Robyssão investe em carreira acadêmica por acreditar 'que a música tem prazo de validade'
Foto: Priscila Melo / Bahia Notícias

Robyssão é conhecido pelas suas músicas que ecoam pelos guetos de Salvador, mas é uma pessoa como qualquer outra que busca realizar os seus sonhos na medida do possível. Carioca de nascença, soteropolitano de alma e de ritmo, construiu seu espaço ao inventar o pagofunk, uma mistura que busca integrar o que hoje se configura como suas duas grandes raízes.

 

Pé no chão, apesar de exibir um visual ostentação, o pagofunkeiro, se assim pode se dizer, crava que “todo mundo sabe que a música tem um prazo de validade”. Por isso, o artista acredita que quando a música deixar de ser o melhor plano para seguir a vida, será necessário se reinventar. Acreditando que o sucesso pode ser passageiro, Robyssão já encaminha sua carreira acadêmica com o curso de Administração de Empresas para, no futuro, se tornar um grande empresário.

 

Integrante de um segmento com grande presença no Carnaval, o artista afirma que o “pagode está ganhando espaço muito grande no mercado e está se destacando muito mais que outros gêneros”. No entanto, lamenta que “o pagode precisa, na verdade, de mais reconhecimento por parte dos empresários”.

 

Figura que também marcou a política, por já ter se candidatado a vereador, o pagofunkeiro aproveitou a entrevista concedida ao Bahia Notícias para comentar sobre a atuação parlamentar de Igor Kannário, hoje deputado federal. Robyssão não nega que pretende nos próximos anos tentar novamente um cargo público. Ao mesmo tempo, integra há 10 anos um projeto social: “As pessoas reclamam da vida, mas quando você vê que existe sofrimento maior que o seu, você vai ver que realmente tem que agradecer a Deus e não reclamar”.

 

Você veio do Rio de Janeiro para a Bahia com 10 anos de idade. Em quais circunstâncias ocorreu essa mudança?
Meus pais vieram aqui a trabalho. Meu pai sempre trabalhou na área de reforma de carros e ele veio e montou a sua própria oficina aqui.

 

Você pretende retornar um dia para o Rio de Janeiro ou Salvador é o seu lugar no mundo?
Sou apaixonado pela cidade de Salvador. Só que eu pretendo um dia morar ou em São Paulo ou em Fort Lauderdale, que eu tenho casa lá na Flórida (EUA). Meu sonho na verdade é morar lá, no futuro, em Fort Lauderdale.

 

O que te motiva a seguir para os Estados Unidos?
Eu tenho um sonho de morar lá muito antigo. E na oportunidade que eu tive, eu comprei um imóvel lá, que é muito mais barato que no Brasil, e eu sou apaixonado pelo país. Quando tiver uma oportunidade, mais para frente, eu pretendo morar lá.

 

De que forma surgiu essa sua vontade de fazer música?
Eu me inspirei muito em meu avô. Ele tocava violão e cantava nas noites. Me inspirava também em outros artistas como Xexéu, Emílio Santiago, Tim Maia, que eu sou apaixonado até hoje, muito fã. E aí a música veio paulatinamente crescendo em mim, aquele desejo de entrar na música, cantar… Até que eu, quando atingi certa idade, estava mais maduro para entender que realmente aquele era o caminho que deveria seguir. Eu vi que eu não conseguia mais fugir da música e me joguei de corpo e alma.

 

E por que você quis se dedicar ao pagode?
Eu queria ser cantor de funk por causa de Tim Maia, porque foi Tim Maia que trouxe o funk para o Brasil. Na época tinha aqueles bailes no Rio de Janeiro, o Furacão 2000. Eu era apaixonado pelo funk, Mc Marcinho e diversos outros cantores que já faziam sucesso no funk carioca. Aí quando eu cresci aqui em Salvador, eu escutava o funk de lá. Só que eu também gostava muito da música baiana e iniciei cantando samba-reggae, que também era muito apaixonado. Do samba-reggae, eu queria ir para o funk, mas o funk não estava bem no mercado fonográfico da Bahia, do Nordeste. Foi quando eu me inseri no pagode e fui misturando aos poucos o funk. Criei o meu próprio ritmo, o meu próprio gênero, o pagofunk.

 

Em uma entrevista anterior que você concedeu ao Bahia Notícias, você disse que se inspirava em Arthur Schopenhauer, mas recentemente você contou que era uma brincadeira. Então, você tem inspirações locais?
Tem, eu falei Xexéu, mas tem Caetano Veloso, tem Pierre Onassis, Luiz Caldas, Jau, Tatau, eu sou muito fã. Nesses artistas que eu me inspirei aqui em Salvador.

 

A faculdade de Direito, que era um sonho, ainda está nas seus planos futuros?
São muito sonhos. Eu desisti do curso de Direito. Eu comecei a fazer Administração de Empresas. Todo mundo sabe que a música tem um prazo de validade. Principalmente a música nos dias de hoje, que é tão descartável. Tem artista que leva 10 anos, 5 anos fazendo sucesso, mas tem um prazo. Dificilmente você vai ver um artista que fez sucesso em 1995 e está fazendo sucesso hoje, já sumiu da mídia. E alguns desses artistas nunca tiveram um plano B, eles imaginavam que iam viver o resto da vida na música. Como não têm um plano B, estão vendo que a música não está mais em evidência e a carreira não está bem, e em seguida vem problemas financeiros, dívidas, preocupações, velhice… O cara mistura frustrações com a idade chegando… Eu penso diferente, penso no futuro em ser um empresário e comecei a fazer o curso de Administração. Mesmo se eu fosse bacharel em Direito e tirasse a carteira da Ordem [dos Advogados do Brasil], eu não ia advogar nunca em minha vida. Era só um sonho mesmo. Ainda tenho, mas não tenho tempo de realizar todos os sonhos.

 

E como está curso de Administração?
Estou iniciando. Eu fui até o quinto ano de Direito, parei e estou iniciando Administração de Empresas, porque eu pretendo no futuro ser um grande empresário. No dia que a música não der mais para mim, vou seguir outro caminho.



 

Em suas redes sociais, você registrou um momento em que estava na pipoca do DJ Alok. Para você, como artista, qual é a sensação de estar no meio dos foliões ao invés de estar cantando em cima do trio?
É emocionante. A sensação de seguir o trio de Alok é indescritível. É algo atípico na Bahia, você vê mais música baiana no Carnaval de Salvador, você vê Axé Music, pagode, arrocha… E música eletrônica não faz parte das festas baianas, principalmente uma festa popular como o Carnaval. Eu me senti realizado, porque eu sou apaixonado por música eletrônica, David Guetta, Afrojack… Eu curti muitos show de Afrojack em Las Vegas, na Flórida, enfim. Eu também gosto do som de Alok e nessa brincadeira no Carnaval me empolguei, me joguei.

 

Nos comentários da postagem tinham muitos seguidores te chamando de maluco...
É algo novo, a música eletrônica no Carnaval da Bahia e tudo que é novo as pessoas se assustam. Aí vai chegando aos poucos e as pessoas vão se adaptando e gostando. Lá na frente, no futuro, as pessoas vão enaltecer. As pessoas estão acostumadas com Bell Marques, Harmonia do Samba… E quando vêem que a música eletrônica está chegando no Carnaval de Salvador, não só Alok, algumas pessoas criticam, mas depois vão ver que isso só vai agregar ao Carnaval de Salvador.

 

Ainda falando sobre esse estilo, o que você pensa do grupo Àttooxxá, que faz essa mistura do pagode com uma pegada eletrônica?
Sensacional! O grupo é muito bom! Porque é diferente e eu gosto de tudo que é diferente. Por exemplo, quando eu quis participar do pagode já estavam fazendo sucesso o Harmonia do Samba, Psirico, Parangolé com Bambam na época, Fantasmão... Quando observei que tinha esses grupos e cada grupo tinha a sua identidade, eu queria criar a minha identidade, trazer algo inovador para o mercado. Foi quando eu trouxe o pagofunk. De lá para cá, desde a minha criação do pagofunk, não criaram mais nada, estagnou no pagofunk. Então o Àttooxxá é algo inovador para o mercado fonográfico e tudo que é inovador e criativo eu aprovo.

 

Não é de hoje que no Carnaval baiano o pagode tem ganhado cada vez mais espaço e nesses últimos anos, em relação ao axé, os cantores do pagode têm vencido os principais prêmios de música do Carnaval. Você acredita que a festa baiana está ganhando um novo protagonismo?
Isso é fato. E por falar em premiação e música do Carnaval, a música do Parangolé mereceu ganhar realmente. É uma música muito bacana, muito boa. Estava faltando isso no mercado, música com coreografia, com danças. Agora, há muito tempo, isso não é de agora, não é novo, todo mundo percebeu que o pagode está ganhando espaço muito grande no mercado e está se destacando muito mais que outros gêneros. O pagode precisa, na verdade, de mais reconhecimento por parte dos empresários. Eles precisam reconhecer que o pagode é o ritmo do momento e eles [grupos de pagode] precisam desfilar em um horário mais nobre. Porque infelizmente, um ou outro pagode está saindo com um horário bom, porque a maioria dos artistas que saem em horário bacana são os artistas renomados do Axé Music.

 

Ao comentar sobre a banda La Furia, tempos atrás, você disse que eles precisavam ter menos apelo sexual na letra. E hoje o grupo se vê envolvido em polêmicas como a música de Fábio Assunção e recentemente com a música em referência a Bettina. Quais a sua opinião em relação a estas composições que tratam diretamente de pessoas específicas?
Eu quero destacar que eu tenho um respeito profundo por todos os artista e por todas as bandas. Eu gosto da banda La Furia, mas vale salientar que com a música “Fábio Assunção” eu não estou muito de acordo. Apesar de a música não ser dele e sim de Gabriel Bartz. Não concordo muito, porque acho que um cara que zomba de um dependente químico é o mesmo que zomba de um cadeirante, zomba de um portador de síndrome de Down. Eu não enxergo um dependente químico como um cara que tem prazer em usar drogas, eu enxergo como uma patologia, que precisa de pessoas especialistas da área da saúde para poder curá-lo. É uma questão de saúde. Mas as outras músicas da banda eu acho muito bacana, muito legal.

 

Você tinha começado a escrever um livro. Em que pé está essa criação?
Eu parei, porque priorizei outros projetos. Tinha entrado na política e priorizei gravar um DVD e outros projetos meus e não tive tempo para concluir o livro. Era apenas um desejo de publicar um livro.

 

Qual seria o conteúdo dessa obra?
A obra falava sobre o poder da persuasão que a mídia tem sobre as pessoas. A mídia tem o poder de mudar o comportamento das pessoas e fazer o povo não questionar e não pensar. E muito inspirado no livro de George Orwell “1984”. Me inspirei nesse livro, mas não deu tempo de fazer, são tantos projetos…

 

Quando você pensou em seguir a carreira política, se candidatando ao cargo de vereador em 2016, o que te motivou a se expor neste meio?
Eu sempre fui militante político. Eu achei o momento pertinente para entrar na política de forma direta como candidato. Só que eu não tive apoio financeiro para investir em minha campanha e por isso eu não consegui ir até o final. O partido não pôde me ajudar.

 

Ainda pretende se candidatar novamente?
Quem sabe no futuro? Estou muito novo e tenho muito tempo pela frente ainda. A gente vai amadurecendo e adquirindo mais conhecimento acerca da política e isso é importante para, quando chegar, chegar extremamente preparado e não chegar sem saber de nada.

 

O que você pensa da atuação de Igor Kannário, que agora é deputado federal?
O Kannário surpreendeu muito e a todos. As pessoas desacreditaram dele e ele mostrou a que veio. Ele tem três projetos aprovados como vereador e agora como deputado federal eu acredito que vai ter êxito, porque está focado na favela, está focado nas pessoas desprovidas de recurso, de estudo, de tudo. Está focado nesse povo e o povo que elegeu ele - inclusive eu votei nele para deputado federal. Ele tem bons projetos, ideias boas, conversei com ele. Está cercado de pessoas inteligente e estão dando uma assessoria bacana a ele, isso é importante.

 

 

Você sofre de algum estereótipo como cantor de pagode?
As pessoas rotulam muito. Hoje parece que as pessoas abriram mais a mente. Diziam que pagodeiro só faz filho, só quer saber de cachaça, churrasco, festa. Rotulavam o pagodeiro como um vagabundo. Cara que chegava ali, cantava duas musiquinhas, pegava o dinheiro, torrava com os amigos, se envolvia com prostitutas, com drogas. As pessoas estigmatizava muito os pagodeiros. Hoje a galera está começando a abrir mais a mente.

 

Você fez parte da Banda Black Style, saiu da banda em 2013, voltou em 2017 e saiu novamente do grupo em setembro de 2018. O que te motivou em seguir agenciando a sua própria carreira?
Todo mundo tem sonhos e quase todos os artistas que cantam em banda têm o sonho de seguir em carreira solo. Você vê Marcelo Falcão, com O Rappa, que depois de muitos anos saiu; Bell Marques no Chiclete com Banana; Ivete Sangalo na Banda Eva; Saulo também com a Banda Eva saiu para carreira solo. Isso é muito natural e não foi diferente comigo. Queria fazer carreira solo, sonhei em fazer a carreira. Quando você está em uma banda, você não é dono sozinho, tem outras pessoas que opinam, que somam e você precisa do grupo para poder direcionar a carreira da banda. Só que com o passar do tempo, começa a existir uma divergência ideológica, divergência de pensamento. Você começa a pensar de uma forma, seu sócio já pensa diferente, o músico que também é sócio pensa diferente, aí começa a ter brigas. Quando eu vi que as pessoas estavam pensando de forma diferente, estavam pensando um para o norte e outro para o sul, eu resolvi sair e fazer carreira solo e gerir do meu jeito. Como sou amigo de todo mundo e não queria ser inimigo de nenhum sócio, empresário ou músico eu prefiro sair e seguir carreira solo.

 

Seu mais novo lançamento foi a canção “Toma Toma”, gravada no Candeal. De onde partiu a ideia de realizar a gravação na famosa escadaria?
Eu sou fã de Carlinhos Brown, ele é um gênio, um mito da música, uma lenda viva. Quando eu era mais novo, eu tinha ido ao Candeal com meu pai e tinha um sonho de cantar na Timbalada. Tinha esse desejo em gravar algo ou no estúdio de Carlinhos Brown, ou na Pracatum ou no Candeal, porque Brown é famoso mundialmente pelo Candeal, pelo Guetto Square. Quando meu empresário pensou em fazer o clipe dessa música eu pensei: “por que a gente não faz o clipe lá no Candeal?”. Aí o pessoal: “Boa ideia!”. E toparam e terminamos fazendo.

E com as dançarinas dos projetos sociais…
Eu queria umas dançarinas que realmente soubessem dançar. Eu queria que fossem meninas dos guetos que soubessem dançar mesmo.

 

Entre uma dançarina do gueto e uma do FitDance, você prefere as do gueto?
Não, veja bem, FitDance são dançarinas profissionais, mas eu queria que o clipe tivessem meninas que soubessem desenvolver a dança naquele momento. A gente não ensaiou. Se fosse para ser com o FitDance a gente teria que ensaiar, passar dias ensaiando, montar uma coreografia e eu não fiz isso. Bolou a ideia: “vamos gravar no Candeal?”. Pronto. “E as meninas?”. “Tem uma meninas aqui, vamos chamar elas”. Do nada elas chegaram lá, eu fiquei preocupado com a coreografia, como é que seria e as meninas criaram na hora. Dançam bem, são simpáticas demais e bonitas.
 

Nesta canção você faz a mistura do pagode com o funk unindo as suas raízes musicais. Pretende também realizar novos projetos exclusivamente com o funk 150 BPM e demais variáveis do estilo?
Não, eu prefiro manter o pagofunk. Só que o funk ganha o destaque, porque 90% das coisas que eu criei na minha banda eu peguei do funk. Os artistas de funk são extremamente criativos. Eu coloquei apenas a batida do pagode, mas a letra, o ritmo e a melodia são do funk. Mas eu pretendo manter o pagofunk e continuar misturando.

 

Em breve você lançará um novo CD com 15 faixas sendo que com 6 novas canções e 9 regravações. O que o público pode esperar de novo e qual vai ser a nova roupagem dada a estas canções que serão novamente gravadas?
Eu pretendo fazer um álbum sem polêmicas, com a letra com um pouco mais de sutileza. Vou continuar abordando assuntos inusitados, assuntos diferentes, entretanto eu não vou mais cantar música que tenha uma certa polêmica, vou evitar. Nesse álbum tem umas 15 músicas, dessas 15 eu selecionei 5, 6 músicas que têm temas diferentes e são bonitas e bacanas.

 

Deseja destacar mais alguma coisa?
Eu tenho um projeto social que já criei desde 2009. Na verdade, eu e alguns amigos fizemos parte deste projeto desde 2009, só que ele está ganhando visibilidade só agora. Ele se chama “Sopão do Robyssão”. A gente criou uma página no Instagram e o objetivo é levar sopas para as pessoas que moram nas ruas - especialmente no Largo de Roma, ali tem muitos moradores de rua. Depois dessa crise econômica, o número de moradores aumentou consideravelmente e o que mais me sensibiliza é a quantidade de crianças. Aí eu conto com a ajuda dos amigos, fãs e admiradores que queiram contribuir não só financeiramente, mas com agasalho, com alimentos e se não quiser contribuir com nada, com presença também é importante. A gente tem uma van e nela as pessoas vêem de perto a realidade e saem de lá com o espírito mais elevado. As pessoas reclamam da vida, mas quando você vê que existe sofrimento maior que o seu, você vai ver que realmente tem que agradecer a Deus e não reclamar. Portanto, estou criando este projeto e estou difundindo pelas redes sociais, porque sozinho a gente não consegue fazer nada, mas é necessário que tenhamos amigos, parceiros que possam ajudar de todas as formas. Qualquer ajuda é bem-vinda e eu vou ampliar esse projeto, porque observei que não é só no Largo de Roma que tem moradores de rua, mas também na Pituba e no Aquidabã. Por incrível que pareça, a verdade é que quando dá 21 horas as pessoas estão com fome, são muitas crianças famintas. Eu moro num país tão rico e tudo dá aqui e tudo é em abundância, e ver tanta gente passando necessidade...

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