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Marca Bahia Notícias Holofote

Entrevista

"Eu não enxergava que a música era para mim": Diggo abre o jogo sobre transição para os vocais

Por Ana Beatriz Soares

"Eu não enxergava que a música era para mim": Diggo abre o jogo sobre transição para os vocais
Foto: Igor Barreto / Bahia Notícias

De compositor de bastidores a uma das novas promessas do pagode baiano, Diggo, nome artístico de Rodrigo Martins, vive um momento de virada único em sua carreira. Após passar cinco anos investindo no pagotrap, o artista teve uma reviravolta com o sucesso do projeto “Pagodiggo”. Começando como um evento pequeno para apenas 250 pessoas, a empreitada cresceu de forma exponencial, em apenas um ano, levando um público de 2.500 pessoas na última edição. Agora, o artista se prepara para mais uma edição do projeto, que tem se provado frutífero, no dia 19 de dezembro, além de uma turnê internacional ainda este ano. 

 

CONFIRA A ENTREVISTA COMPLETA:

 

Diggo, que começou como compositor de músicas que se tornaram grandes hits nas vozes de outros artistas, passa por um momento de transição. Entre suas criações de sucesso estão músicas como "Contatinho", gravada por Léo Santana e Anitta, e "Dengo", hit de João Gomes que nasceu de maneira inusitada no banheiro em Petrolina, após um bloqueio de inspiração criativa. Ele também é o nome por trás do refrão de "Cachorrinhas", sucesso de Luísa Sonza que deu ao baiano o seu primeiro "Top 1" nas plataformas de áudio. Diggo, que antes estudava a linguagem dos outros artistas para escrever para eles, hoje já consegue separar o que cabe no seu próprio repertório. 

 

Mesmo estando na posição que ocupa hoje, Diggo admite que nunca se viu nesse lugar sob a luz dos holofotes. "Eu comecei compondo, mas eu sempre cantei [...] e antigamente eu não enxergava que a música era para mim. Sempre fazia música para as pessoas mesmo", revela o artista. Essa percepção mudou à medida que ele compreendeu sua própria identidade e aprendeu a decifrar o destino natural de suas criações: "Hoje em dia, até quando eu escrevo um samba, um pagode, eu já consigo falar: 'Hum, isso aqui acho que cabe para mim'". Para o cantor, o processo de composição é quase intuitivo e as faixas parecem escolher seus próprios intérpretes desde o primeiro acorde: "Acho que a música já vem... ela já tem um caminho, sabe? Você já consegue imaginar o lugar dela”. Vivenciando o reconhecimento de seu trabalho como intérprete, o cantor se prepara agora para novos passos internacionais, com show marcado em Luanda, na Angola, em outubro. 

 

Em entrevista exclusiva ao Bahia Notícias, Diggo fala sobre essa transição de carreira, novos projetos e relembra momentos inusitados e engraçados que passou compondo alguns dos seus maiores sucessos.

 

Eu queria começar pedindo para você se apresentar para quem ainda não te conhece, quem ainda não ouviu sua música.

Gente, eu sou Diggo. Cantor, compositor, agora mais cantor do que compositor. E eu passei esses tempos a cantar pagode, samba-pagode, né? A gente tem um ano de projeto e a gente começou a viralizar depois da música de “Hipnotiza” junto com o Léo Santana e alguns projetos também!

 

Já que você falou da música, eu queria começar falando de "Hipnotiza", que foi um grande hit nesse carnaval. Como surgiu essa parceria com Léo? E como vocês fizeram ela acontecer?

Na verdade, essa música eu canto desde 2018. Eu fazia parte de um grupo de samba daqui de Salvador. Essa música é de Nego Thor, de Kaleo [Europa] e de Heron Black. E, quando eu voltei para cantar pagode, eu lembrei dessa música. Eu falei: "Pô, queria regravar ‘Hiptoniza".

 

E aí falei com o Léo, falei: "Pô, Léo, tô com a música aqui, queria que você entrasse na música, gravasse comigo, porque acho que é sua vibe, acho que ia ficar legal nós dois. A energia da música”. E aí, Leo aceitou. A gente gravou lá no Bar do Leo, lá na Saúde. E aí foi incrível. O resultado está aí, né? O sucesso que a música fez. Graças a Deus e graças à minha equipe também.

 

 

Como foi compor hits como “Contatinho” e “Dengo” e como você separa uma música que vai para outra artista e uma música que é para você?

Eu, antigamente, não tinha isso, né? Porque eu comecei compondo, eu sempre cantei e, antigamente, eu não enxergava que a música era para mim. Sempre fazia música para as pessoas. Entendia o artista, para Leo mesmo, estudava o artista, estudava o que ele estava gostando no momento, o que ele curtia cantar, o que o povo estava precisando, o que o povo estava querendo ouvir, a linguagem que estava sendo falada.

 

E aí passou um tempo em que eu entendi o que eu gostava de cantar, como eu gostava de cantar. E é muito diferente, pô, é muito particular. Escrever para mim e escrever para outro artista. Para outro artista eu já sabia, para mim, eu aprendi depois.

 

 

E por que você achou que [cantar] não era para você?

Porque eu não me via como cantor. Ser compositor era meu trabalho de frente. Então, quando eu escrevia a música, eu já imaginava outro artista, não me imaginava cantando. Hoje em dia, quando eu escrevo um samba, um pagode, eu já consigo falar: "Hum, isso aqui acho que cabe para mim" ou “isso aqui não, cabe para Dilsinho, ou Sorriso Maroto, ou Ferrugem, ou Menos É Mais.

 

Quando você escreve a música, ela já tem um caminho. Você já consegue imaginar o lugar dela. Claro que há imprevistos. Na época de “Contatinho”, antes de mandar para Léo, eu tinha mandado para Márcio. Quem ia gravar era Psirico. Aí Márcio não conseguiu gravar, foi fazer outras coisas, aí quando eu mandei para Leo, eu não imaginava. Aí Leo gravou, sendo que, no começo, quando eu fiz a música, eu tinha feito para Anitta.

 

“Jurei não me apaixonar” é totalmente diferente do seu último projeto, Como foi para você sair desse estilo para entrar em um novo e como foi construir essa “persona”?

E essa música foi a única que eu não consegui botar no pagode, velho. Como eu te disse, eu canto há um tempo. Meu primeiro projeto em que eu cantei foi um que era samba. E já era diferente, que eu cantava MPB no samba. Eu saí dessa banda, fui para outra, já cantei pagodão, já fui para vários lugares. Entre 2017 e 2018, eu entrei em uma banda que se chamava “Demorou”, que era uma banda de samba daqui.

 

 

Eu comecei a gostar de cantar aquilo. Eu me sentia confortável em falar de amor, no palco também. E essa banda foi onde eu aprendi essas coisas de palco. Onde eu comecei a entender que eu me sentia bem sendo cantor. E, quando eu saí dessa banda, eu conheci Rafinha RSQ. Eu queria fazer um samba com trap, uma mistura. Nesse samba com trap, acabou que virou pagodão. E aí, pagodão com trap virou pagotrap. Tinha uma galera começando ali, eu lembro que Melly também estava começando na mesma época, Duquesa. Estava todo mundo na mesma vibe. E aí eu fiquei 5 anos nessa onda do pagotrap. Só que eu comecei a sentir falta de como era a minha entrega e a resposta do povo no samba, no samba-pagode. E aí eu tentei um último EP meu, que era “Verão Preto”, um EP com seis músicas, e eu falei assim: "Rapaz, isso aqui é minha última cartada no pagode trap. Vou tentar isso aqui. Se não der certo, eu vou segurar, vou parar de cantar”. Aí fiz o EP, gastei um dinheiro e não deu certo.

 

Eu falei: "Rapaz, eu vou segurar, eu vou ficar só compondo mesmo, vou cantar esporadicamente”. E aí muita gente me pedia para eu cantar o samba, falavam: "Rapaz, mas grava um negócio da época do ‘Demorou’, grava um samba, grava um pagode, volte a cantar isso”. Aí falei: "Rapaz, vou fazer um projeto só para minha realização pessoal". E aí chamei os meninos para fazer, chamei Mateus, que hoje é meu sócio, falei: "Mateus, eu quero fazer um evento só para eu gravar, e o nome vai ser ‘Pagodiggo’". E aí a gente fez o “Pagodiggo” no Clube do Samba, lá no Pelourinho, para 250 pessoas. Isso tem um ano. Foi em 7 de julho.

 

E lembro que eu falei assim: "É, eu não vou pegar nenhum ingresso não, como são 250 pessoas, é pequeno, vamos convidar a galera e beleza, porque vai ser segunda-feira, acho que ninguém vai comprar”. Só que ele quis abrir as vendas, vendeu 80 ingressos num dia só. Aí eu falei: "Tem alguma coisa aí!"

 

E aí que se tornou o “Pagodiggo”, que hoje a gente acabou de fazer o “Pagodiggo” na Casa Pia para 2500 pessoas. A gente vai para Candyall agora, o próximo, no dia 19 de dezembro, que é para 3.500. Então, a gente tá crescendo, vivendo o processo, sabe? Crescendo devagarinho, mas muito surpreso também. Em um ano só, a gente tá galgando e chegando em vários lugares que nem imaginava.

 

Aqui na Bahia, você pensa em pagodão, axé, e você canta pagode, canta samba. Como você se sente sendo um dos maiores expoentes do ritmo dentro do estado?

Ave Maria, eu fico lisonjeado. Mas sabendo que tem Noelson do Cavaco também, que já saiu de Salvador há muito tempo, que a galera curte muito ele lá no Rio de Janeiro e São Paulo. Mas eu fico muito feliz de verdade. Eu não consigo levar nesse caminho, porque eu acho que é uma responsabilidade grande.

 

Mas é um caminho que você pretende continuar? Por exemplo, o “Pagodiggo”. Você vai continuar por muitos anos ou você acha que é um projeto que terá um fim?

Não tem. A gente vai, nesse ano que vem, começar a sair para outras cidades. Levar o “Pagodiggo”, o evento, não só o artista. Então, eu quero “Pagodiggo” para sempre. Que chegue a lugares incríveis que eu nem imagino. A gente planeja, mas tem coisas que acontecem, que nem passam pela nossa cabeça.

 

 

Você lançou recentemente o seu audiovisual, o “Diggo: a Cara do Brasil”. Como foi a concepção desse projeto?

Na verdade, a ideia foi de Matheus, meu sócio. Ele falou: "Vamos fazer um pagode do Hexa". Eu falei: "Vamos, mano". Ele falou: “Vamos botar várias coisas que são a cara do Brasil”. Eu falei: "Rapaz, e se o nome do audiovisual fosse ‘A cara do Brasil’?". Que a gente saísse desse negócio da Copa. Mas só que botou camisa do Brasil, já foi. O povo não quer nem olhar para não lembrar, né? Mas foi massa, deu foi uma resposta incrível para a gente também. A gente regravou, hipnotizou.

 

As músicas crescem até hoje, com mais de 100.000 vídeos no TikTok. Então esse projeto foi muito importante também para a gente contar a história. Saindo dali do Pelourinho e chegando nesse momento que é da minha carreira.

 

 

Falando em momentos especiais da sua carreira. Esse ano tem sido muito especial para você, em vários aspectos, e um deles foi conseguir submeter o seu trabalho no Grammy Latino. E, quando você compartilhou com os fãs, você disse que só de ser considerado já é uma grande vitória. Eu queria saber como isso realmente chega para você.

É inimaginável, eu nunca imaginei isso aí. O Grammy. Nunca imaginei chegar naquele lugar. O Grammy é uma onda mais conceitual. Então, se eu chegar com o pagode, sei lá, não tem nem palavras para mim, real. Loucura. Doideira.

 

Você faz parte dessa nova geração de artistas que vem surgindo aqui, principalmente na Bahia. A Bahia sempre foi um polo cultural. A gente citou aqui, Melly, tem vários artistas que têm surgido aí. E como você avalia essa nova safra de artistas e em que você acha que essa geração talvez se diferencie das outras, das anteriores?

E eu acho que essa geração tem algo mais independente. Eu acho que todos os artistas que saíram daqui, essa safra que você está falando, todos foram independentes, todos sabiam o que estavam fazendo, todos sabiam o caminho que eles queriam. Todos, acredito eu, são sócios da própria carreira.

 

Então, eles estão lúcidos com a carreira. E acho que o que muda é que, antigamente, o artista não tinha muita força com a sua própria carreira. Acho que autonomia, perdão. Ele não tinha muita autonomia da carreira dele. Acho que os empresários acabaram deixando a música baiana nesse lugar. Tomando muito aquele espaço deles. Acho que os artistas hoje estão mais independentes.

 

Falando um pouquinho sobre a parte da composição, eu queria saber algumas coisinhas de você. Primeiro, qual foi a composição que você fez mais rápido?

Rápida. Pai, não lembro. Acho que “Contatinho” foi rápido. “Baile do VJ” eu fiz, acho que em 10 minutos. Porque tem música que flui, né? Que chega, vai rápido, depois a gente produz, óbvio. Demora mais um pouquinho para mandar para o artista.

 

 

E acontece muito com você isso? Chega rápido e você só escreve e vai.

Na verdade, depende dos parceiros também. Mas estava falando de “Baile do VJ” que é uma música recente e está viralizando com o Eduardinho dos teclados. essa música foi rápida mesmo, essa música foi uns 10 minutos.

 

E qual que é que você, né, ao contrário da mais rápida, qual que foi a que você mais demorou para concluir? Você consegue pensar em alguma?

Meu Deus, não consigo lembrar.

 

E “Dengo” de João Gomes?

Não, “Dengo” não demorou, não. “Dengo”, eu tive a ideia no banheiro. Eu não conhecia João, aí fui para Petrolina e aí fui compor com um sócio dele, com o Dan Mendes. Eu falei: "Preciso fazer alguma coisa muito incrível para esse artista".

 

Fiquei forçando, forçando. Cheguei no banheiro, comecei a tomar banho, aí veio. Nem veio o “dengo”, veio: "Estou precisando de amor, dá para ver. Não estou nem aí para rolê, não estou nem aí para rolê, só estou querendo você." Aí, no meio da história, a gente mudou. [Falamos]: “Não, vamos botar um negócio diferente, um dengo, um negócio, xodó”, e aí veio dengo.

 

 

E qual foi uma música que te surpreendeu pelo alcance, que chegou em lugares que você não imaginou que poderia chegar?

Rapaz. “Cachorrinhas”. Porque me chamaram para compor essa. A música já estava pronta, eu estava no camp dela, e aí eu estava passando, indo embora. A galera falou: "Tá faltando terminar o refrão aqui, vamos fazer". Eu falei: "Vamos nessa". E aí, na hora, ela pirou na música, mas eu não imaginava o alcance. Acho que foi minha primeira música que foi top 1. “Dengo” não foi top 1.

 

Era uma coisa muito particular dela. A gente fala das cadelas dela. A vibe é pop, muito pop. Quando a gente terminou, eu falei: "É uma vibe de filme”. E foi isso, a música de artista pop, a música é muito visual.

 

 

E falando aqui sobre uma que não foi tão conhecida, mas que você acha que deveria ter sido mais.

Ah, eu tenho várias. Tem umas músicas com “Filhos de Jorge”. Tem uma música chamada “Do Nada”, queria que essa música estourasse assim, meu Deus do céu. Eu tenho uma de “Filhos de Jorge” também que é “Xuxu”. “Coração no Direct” foi a música que João gravou, mas não rolou, não era a vibe dele. A música é bem safadinha; acho que a vibe dele é mais de família assim. Comigo, eu acho que vai funcionar. Tem mais a vibe.

 

 

 

 

Para fechar aqui, o que os fãs podem esperar de novidade nesses próximos meses? Tem algum feat? Vai ter uma turnê internacional, não é?

Na verdade, a gente toca lá em Luanda em outubro. Eu estou muito ansioso para ir, tá perto. Para voltar às minhas origens! Eu tô ansioso para saber como é, como vai ser, como a galera vai receber a gente. Mas eu vou gravar um DVD. Contando, na verdade, uma história desde o começo.

 

De como foi o meu começo até o momento em que a gente está agora. Em um lugar muito importante de Salvador. É isso, eu não vou falar muito! Eu vou trazer várias participações que conectam com essa história, com o momento, com tudo.