Alexandre Guedes - Motumbá
Coluna Holofote: Conta um pouco de sua origem no Candeal e de como você começou a se interessar pela música.
Alexandre Guedes: Sempre tive uma influência familiar musical. Então, culturalmente na minha família no dia 1º de janeiro tinha um compromisso com a parte religiosa, e dentro dessa missa, quando acabava, íamos todos pela rua num cortejo cantando musicas religiosas. E dentro disso tinha meus tios que tocavam trombone, percussão, etc. No domingo depois dessa parte religiosa tinha a parte de lazer. E desde criança as coisas aconteciam dessa forma, sempre fui cercado pela música. Acredito que isso me inspirou para entrar para o mundo da música. No Candeal, com 13 anos de idade eu fiz minha primeira música para um bloco chamado “Zimbábue”. Quando fiz 15 anos já tava correndo Salvador toda com o samba junino. Eram mais de setenta grupos juninos; tinha concurso em Cajazeiras, Engenho Velho de Brotas e no Apaches. Todo mundo queria participar e ficar entre os cinco primeiros colocados, que eram os mais cobiçados. Depois fundei com alguns amigos o “Samba Rasta” no Candeal e foi maravilhoso. Nos anos seguintes fui convidado para outros grupos com mais nome. Lembro que participei de um grupo chamado “Os Mulatos”. Concorremos naquele ano no Apaches e ficamos em terceiro, mas parece que foi o primeiro lugar. E nessa seqüência o bloco Apaches do Tororó me convidou pra fazer parte da ala de canto. Depois fiz parte do projeto “Leva Eu” e ao mesmo tempo fui pra um grupo chamado “Gente Como Nós”, que pegava músicas da MPB e trazia paro o samba. Um belo dia no “Leva Eu” recebemos a visita de Tony Bola, Carlinhos Brown e Ivan Basto. E eles ficavam impressionados com a maneira como eu tocava. Aí Brown me convidou pra participar do “Vai Quem Vem”. Eu estava muito apegado ao dois trabalhos que estava fazendo, mas depois fui. Chegamos lá com atitude e foi tão bacana que ele me intitulou como diretor de canto. Foi a partir daí, no “Vai Quem Vem”, que tivemos seis faixas gravadas no disco de Sérgio Mendes e uma dessas músicas gerou o Grammy, acho que em 89. Depois os caminhos foram se abrindo e surgiu o laboratório para fazer a Timbalada.
CH: Você acha que essa atitude de Brown surgiu como uma preparação pra você entrar na Timbalada?
AG: Estava sendo preparado para a música, mas não sabia a projeção que aquilo ia ter, até porque nosso primeiro registro fonográfico profissionalmente foi no “Vai Quem Vem”. Então, a gente não tinha essa noção. Queríamos evoluir com a música, mas não sabíamos que seria tão rápido. Eu entrei na Timbalada desde o início, entre 90 e 91. E, em 93 já tinha a música “Canto Pro Mar”. Isso eu me lembro como se fosse hoje. Dia 1º de janeiro essa música estava pipocando na rádio. Era um ‘groove’ novo. Nesse mesmo período que a música estava pegando fogo nas rádios, fizemos o reveillon do Esporte Clube Periperi. Eu não esqueço porque foi uma coisa muito bacana; foi a primeira vez que eu toquei na cidade baixa. Sempre peço a Deus que me leve a tocar em eventos desse tipo, porque é uma verdade tão próxima e tão presente, que as pessoas adquirem sua música como se estivessem em sua casa. No Candeal também é assim. Enfim, lotou o Clube Periperi e depois disso ganhamos o Brasil e o mundo. Foi quando surgiu o convite pra Xexéu, pra Ninha, pra todos os timbaleiros que vieram compor o canto conosco. Outro fato que eu lembro bastante foi a primeira viagem pra fora de Salvador. A gente foi para Aracaju, fizemos grande show e depois fomos pra São Paulo, no Circo Voador. Era um show que uma empresa tinha contratado e estava lotado.
CH: Mas a partir daí você já teve uma noção da projeção que você a e banda poderiam ter?
AG: Exato. Mas nesse período eu sempre falava que participaria de um trabalho em que iria ‘ganhar’ a televisão, no sentido de exposição na mídia e reconhecimento do público. E quando aconteceu a Timbalada eu já estava com essa consciência. Gravei na Timbalada quatro álbuns e saí em 1997. Nesse período de quatro álbuns, fiz participação em discos como músico acompanhante com Gilberto Gil e Caetano Veloso, com Netinho, fiz trabalho fora do país, com Marisa Monte, que numa participação dela num show de Brown no exterior se encantou pelo nosso ‘groove’.
CH: Mas sua saída da Timbalada se deu por quê?
AG: Eu saí porque estava querendo alcançar outros horizontes. Porque estava mergulhado na Timbalada de uma forma que eu não estava tendo tempo de estudar e conhecer mais a música. Não que hoje eu seja 100% conhecedor da música, porque vou morrer sem ser 100%, mas estava necessitando muito estudar novos instrumentos, sonoridades, harmonia. Por isso fiquei cerca de cinco anos fazendo intercambio com pessoas do exterior. Depois fizemos o laboratório da baianada. Lançamos uma música aqui, mas fui fazer uma turnê na Europa com outros artistas. Quando completei cerca de um mês na Europa, recebi um telefonema dizendo que nossa música estava em primeiro lugar nas rádios e a música era “Carimbó do Bom”, de autoria minha e de Pito, parceiro meu. Aí sabe o que é você estar lá e querer estar aqui? As coisas aqui estavam acontecendo com um trabalho meu e eu não podia voltar por causa dos compromissos firmados. A turnê de três meses parecia mais que era um ano; o tempo não passava. Só esquecia disso quando entrava no palco. Finalmente passou o tempo da turnê e com isso tive que voltar. Foi aí que fizemos o álbum da Baianada que gerou três músicas na boca do povo e cinco músicas que foram regravadas por outros artistas, inclusive Daniela Mercury. Só que para mim ainda faltava alguma coisa.
CH: Então, a partir daí você criou a Motumbá?
AG: Queria mudar mais a sonorização e inserir nossa cultura. Gostava muito da Baianada, mas ela não pegou essa linha que a gente queria.
Então pensei: preciso estudar mais um pouco. Resolvi estudar mais, deixei meus parceiros que queriam seguir. Fiquei no laboratório de um ano e fiz um trabalho onde queria dar um segmento mais longo, e com a nossa cultura inserida. Isso foi em 2003, quando o laboratório que estava fazendo resultou na Motumbá. E dia 3 de dezembro de 2004 lançamos esse novo trabalho. Só que ao invés de timbal, inserimos os atabaques. Com o tempo veio o Bororó.

CH: Qual a proposta musical da banda Motumbá?
AL: Costumo dizer que a Motumbá é a mistura do afro-pop-caribenho. Mas todo dia que escuto a banda, acho que é algo mais que isso. O impressionante é que escuto um disco que gravamos há cerca de quatro anos, e sinto que falta alguma coisa que na época eu não percebi. Então acho que a Motumbá é um afro-pop-caribenho, mas que sempre vai trazer um pouco mais, porque a nossa intenção é sempre misturar todo tipo de música. A gente não tem um segmento, seguimos a música. Seja ela que gênero for. Apenas priorizamos a qualidade e que balance o povo.
CH: Conta um pouco sobre a origem do nome Motumbá.
AG: Motumbá é uma palavra em Ioruba que significa benção. E a resposta é Motumbaxé, que é Deus Abençoe.
CH: Por que o projeto da Motumbá no Pelourinho acabou?
AG: Em 2005 tínhamos a proposta de cinco shows em Porto Alegre, mas como o principal show foi cancelado e nos estávamos há quinze dias ensaiando no estúdio, surgiu essa oportunidade de fazer no Pelourinho. Escolhemos a Praça Pedro Arcanjo para o show. Fizemos quatro eventos abertos no Pelourinho. Aí, tanto as pessoas quanto os comerciantes pediram para a gente voltar a fazer shows Lá. Foi aí que sugeri para fechar o local, para que ficasse mais organizado, mais seguro. Fizemos a Motumbá na praça fechada. No primeiro ano tinha uma média de 900 pessoas, na praça que cabiam 2000. No segundo ano ficavam 500 pessoas fora do evento querendo entrar, de tão cheio que estava lá dentro.
CH: E por isso vocês tiraram o evento do Pelourinho?
AG: Não. Eu acho que foi Deus que fez a gente levar “Motumbá Pra Você” para outros cantos, inclusive, pro Othon. Também houve a mudança na direção do Pelourinho, eles mudaram a estratégia e naquele momento não seria possível fazer eventos; tanto da motumba quanto de outras bandas. E aí o Othon abriu as portas para nós. E o público gostou muito. No Pelourinho era muitos gostoso, mas tinha muita gente, era muito apertado. Mas todo o processo de mudança foi muito natural, não foi nenhuma pretensão nossa buscar outro local. Mas eu penso que Deus vai nos abençoar pra voltarmos a fazer ao menos mais uma edição no Pelourinho.
CH: Quais suas principais influências musicais e como essas influências interferiram na Motumbá?
AG: Minha grande influência musical é o samba, o samba-de-roda. E depois tenho uma ligação muito forte com o merengue. Escutava muito Riachão quando criança, e muitas cantigas de samba-de-roda. Com isso foi crescendo meu gosto pela música. Sem falar que tenho uma admiração muito grande por Marisa Monte. Gilberto Gil é um cara que eu sempre estudei desde criança. O groove dele e o suingue que ele faz unido à experiência que tive com a seda que é a voz de Marisa Monte e com toda travessura de Riachão, não tem casamento melhor. Tem mais gente, mas no primeiro plano posso falar nesses três.
CH: O que você acha da mistura que está acontecendo na música baiana e até mesmo no carnaval, onde diversos ritmos estão sendo inseridos?
AG: A Bahia por si só é uma grande mistura, e nunca foi diferente. Desde pequeno sempre vi que era uma grande mistura e que isso só acrescenta. A mistura da Bahia é tão forte, que naturalmente ela atrai essas pessoas que querem estar em nosso celeiro musical, querem beber de nossa fonte. Isso fortalece ainda mais nossa música. Prova disso é um pianista em cima de um trio elétrico acompanhando uma grande cantora que é Daniela Mercury, e uma grande apresentadora que é Xuxa acompanhado outra grande cantora que é Ivete no seu trio. Imaginem você vendo no Carnaval um bloco de reggae, um de forro, um de música eletrônica, um de pagodão quebrando tudo, porque é diferente mesmo, não tem jeito; está no nosso sangue, na nossa alma. A Bahia é o axé, é celebração de coisa boa.
CH: Fala um pouco sobre o projeto da “Motumbá Pra Você”, que recomeça no próximo domingo.
AG: Nossa missão é fazer o povo feliz e levar nossa música com muita alegria. A Motumbá às vezes é meio improviso, porque a gente ensaia tudo direitinho, mas na hora H sempre rola algo a mais. Assim como aparece grandes artistas para o nosso evento. Até agora não temos nenhuma programação de convidados, mas podemos dizer que Motumbá é pra vocês, e tudo pode acontecer. Vamos tocar música com muita energia e alegria. Começamos dia nove de novembro e aí rola até o carnaval.

CH: Explica o rito de abertura dos seus shows/ensaios.
AG: A abertura do show é uma música que pede licença, passagem pra que a gente possa fazer um grande trabalho, um grande espetáculo, e que a gente leve sempre alegria paro o povo. Então sempre fazemos essa saudação, que caiu em nossas mãos como uma luva. O engraçado é que antes eu já executava essa música, mas depois fiz na forma de cântico, um mantra. Graças a deus o povo esta correspondendo bem.
CH: Outra marca registrada sua são as fantasias no carnaval. Como e quando você decidiu usá-las?
AG: Nno primeiro momento não pensamos que iríamos fazer as fantasias. Enfim, mas quando entramos em cena, a gente se sente ali em cima do palco como se fosse um teatro. Como nossa cultura já tem vários adereços característicos como turbantes, percatas, colares, decidimos usar algumas coisa no primeiro ano no Bloco Beijo. Foi tão bem aceito que no segundo ano repetimos. Tínhamos uma música chamada Bahia África, e então pensamos num tema de guerreiros para as fantasias. Pesquisamos e demos nomes aos guerreiros das fantasias. Isso deu até um trio chamado Bahia áfrica, no sábado de carnaval.
CH: Falando em músicas, queria que você falasse como foi escolhida essa canção nova de vocês?
AG: Essa música “Pra Balançar de Novo” é de Augusto Conceição e Elivandro Cuca. Nós fizemos o disco e identificamos essa música, que é muito gostosa. Algumas pessoas da equipe queriam que a gente trabalhasse ano passado, mas eu achei que essa música era pra outro momento. Então programamos pra trabalhar no segundo semestre. E quando começamos a tocar nos shows, as pessoas cantavam toda. Daí não tivemos dúvidas de que essa seria nossa nova música de trabalho. E foi dessa forma que escolhemos.
CH: Você não acha que o público ficou muito preso a música “Bororó”, sucesso de vocês lançado há alguns anos?
AG: Não acho que eles estão presos; eles estão grudados nela. Ganhei dois sobrenomes alem do Guedes: um foi Motumbá e o outro foi Bororó. Então eu tenho uma coisa na minha cabeça. Sei que vou estar velhinho e as pessoas vão pedir pra cantar Bororó; e isso não vai ter jeito; vou cantar. Pode até ser em outro ritmo, outra roupagem.
CH: Mas alguns artistas se incomodam com essa situação. Você não liga?
AG: Não cheguei nesse estágio e espero não chegar nesse lance de não gostar. No estágio que eu estou eu quero é mais. Você chegar em algum lugar e ter uma identidade própria é melhor do que você estar sendo confundido [rsrsr]. Então, por favor, me chamem de Bororó sempre.
CH: Falando em identidade, mesmo tendo uma pegada diferente, no início houve comparações ou algum tipo de rejeição do público e da mídia?AG: Sempre tem. Quando você está fazendo um trabalho novo, por mais que você já tenha uma estrada como músico, sempre vai haver comparação, mesmo que seja pequena. As pessoas se questionavam se era Olodum, Timbalada, Ilê, etc. Então é natural que as pessoas comparem. Mas eu estava muito tranqüilo porque tínhamos que dar tempo ao tempo para que as pessoas reconhecessem nossa identidade.
CH: Como é a receptividade da banda pelo resto do país? O que é que você sente quando faz shows em outros estados?
AG: Até costumo dizer que o público mais exigente é o baiano. Se você não balançar essa terra, você não balança mais nenhuma. Então é muito tranqüilo em outros lugares. Quando a gente vai pela primeira vez o impacto é muito grande. Pra você ter idéia, outro dia eu estava vendo uns vídeos com shows da banda, e aí entendi porque o povo ficava em êxtase; porque eu também fiquei. E os comentários dos contratantes de outros estados eram de que nunca tinham visto uma banda como a Motumbá.
CH: Como que é sua relação com os fãs?AG: É muito bacana, porque a gente tem uma relação muito próxima quando é possível. Sempre estamos disponíveis em receber os fãs em nossos eventos. Tem fãs que procuram a produção pra ficar mais próximo do artista. É muito bom e ficamos muito alegres porque é um grande reconhecimento.
CH: Vocês já estão pensando em DVD?
AG: Esta é uma cobrança tão grande. Lançamos o CD profissional e depois de três anos lançamos o de carreira; mas tudo com muito cuidado; e é com essa cautela que queremos fazer o DVD. Mas certamente alguma coisa poderá acontecer agora em 2009. De preferência será aqui o mesmo em Salvador. Estamos vendo ainda a melhor forma de fazer esse DVD.
CH: Antes do carnaval você faz o encerramento do projeto “Loucos por Música”. Conta o que vocês estão preparando para o evento.
AG: Rapaz, quando chegou esse convite pra tocarmos lá, não tivemos dúvida de que temos que fazer um grande espetáculo, mesmo sendo em uma hora de show. Isso porque gosto muito da concha acústica. E esse projeto “Loucos por Música” é muito organizado, tem muita força e com isso vamos agregar muitos
valores. E tendo a oportunidade de fechar o evento, estamos preparando um dendê especial. Como é com Margareth Menezes, temos a obrigação de fazer direitinho.
CH: O que é que vocês estão preparando para o carnaval?
AG: Tem uma novidade que é o “Beijo no Farol”. Saímos no bloco beijo dois dias na avenida, mas na segunda de carnaval vamos descer pra Barra, por isso o nome “Beijo no Farol”. Essa é a grande novidade. O carnaval de 2009, por não ser tão próximo quanto o do ano passado, ainda estamos elaborando algumas coisas, pois estamos ainda voltados pra os shows fora de Salvador e para o encontro que vai rolar dia nove. Mas os três dias de Beijo estão garantidos.
Por Rafael Albuquerque