Quinta, 14 de Fevereiro de 2019 - 11:10

Ishmael aposta em 'leveza' e 'desconstrução' para segurar mais de 2 horas de 'JM'

por Júnior Moreira Bordalo / Ian Meneses

Ishmael aposta em 'leveza' e 'desconstrução' para segurar mais de 2 horas de 'JM'
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Há quase 10 anos os baianos recebem pela manhã o simpático bom dia do jornalista Ricardo Ishmael. Desde 2010 à frente do “Jornal da Manhã”, na TV Bahia, o apresentador acredita que a forma de comandar um noticiário e cumprir com o papel de informar tem exigido constantes readaptações. “Eu vou imprimir uma leveza nesse jornal, porque não?”, sugere e executa o profissional, ao mesmo tempo em que afirma estar cada vez mais afastado do modo clássico e sisudo do jornalismo.

 

Ishmael acredita que, no processo de apresentação de um noticiário de cerca de 2 horas como o “Jornal da Manhã”, que a partir da próxima segunda-feira (18) passará a ter 2h30 no ar (veja aqui), é ideal provocar certas desconstruções, não só no abandono do paletó e gravata, mas também na forma como o jornalista se conecta com o telespectador dando a “ideia de que você passe para o cidadão que essa é a nossa casa e você é bem-vindo nela”.

 

Natural de Serrinha e com uma rotina fora do normal para muitas pessoas, Ricardo acorda às 3 horas da manhã para poder organizar e planejar a atração, a qual apresenta ao lado da jornalista Thaic Carvalho. Após as 12 horas, o apresentador se sente livre, mas logo em seguida parte para outro projeto que vem realizando há dois anos. Com uma paixão desde jovem em ler e criar histórias, o jornalista fã dos livros de Jorge Amado está prestes a lançar a sua segunda obra literária. 

 

Você assumiu o jornal da manhã em 2010. Como avalia esse tempo à frente da atração?

Acho que ainda tenho muito a contribuir com o jornal. Eu assumi em 2010, em um momento que ele ainda vinha de um momento mais clássico, mais sisudo. Eu acho que consegui, ao lado da equipe, imprimir talvez um jeito diferente de entregar esse conteúdo. Embora o cidadão queira muito a notícia e a informação, ele também quer uma forma agradável, interessante e leve de receber essa notícia.  

 

Quais os maiores acertos e erros?

O primeiro é falar diretamente a esse telespectador sem aquela sisudez, sem você acordar cedo de cara amarrada e dizer: “olha, o que eu tenho para te oferecer hoje é só notícia ruim, é só notícia pesada”. Não, eu vou imprimir uma leveza nesse jornal, por que não? Ele pede, ele me permite isso. Por que não sorrir, dar um bom dia, por que não brincar com a Thaic, por exemplo? Por que não fazer um bastidor e mostrar isso para o cidadão? Por que não abrir a porta e dizer: “olha, a gente quer que de fato seja a sua casa”. A ideia é essa, que o estúdio seja nossa casa. Acho que isso foi um acerto. Acho que a gente pode melhorar muito no espaço para participação desse público. Nós já avançamos nisso. A gente traz a cada dia essa participação e ele [telespectador] comenta, mas podemos ampliar muito. É um desejo meu ouvir esse cara ao vivo. Por que não deixar esse cidadão entrar e falar? O rádio faz isso muito bem. 

 

O que é mais difícil em comandar uma atração diária e com mais de duas horas de exibição?

Talvez seja fazer com que esse nosso telespectador entenda que agora ele tem mais tempo. Agora ele pode continuar com a gente um pouco mais, porque vai ter mais conteúdo, mais abordagem local, mais esse olhar sobre a cidade. Os números estão respondendo, isso é bacana, isso é o termômetro. Mas a gente não trabalha só com números. A gente trabalha também pensando em como eu posso atingir essa rotina dele, qual é o diferencial que vou oferecer a ele. Entender muito isso é um desafio. Compreender o que ele quer naquele momento. É mais cidade, é mais variedade, é mais entretenimento? O que é? 

 

 

Como é a sua rotina de trabalho?

Então, eu acordo às 3 horas da manhã, mas como eu moro pertinho da TV, umas 4 horas da manhã já estou lá. Às 4 horas da manhã eu começo a ler tudo, vou para os blogs, todos os jornais e dou essa “passada” nos sites, enquanto Glauber [Mateus] chega, que é o editor-chefe. Aí a gente vai revezando. Eu vou para os jornais impressos e ele segue nos blogs e sites. A gente vai vendo o que tem para acrescentar àquilo que foi deixado no espelho anterior pelos editores da noite. A partir daí é uma correria. O que vai e o que não vai, qual é a abordagem que vai dar para esse assunto, aqui cabe um comentário, aqui não cabe. Conversa com o repórter: "olha, vamos por esse caminho aqui e vamos fazer determinada intervenção", e o tempo corre. Em seguida, vou para maquiagem e depois vou para as chamadas, para estar às seis em ponto lá no estúdio. Essas duas horas passam que você não percebe, não sei se é a adrenalina do começo e eu falo: já acabou esse negócio? Após o término do jornal a gente vem para a pauta seguinte. Umas 9 horas ou 9h30 a gente está indo para a reunião de pauta e eu estou todo dia na reunião, porque eu também edito o jornal. Estou ali colado com Glauber e com os produtores e já vamos pensando nas pautas. A partir desse momento estou mais voltado para as entrevistas exclusivas. A ideia que a gente tem é de a cada semana uma entrevista com uma personalidade da terra e eu estou muito na produção dessas entrevistas também. Mas lá por volta de 12 horas eu já estou, digamos, livre. Em tese, porque vem o segundo momento que já é a parte da literatura. 

 

Ao longo desses anos, a gente percebe uma tentativa cada vez maior de desconstruir aquela "imagem distante" dos jornalistas. Para você, é uma adaptação natural?

Eu acho que o cidadão espera isso. Sempre achei uma bobagem isso do apresentador ser aquele sujeito que imprime a seriedade do jeito de falar, na impostação de voz, no paletó e na gravata. Por que não posso tirar a minha gravata e imprimir a mesma seriedade e ter o mesmo cuidado com a notícia? A gente vai desconstruindo. Tira-se a bancada do jornal, tira o paletó e põe uma calça jeans. Você caminha mais, a ideia de que você passe para o cidadão que essa é a nossa casa e você é bem-vindo nela. É muito simbólico. Tem algo semiótico nisso aí. Se eu tiro, fico mais leve e mais à vontade, eu me aproximo.

 

Inclusive, nas redes sociais, você costuma ser bem descontraído e, às vezes, até vira memes. Como lida com isso?  

Eu gosto. Sou um sujeito que tento levar a vida de forma muito leve e descomplicada. Problemas nós já temos demais. Não me importo de forma alguma, me divirto. Minha mãe me fala muito que quem tá na chuva é para se molhar e é isso mesmo. Eu decidi fazer televisão, eu trabalho num veículo que é popular, que é visto. Se eu viro meme é porque eu estou sendo visto. É porque aquilo ali está sendo reverberado de alguma maneira. No fundo, no fundo, o que importa para mim é a mensagem que eu tenho que passar para o cidadão, para o telespectador. 

 

E você tem algum limite nas redes sociais? Por exemplo, vida pessoal?

Acho que o limite é daquilo que eu entendo como fronteira da minha atividade. Eu sou jornalista, não sou um humorista, nem sou ator, nem celebridade. Eu sou somente um jornalista. O meu papel é muito claro, a minha função é muito clara. Eu sei onde é o meu limite e vou até ele. Claro, você pode escorregar aqui ou ali. Isso pode acontecer, nós somos passíveis de erro. Mas tenho muito claro na minha cabeça quem eu sou, o que sou e o que eu busco. 

 

Ano passado, alguns sites noticiaram que você estava sendo sondado por emissoras paulistas por conta do desempenho no “Jornal da Manhã”. A informação procedeu?

Em verdade o que acontece é que somos sondados o tempo inteiro. Quem trabalha em televisão já sabe disso, nós somos sondados e os convites surgem. Partimos para a conversa muito abertamente com a direção da casa, colocava que tipo de convite havia surgido e a gente conversava e chegava num entendimento. Então, está dentro dessas conversas com a direção do Jornalismo e por isso que continuo. Continuo por que acredito no trabalho que faço, acredito no que entrego a cada dia para as pessoas, acho que tenho muito o que contribuir ainda. A casa reconhece isso e entende isso e por enquanto continuo aqui. Não sabemos o dia de amanhã, porque está no nosso ofício. Enfim, o futuro dirá. 

 

Você é de Serrinha, correto? Quando percebeu o interesse pelo jornalismo?

Na verdade o interesse pelo Jornalismo surge depois. Primeiro veio a literatura e o desejo de escrever, de contar histórias. Esse sempre foi meu objetivo. De uma família muito simples, muito humilde. Minha mãe tinha um bar em Serrinha, ela vendia cachaça e eu via os clientes chegarem e contarem histórias. Aquilo foi crescendo em mim, o desejo de contar essas histórias. O Jornalismo surge depois como uma forma de me dar um instrumento, a ferramenta para escrever. Eu achava que o Jornalismo me daria, embora seja um texto absolutamente distinto, do literário para o jornalístico. Surge lá atrás, querendo contar história, e vem depois o Jornalismo. Lá em Serrinha o terreno foi sendo preparado para esse jornalista que viria tempos depois. 

 

Você começou sua trajetória no jornalismo em Vitória da Conquista e chegou numa posição de destaque hoje. Considera que foi mais difícil por ter vindo do interior?

Foi até mais fácil, porque eu comecei a trabalhar ainda como estudante de Comunicação. Como estudante, ainda no primeiro período, precisava ganhar dinheiro e fui convidado para fazer um estágio e lá fui ficando. Três meses depois fui contratado como produtor. Acho que o meu caminhar no Jornalismo foi de certo modo mais fácil do que é para a maioria dos meus colegas, porque eu já começo em um estágio. Então eu não tive aquele período de terminar uma faculdade, de ir para o mercado, de tentar aqui e ali. Tanto que, quando eu me formo, eu já estou quase pronto para vir para Salvador. Um ano depois eu já estava aqui. Me formo em 2004 e em 2005 estou aqui em Salvador. Em 2010 assumo o “Jornal da Manhã”. De certo modo, foi até mais fácil, porque esse meu caminhar veio desde a época dos estudos. 

 

 

Quando surgiu o interesse pela literatura? O que você sempre gostou de ler?

Eu lia tudo, sempre li muito e desde muito cedo. O grande start ou episódio que marca esse momento foi meu encontro com Jorge Amado. Eu tive um encontro rápido com ele. Ainda estudava em Serrinha, era estudante de escola pública e numa ida rápida ao aeroporto me encontro com Jorge Amado. Aquilo foi nos anos 1990 e já tinha lido toda a obra dele até ali. Já tinha lido de “ABC de Castro Alves” até “A Descoberta da América pelos Turcos”. Eu tinha o domínio da obra dele e muito ousado fui falar com ele. “Olha, queria contar histórias. Queria um dia, quem sabe, ser um contador de histórias”. Ele me presenteia com um livro, um exemplar de “Cacau” e escreve lá: “Não existe hora certa para começar, existe o começo. Comece”. Aí falei: se esse cara me disse isso, tem alguma coisa aí. Mas aí você não tem coragem. As pessoas vão rir do meu texto, não tenho lastro, não tenho um estofo para contar uma história. Só que há dois anos a editora me procura para me fazer uma proposta. “Bora escrever, bora fazer um livro sobre sertão". Topei o projeto e nós fizemos o primeiro livro e eu nasço como escritor. A experiência foi muito boa, ainda está sendo. Eu confesso que não esperava tanto, mas já houve de cara uma aceitação muito grande do livro. Eu sei que isso tem a ver com a televisão, com exposição da minha imagem, da minha figura como apresentador de jornal. Mas houve e há um interesse pelo Ricardo como escritor. Por esse texto diferente do técnico de hábito do jornalismo. Então, tem sido muito bacana, tem me dado muitas alegrias, mas eu já virei a página do primeiro livro para o segundo.  

 

Seu segundo livro, "Eu, Darlene, sentada no chão à espera da morte”, sai este ano. Qual é a história?

É um romance que é inspirado na história de uma travesti, a Dandara dos Santos, uma cearense que foi morta e espancada e o vídeo viralizou na internet. Eu conheci a mãe da Dandara e ela me disse uma frase que me marcou muito. Ela disse que viu a morte da filha na TV. Ela estava almoçando e viu a filha sentada no chão à espera da morte. Esse título me marcou muito e eu falei que iria escrever alguma coisa sobre isso. Tive contato com algumas editoras, que já queriam alguma coisa depois de “O Curioso Destino de Rita Quebra-Cama”, então esse é o momento de escrever esse segundo livro. Estou quase terminando, estou naquelas gotas finais de suor para pôr um ponto final na história.

 

Como você acha que a comunidade LGBTQI+ vai receber a história?

Não estou preocupado com a crítica especializada, nem a do leitor de modo geral. Eu quero que o livro seja bem aceito, mas não estou preocupado porque não estou fazendo uma biografia da Dandara, não é história de vida dela. É um romance de ficção com uma personagem que é livremente inspirada nesta figura que existiu e que foi assassinada brutalmente. Mas a minha Darlene encarna um pouco da Dandara e um pouco das outras travestis que são mortas a cada dia nesse país. Então você tem as Sheilas, as Éricas, as Maiaras… Eu fiz uma pesquisa a respeito e escrevo uma obra de ficção. As pessoas não vão conhecer a história da Dandara, que não é esse o meu objetivo, não é esse meu propósito. É lançar o meu olhar de ficcionista sobre uma personagem que sintetiza tantas outras personagens travestis. 

 

Você milita ou toca em alguma bandeira específica? 

Não. Até por ter feito uma faculdade de História, por ter estudado muito sobre a história da Bahia e as religiões de matrizes africanas, por ter me debruçado na faculdade sobre a história da África, eu me dedico e me familiarizo muito por esse universo, mas não milito. 

 

O que pensa sobre o jornalismo literário?

Eu admiro os colegas que conseguem fazer o que se chama de jornalismo literário. Mas acho que jornalismo é jornalismo e literatura é literatura. São campos que até podem dialogar e dialogam, mas são campos diferentes. Acho que é um talento que algumas pessoas conseguem fazer isso, mas não é uma categoria dentro do jornalismo que me agrada. Quando eu sento para ver um noticiário ou para ler, eu quero a notícia, não quero floreio, não quero a poesia, as firulas poéticas não. Acho bacana quem faz, mas eu, quando eu quero ler, vou procurar uma literatura ou uma biografia. Separo bem. 

 

O que mais te agrada na profissão?

Quando a gente precisa pensar no mundo que seja melhor para todos. Que eu possa de alguma maneira contribuir com a vida das pessoas e fazer algo de diferente e deixar algo de importante e de relevante para as pessoas. Eu sou um jornalista, um formador de opinião. Eu conto histórias e notícias para as pessoas querendo que algo aconteça a partir daí. O grande barato é quando eu deito e falo: poxa, eu fiz alguma coisa que pode ter ajudado alguém, ou teve um feedback de alguém, ou consegui falar sobre determinado assunto, ou não consegui e preciso tentar... Essa coisa diária do sentir que meu ofício é útil de alguma maneira. Ele provoca algum tipo de ação ou de resposta. Vai ao encontro de uma demanda de alguém. Das coisas pequenas, de um buraco de rua que só foi fechado depois de três meses porque a gente foi lá. Uma coisa simples, uma falta d’água. Uma orientação para uma pessoa fazer uma cirurgia simples no sistema público. É esse o meu tesão. 

 

Quais os desafios do campo de atuação do jornalismo atualmente para uma pessoa que está iniciando na área? 

Converso muito com essa turma nova que vai chegando. Sou muito procurado e as pessoas querem uma palavra, um conselho… Eu acho que o grande desafio é entender o porquê daquilo. Para quê eu quero isso? Se é para ganhar dinheiro, se é para ficar famoso, se é para ficar amigo de artista… esqueça, não é isso e não vai ser isso. Nós somos trabalhadores quase braçais, operários da notícia. Eu penso os que estão nas redações, sem falar dos assessores que também são colegas. Eu acho que o grande desafio é entender, e até uma grande dificuldade de entender, que "é isso que eu quero”. Acordar às 3 horas da manhã, ir para a redação em busca desse diferencial e oferecer isso. É isso que vai me satisfazer, de contar uma boa história. Se você vai se satisfazer com isso, você está no lugar certo. 

 

O que você ainda busca na profissão?

Não quero parecer piegas, embora eu seja um sujeito piegas. Mas penso num dia que eu vou acordar e falar que eu só tenho coisas boas a dizer. Bons exemplos, boas histórias, aquilo que motiva e vai inspirar. Não sei se é um pouco dessa utopia. Eu queria não ter que dar tanta notícia ruim. Queria poder não ter que falar tanto da violência, do desemprego, da falta de acesso à saúde e aos serviços básicos. Acho que é mais ou menos por aí. Eu me ponho no lugar do outro. Será que eu quereria receber isso de manhã cedo? Precisa ser assim todo dia? Talvez não, a gente pode tentar fazer diferente. 

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