que hoje o axé sofre não é por conta das bandas que banalizaram o movimento?
WR:
Ainda bem que essa pergunta tem essa palavra
"preconceito". O samba foi muito criticado no Brasil dizendo que nós exportávamos bumbum de morena. Esta é uma questão apenas filosófica, é uma discussão que não se chega a lugar nenhum, porque se não fosse, por exemplo, o gingado, se não fosse aquela forma de expressão corporal de Carla Perez e Débora, as duas primeiras dançarinas do Tchan, não existiria o fenômeno chamado Tchan, que vendeu 11 milhões de discos neste país e fez um sucesso estrondoso. Nenhuma outra banda, nem Ivete e nem ninguém chegou ao número de vendas do Tchan. Então, como desprezar este mercado? E se lá existir algum preconceito, eu acho que o funk é muito pior. A letra do funk carioca é muito direta. A dança do funk é uma relação sexual. O artista, ele geralmente precisa ter uma música popularesca e depois é que ele começa a se sofisticar, a apurar suas letras.

CH: Tem muito artista novo aqui querendo garantir seu espaço. Existe espaço para eles hoje no mercado?
WR:
Nós estamos vivendo um momento muito
interessante da música baiana. Primeiro que nós estamos vivendo o momento de sucesso do evento, não do sucesso do artista. Quem oxigena o mercado é o artista novo. Bell, Ivete, Jammil, Claudia Leitte, eles influenciam o mercado nacional e internacional. Mas quem influencia o mercado local é o artista novo, assim como acontece em todos os ritmos. Então, o que a gente está vivendo aqui é uma necessidade de espaço para o artista novo. A rádio hoje não dá espaço para o artista novo, a não ser que ele tenha muito dinheiro e possa comprar um espaço numa rádio para divulgar o seu produto. Então, fica difícil...

CH: Qual o conselho que você deixa para os novos cantores da axé music?
WR:
Meu conselho para o artista novo - pelo menos foi
essa a fórmula que eu usei nos últimos 25 anos - é: não faça nada igual aos outros. Procure sua linguagem musical pra que você possa chegar ao mercado com um diferencial e que possa ser respeitado por esse diferencial. E para chegar ao mercado, é bom ele procurar vias alternativas de todas as formas: ou as rádios comunitárias, ou a pirataria ou um evento que possa estar sendo um sucesso. Sendo que, até fazer um evento de sucesso aqui em Salvador está dificílimo.




"Ninguém, nesse momento, tem possibilidade de chegar ao sucesso nacional"



CH: Em qual cantor da nova geração você aposta em um futuro brilhante?
WR:
Dos novíssimos que surgiram esse ano, a Maristela
Muller tem um grande potencial. Não porque eu estou trabalhando com ela, mas pela minha experiência, pelo que eu já acompanhei de mercado. Ela é uma pessoa que tem capacidade vocal, afinação, bom gosto musical e resistência ao palco, além de ter uma beleza física, uma plasticidade que dá à ela uma facilidade de chegar às grandes mídias. Gosto dessa menina da Kondendê, mas eu ainda não fiz uma análise mais profunda. Tem o menino da Via Circular, o da Bué da Fixe. Mas também, é preciso saber uma outra coisa nesse mercado: não é investimento, não é dinheiro que faz sucesso e nem cantar bem, é preciso ter um projeto musical, que é o que eu não estou vendo de novo no mercado. Essas pessoas que eu citei são pessoas que tem potencial, mas eu não conheço, em nenhum dos projetos lançados neste momento, um dierencial em que se possa dizer assim: "isso é novo". Por isso, ninguém, nesse momento, tem possibilidade de chegar ao sucesso nacional.

CH: Em quem você aposta que levará o Troféu Dodô e Osmar 2009 de cantor revelação?
WR:
Eu tô preocupado com essa coisa de troféu. Primeiro que os mecanismos de escolha desses troféus não são claros. Eu não sei quem é que indica, eu não sei quem é que escolhe... Eu sei quem escolhe em alguns momentos. Na verdade, eu já fiz parte da escolha do Troféu Dodô e Osmar, mas eu já tinha nas minhas mãos as pessoas indicadas. Agora, como é que se inscreveu para votar? Isso tem que ser mais divulgado para que o artista novo tenha a possibilidade de, pelo menos, se inscrever. Porque eu, por exemplo, que estou  há 25 anos no mercado de axé e há 33 anos no mercado de gravações, eu nunca indiquei ninguém.

CH: Mas então, digamos que, se você fosse indicar alguém hoje, quem você indicaria?
WR:
Eu indicaria Maristela Muller, que teve o seu trabalho testado e aprovado neste último verão. A menina da Kondendê também.

CH: Existe algum cantor de antigamente da axé music, que você acha que deveria voltar à ativa?
WR:
Olha, eu estou muito feliz com o retorno de Netinho. Só acho apenas que ele ainda está tentando resgatar um passado que, para mim, não é o caminho. Ele deveria estar procurando resgatar suas origens do axé, mas não sua origem rítmica, aquela linguagem inicial, principalmente com as danças, porque Netinho hoje é um homem mais maduro, com uma outra visão de vida. Eu acho que ele tinha que estar procurando um outro caminho.

CH: Só Netinho?
WR:
A Margareth Menezes também. Ela foi uma menina que saiu do mercado durante um tempo porque se dedicou mais a outras linguagens musicais e quando voltou ao mercado, voltou bem com "Maimbê", mas ela está voltando a se esquecer dessas origens e isso me preocupa. Ricardo Chaves tem que estar mais presente nos eventos, que é um artista que já provou sua qualidade.



Por Fernanda Figueiredo

 

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