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Entrevista

A "Nova Bahia" de Sofia Pitta: Promessa do pop baiano aposta em personalidade e na mistura de ritmos para deixar sua marca

Por Ana Beatriz Soares

A "Nova Bahia" de Sofia Pitta: Promessa do pop baiano aposta em personalidade e na mistura de ritmos para deixar sua marca
Foto: Igor Barreto / Bahia Notícias

A nova promessa do pop baiano tem nome e sobrenome: Sofia Pitta. A artista, que lançará seu álbum de estreia ainda esse ano, passa por um momento de amadurecimento musical e artístico e se estabelece com o seu próximo lançamento, previsto para esse mês. Mesmo com poucas canções lançadas, a artista já apresenta estilo e sonoridades próprias, com referências bem claras, entre elas Marina Sena e Maria Bethânia. 

 

Com raízes profundas na MPB e na Tropicália, Sofia cresceu ouvindo os clássicos sob influência do pai, mas viu sua sonoridade se expandir naturalmente para o samba e o forró ao começar a compor. Essa transição para o pop baiano ganhou força durante a construção do seu primeiro EP, "Molho", que a levou a explorar beats modernos e até a estrear nos trios elétricos do Carnaval de Salvador com o Bailinho de Quinta, uma experiência que, apesar de inesperada, transformou sua visão sobre a própria potência no palco.

 

Para o seu aguardado álbum de estreia, produzido por Pedro Breeder, a cantora traz nove faixas e interlúdios que se conectam intuitivamente através do elemento da água. O projeto promete consolidar o que ela define como uma sonoridade "Nova Bahia total", misturando o groove solar de "Bagunçar" com uma estética maximalista e retrô que utiliza como forma de contracultura. Tudo isso é construído na base da "cara e da coragem", enquanto Sofia concilia a rotina de artista independente com a conclusão da sua faculdade de Psicologia.

 

Em entrevista para o Bahia Notícias, a artista fala sobre suas origens, suas influências e principalmente sobre os caminhos que trilhará a partir de agora, além de suas expectativas para seu álbum de estreia.

 

 

 

Eu quero começar falando sobre as suas referências. De onde você vem, o que você ouvia... O seu pai é artista, né? Você teve essa influência. De onde vem essa sonoridade que você faz hoje? De onde veio o seu gosto pela música?

O meu gosto pela música veio muito do meu pai, porque ele cantava muito e tocava violão desde que eu nasci. Mas a minha família sempre consumiu muito, então eu tinha a parte da família que gostava muito de forró, tinha a parte que era mais eclética, que consumia pop, sertanejo, absolutamente tudo, muita música internacional também. Eu diria que minha referência vem da MPB, dentro de casa, com meu pai, com minha avó, eu sempre escutei muito MPB. As coisas clássicas mesmo: Chico Buarque, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Djavan. Minhas referências são dessa galera da Tropicália, são as pessoas que eu mais escutei. Eu também fui me apaixonando por Clara Nunes, por Elza Soares, mas eu sempre escutei muito a galera da antiga. Eu gosto muito.

 

Tem umas músicas suas que são mais para o forró, outras que são mais para o MPB. Você tem algumas músicas já lançadas, tem o EP “Molho”. E, desde a primeira música até os últimos lançamentos, a gente percebe uma evolução enquanto artista. Como foi esse processo para você? Você sente isso? E o que a gente pode aguardar também dos seus próximos passos?

Como eu disse, minhas raízes são muito de MPB. Antes eu não achava que eu seria cantora, mas, a partir do momento em que eu vi que eu seria, que eu tentaria ser, e decidi seguir isso… Eu achava que eu só cantaria MPB, “MPBzada”, dessas antigas que eu tô falando. Só que, quando eu comecei a compor, eu só conseguia compor samba, forró, pagode, e eu achei extremamente estranho, porque achava que eu ia fazer só MPB, no máximo Bossa Nova. E, compondo, naturalmente, vinham esses ritmos da Bahia, e era difícil compor outra coisa. A primeira música que eu lancei foi “Baiana Baianinha”, que era um sambinha, tinha uma coisa de Bossa Nova, mas virava um samba, e eu tive que estudar como eu ia cantar, porque eu não tinha nem costume de cantar samba. Então eu tive que entender e estudar tudo para gravar essa música.

 

Um pouco antes de lançar “Baiana Baianinha”, eu conheci Rafinha, RSQ. Ele propôs que eu pensasse em algo que eu pudesse fazer que fosse mais pop, e para mim foi a pergunta mais estranha do mundo, porque eu não pensava nisso, não pensava que eu seria uma artista pop, porque era um gênero que eu consumia muito quando eu era mais nova, mas depois que eu me tornei adolescente, eu parei um pouco de consumir. Eu ouvia tudo: rock, forró, rap, MPB, internacional, tudo, mas o pop mesmo eu não consumia muito. Ele me veio com essa provocação porque a gente estava com a ideia de fazer o EP “Molho”. Eu fiquei pensando, pensando, pensando... Eu comecei a perceber que eu tinha muitas coisas do pop e eu não pensava nisso, não considerava. E nisso, a gente compôs juntos e foi produzindo o EP, entendendo um pouco esse lugar do pop. Tanto que é um EP bem baiano, mas é bem pop também, tem diversos ritmos, tem muito beat, tem uma estética bem específica.

 

 

De “Bainana Baianinha” para “Molho” tem uma diferença absurda de um lançamento para o outro, porque fui entendendo que não era só Bossa Nova, tinha outras coisas que eu também gostava e eu realmente não pensava nisso. Tanto que eu cantei no Carnaval pela primeira vez, no Trio Elétrico do Bailinho de Quinta. Eu não achava que ia me identificar com o Carnaval de jeito nenhum; achava que meu rolê era apenas voz, violão e barzinho, algo assim. E, quando eu cantei no Carnaval pela primeira vez, eu amei. Foi um mundo tão diferente, mas eu ficava: "Eu quero carregar o trio, eu quero agitar, eu quero fazer", e eu não esperava que eu fosse gostar tanto. Então a música foi me pegando muito de surpresa. Eu achava que iria para um lugar e naturalmente foi indo para outro.

 

 

Aí eu lancei o forró. Que é muito referência para mim dentro da minha família. A gente sempre pulou muito São João no interior, então sempre escutei muito forró, da parte de Luiz Gonzaga, esse tipo de forró. E aí, eu fui também dentro desse tempo tentando entender como essa minha raiz da MPB ficaria, como se encaixaria também dentro dessa estética pop, que, por exemplo, dentro do EP “Molho”, tem músicas que não têm a ver com MPB. Por exemplo, “Balança”, uma música pop, não tem a ver com MPB. Mas “Cor de Mel” tem. Mas eu fui começando a tentar entender, né? E aí eu fui para o Rio. Eu tinha lançado "Soltinha", que foi pop também, aquela coisa, roupa de cigana, tudo vermelho, unhas de fogo, aquela coisa assim bem puxando, sabe? Já para uma referência de Shakira, uma coisa mais assim?

 

 

Eu fui conhecer Pedro Breeder, que é um produtor muito bom lá do Rio, e aí fizemos “Bagunçar”. "Bagunçar" já entra um pouco nesse universo de entender onde é que a gente vai pisar. Tem pagodão? tem. É pop? É, mas é MPB. Tem outras coisas, é Brasil. Tô na construção do meu primeiro disco com Pedro Breeder, inclusive. A gente não tinha esse plano, mas acho que “Bagunçar” foi o pontapé para entender esse caminho.

 

 

Você falou muito sobre estética. É uma questão muito importante como você se posiciona, o que você usa e tudo mais. Eu sinto que você consegue expressar, talvez, na forma como você se veste, o que você está querendo dizer na música. Então eu queria entender um pouquinho mais sobre isso, como que é a estética para você?

Eu estou num processo de descobrir. Minha carreira tem muito pouco tempo, na verdade. Eu comecei a lançar no final de 2024. Eu acho que me pega muito o fato de as tendências serem muito minimalistas hoje em dia. Tem toda uma questão política de as roupas serem sempre cores neutras, as casas serem todas com cores neutras, as arquiteturas da cidade serem neutras... tudo ser extremamente moderno, extremamente certinho, e eu acho que existe um movimento hoje também de contracultura, de querer resgatar essa coisa do vintage, do retrô. Pensar nessa cultura latina, que é extremamente rica. Foi uma coisa que aconteceu muito naturalmente, tanto que essa coisa do colorido é uma coisa que eu venho assumindo mais a cada tempo que passa.

 

Eu gosto que o meu trabalho respire uma coisa de diversão, uma coisa solar. Eu gosto inclusive de estar associada a uma coisa divertida para também falar de coisas que não são divertidas. Porque não sei, eu não gosto de que seja uma coisa só. Vou falar muito sobre coisas complicadas ao longo da minha vida, e eu não quero que seja só isso, nem que a vida seja só isso, sabe? Até porque a gente é diversa, né? A gente pode falar sobre muitas coisas diferentes.

 

Você impulsiona muito sua carreira por meio das redes sociais. E eu queria saber como isso acontece para você. Você tem uma estratégia ou você só vai postando? Como é sua relação com as redes sociais? Pensando nesse lado mais artístico?

A maior parte é aleatória porque eu não tenho tempo nenhum para planejar. Eu tenho a vida muito corrida porque estou me formando em Psicologia, eu faço estágio. Então eu tenho uma vida muito atribulada. Eu não consigo. Eu até gostaria de ter mais tempo para planejar as redes sociais, mas hoje eu não tenho e eu faço sozinha. No geral, minhas redes sociais eu cuido tudo só. Então vai muito aleatório, mas eu não sei, eu sou muito antenada desde nova.

 

Eu já sou de uma geração que vem das redes sociais também, o que facilita. Quando eu tinha 13 anos de idade, eu era blogueira, naquela época em que começavam as blogueiras no Brasil. Eu fui blogueirinha ali com 13 anos, aí eu parei, saí das redes. Durou ali um ano de blogueiragem, mas eu já venho nisso. Quando eu era criança, tinha um aplicativo na época que era VideoStar. Era meu hobby de criança ficar ali editando vídeos no VideoStar, sabe? Eu vim muito desse universo de gostar de audiovisual que a gente mesmo produz. Então, é uma coisa que acontece de forma muito espontânea, no geral. Às vezes o engajamento melhora, às vezes não tanto, porque é uma coisa realmente fluida assim. A gente vai testando; se uma coisa dá certo, a gente repete. Às vezes dá, às vezes não dá.

 

Você é uma artista independente. Como é essa estrada de um artista independente hoje em Salvador, que, mesmo sendo um polo cultural, a gente sabe que não é um lugar que recebe tanto investimento como outras cidades?

Sempre que me perguntam isso, eu falo que eu não me considero exatamente um parâmetro, porque eu acho que eu tive muita sorte. Eu comecei no final de 2024, vai fazer dois anos ainda. Eu não vinha de uma família que tinha contato, não tinha nenhum dinheiro para investir. Então, eu vim assim do nada, não tinha nenhum conhecimento sobre como entrar no mercado. Mas eu tive muita sorte porque eu já tinha destaque nas redes sociais, já produzia conteúdo, já falava sobre música. As pessoas, muitas pessoas muito interessantes, foram se aproximando de mim, e eu tive acesso a produtores muito bons, eu tive acesso a pessoas muito legais e eu fui fazendo amizades. Contato é muito importante.

 

Mas, ainda assim, claramente a cena não tem muito investimento. Eu faço muita coisa na cara e na coragem. O “Swing e Maresia” é um show que eu faço na casa, é um show independente, não tem patrocínio, não tem investidor. A gente abre, vende os ingressos, bota gente dentro da casa, contrata a banda, paga tudo e faz o show. Não tem ninguém investindo e dando alguma coisa. É muito na cara e na coragem, mas eu acho que eu tive muita sorte de conhecer pessoas que foram me ajudando, uma mão lavando a outra. Fui fazendo amizade nesse meio, mas não é um meio que incentiva.

 

Eu queria falar um pouquinho mais especificamente sobre o álbum. Tem data de lançamento? Ele já está completo? Como está esse processo?

Não tenho certeza ainda sobre a data, mas tenho certeza de que vai sair em agosto. Falta pouco, agosto é praticamente amanhã. Antes ia lançar em maio, então a gente adiou o lançamento e me deu muito mais tranquilidade, e dessa vez, pela primeira vez, eu tô com um pouco mais de equipe. Então, eu me sinto bem menos sobrecarregada, porque antes eu fazia tudo sozinha, principalmente audiovisual. Pensava em tudo, fazia direção criativa de clipe, sem nenhuma experiência em direção criativa, sem nem saber o que era direção criativa. Fazia styling, sem ter a mínima noção, mas você vê que, a partir daí, eu tive que desenvolver alguma coisa por conta própria. Mas eu tô mais tranquila porque agora tem pessoas me ajudando, tem um pouco mais de gente. E eu tô super animada. A gente está nesse processo de construção. A gente já sabe quais são as músicas, já está encaminhado, só que a gente está terminando ainda.

 

Esse álbum seria talvez o ponto de partida? O primeiro momento em que você fala: É isso que eu quero fazer, é isso que eu quero que seja minha carreira, é esse estilo que eu quero seguir...?

Sim, eu acho. Nesse sentido, quando a gente pensa no álbum, tem uma responsabilidade bem diferente de você entregar um projeto que conte uma história. Muito diferente dos singles. Como é o meu primeiro álbum, eu vejo muito esse impacto de algo maior, de ter uma narrativa, sabe? De que faça algum sentido, que as faixas se conectem, porque eu tenho várias composições.

 

Foi escolhido. O que está ali foi escolhido para estar ali porque fazia sentido dentro daquilo ali, que, na minha cabeça, intuitivamente, o que fazia sentido era que todas tinham a ver com água, mesmo que ninguém concorde, mas para mim todas têm a ver com água. E eu acho que conta uma história, tem uma narrativa. Acho que quem escutar vai entender quem eu sou artisticamente a partir dali também. Esse álbum conta uma história, a minha história. São coisas muito pessoais, porque, quando eu estava no Rio, escolhendo quais seriam as músicas, eu saí aos prantos. Foi o meu choque de "meu Deus, eu não acredito que eu vou expor coisas tão pessoais assim".

 

E falando um pouco mais sobre a produção no geral, você compõe as músicas que você lança? Você participa também um pouco mais da produção ou fica mais nessa parte da composição?

Todas as músicas que eu lancei, eu estou na composição. Eu participo dessa composição, faço muita questão. Não tenho absolutamente nada contra gravar músicas de outros compositores, mas eu gosto muito de contar essa história com as minhas palavras. Eu acho que tem um peso muito específico e acaba sendo muito especial. Acho que todo compositor tem um pouco esse sonho, né, de cantar sua música. Porque tem algo de muito pessoal ali, tem uma palavra que você usa por alguma razão, enfim. É uma forma de contar as coisas.

 

Eu participo muito dessa composição; já na produção, eu sou bem tranquila de trabalhar. No geral, eu gosto dos produtores com quem eu trabalho e eu gosto do que eles fazem. E aí eu faço alterações poucas ali. Geralmente eu não sei explicar a minha ideia, então eu fico falando: "E se essa batida tivesse mais a ver com o mar?", aí a pessoa que se vire para entender o que eu quero dizer. Como é o álbum, acho que eu até fico um pouco mais chata, porque faço mais questão de que tenha muito a ver comigo.

 

Sobre esse processo do álbum, você sente que tem aprendido muito? Você tem se conhecido mais nesse processo?

Filha, pelo amor de Deus! Sério. Muito, muito, muito, muito mesmo! Esse álbum está sendo uma jornada. Eu tenho a impressão de que todo lançamento que eu faço é uma jornada. Coincidentemente ou não, todo lançamento cria uma atmosfera que eu começo a viver aquilo ali intensamente. A vibe da música se torna a vibe da minha vida por um tempo, e eu acabo aprendendo muito dentro daquilo. E o álbum está sendo isso de uma forma estratosférica. É um álbum muito sentimental, com muita simbologia, com muitas reflexões. É um álbum que fala muito sobre amor. Então, Ave Maria. Está sendo incrível. É o que descreve: Ave Maria. Com certeza eu tenho aprendido muito com o álbum.