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Entrevista

'É preciso uma oxigenação no gênero', diz Alexandre Peixe sobre perda de força do axé

Por Marcela Gelinski

'É preciso uma oxigenação no gênero', diz Alexandre Peixe sobre perda de força do axé
Fotos: Tiago Melo / Bahia Notícias
Com o recente sucesso da primeira edição de inverno do projeto “Burburinho”, o cantor Alexandre Peixe falou um pouco mais das expectativas para o ensaio e dos desdobramentos dele para o Carnaval. O artista acredita que é preciso renovar axé, que perdeu força nos últimos anos, assim como o sertanejo o fez. “É preciso uma oxigenação no gênero”, afirmou Peixe, em entrevista ao Bahia Notícias. Para o músico, a inserção de outros ritmos no Carnaval da Bahia é natural e sempre aconteceu. “A gente nunca teve essa característica de ser fechado”, pontuou. Confira a entrevista completa do cantor Alexandre Peixe:
 
Bahia Notícias - Você tem o projeto Burburinho, que é sucesso tanto no verão quanto no inverno. Mas no Carnaval se apresentou apenas um dia em Salvador. Você acredita que o público de fora te conhece mais que os soteropolitanos?
 
Alexandre Peixe - Eu acho que, na verdade, o Carnaval daqui já é bastante frequentado pela turma de fora, então isso não seria um referencial se o público de Salvador está ficando menos em Salvador ou migrando para os camarotes. Eu acho que o Burburinho é um projeto novo e a gente está tendo o cuidado de fazer bem feito. No verão, inclusive, a gente não fez o ensaio porque não achamos um lugar que tivesse a cara do Burburinho. A gente teve esse cuidado, não queria fazer de qualquer jeito. Fizemos uma temporada no meio do ano e depois tivemos festas soltas. Fizemos festa em Praia do Forte, um pré-Reveillon também lá. Mas a nossa ideia mesmo era fazer um roteiro de verão, uma sequência de quatro, cinco ensaios que não executamos no ano passado e a gente já está começando a fazer este ano no inverno e temos vontade de dar prosseguimento no verão. Acho que isso constroi e pavimenta melhor o caminho para o bloco, para as pessoas daqui terem um referencial do que é a proposta do bloco, do formato da festa. De alguma forma, também, o Burburinho tem saído daqui. Fizemos em Belo Horizonte, em Aracaju, no Rio de Janeiro.
 
BH - Você pretende ter uma participação maior no Carnaval 2014?
 
AP - Claro. Eu acho que todo artista quer tocar mais em Salvador, porque é um Carnaval com uma visibilidade enorme e todo mundo vem para cá. Até os artistas que não tocam no Carnaval, ou os que tocam, se viram para aparecer aqui, pra ver o movimento, para estar perto da mídia, porque a mídia também está sempre de olho no Carnaval de Salvador. Então a gente busca, mas sempre fomos criteriosos. Não tocar qualquer parada, não fazer ou aceitar qualquer tipo de convite. Isso é uma construção de carreira e de marca e a gente sempre teve esse cuidado. Então se o Burburinho começou com um dia, mas achar que já cabe um segundo, a gente evolui mais. Mas acho que a busca de estar mais em Salvador é o objetivo de qualquer artista.

 
BN - Então você está sempre preocupado em ter um cuidado com a realização do projeto e não fazer de qualquer jeito...
 
AP - Eu acho que o público de Salvador, se a gente não tiver esse cuidado,acaba não diferenciando um evento do outro. Então a gente sempre quis que o lugar tivesse integrado a nossa ideia. A gente busca sempre um formato de palco. Fizemos um palco que não é chapado no fundo, colocamos ele no meio. Faz um espaço para o artista andar, um pouco mais baixo, para interagir com o público. A gente sempre buscou essa integração com o público e o espaço ser um grande diferencial.
 
BN - Você acredita que o público soteropolitano ainda te associa mais como compositor do que como cantor?
 
AP - Essa coisa de separar uma coisa da outra é difícil e eu tenho orgulho disso. O fato de as pessoas sempre terem esse referencial quando falam de mim é motivo de orgulho, porque poder estar presente em trabalhos de tantos artistas, que são pessoas que fizeram e fazem história na música. Então eu acho que é natural que as pessoas toquem neste assunto e que a sequência da carreira, gravando os próprios discos, tendo já o referencial da sua voz, das duas músicas, isso faz com que as pessoas te conheçam nesta carreira paralela.

 
BN - O axé é um gênero musical que está em baixa no momento, as próprias micaretas perderam a força nos últimos anos. Você acredita que é apenas uma fase ou o axé está precisando mesmo de uma transformação?
 
AP – Eu vejo um pouco de cada coisa. Vejo que a música tem esse ciclo que é natural. Alguns gêneros ficam mais em voga, mais em evidência. Em algum momento sempre vai ter um. Por exemplo, o sertanejo. Tem uma nova geração fazendo sucesso e continuam os sertanejos da geração de Zezé di Camargo, Leonardo, fazendo show também. Mas teve uma oxigenada e um grupo enorme que veio e que se autodenominou de “sertanejo universitário”. E eu acho que a gente precisava disso. Talvez a gente associar esse artistas que já são consagrados, são referências, mas ter uma turma nova. Seria muito bom para essa oxigenação. E você falou das micaretas e tem um dado que eu acho que pouca gente faz a interpretação. As micaretas eram muito nas ruas e isso passou a ter muito problema porque sempre, onde ocorrem, tem morador que não gosta e a associação começa a pressionar, às vezes um juiz solta uma liminar em cima da hora. Então existia uma instabilidade muito grande para quem fazia o evento. Eles começaram a migrar para eventos fechados e teve uma diminuição natural.

 
BN - O próprio carnaval vem sendo invadido pelo arrocha e sertanejo. Você concorda com essa mistura de ritmos, ou cada coisa em seu lugar?
 
AP – Eu acho que o Carnaval de Salvador, em especial, sempre aceitou bem isso. Não podemos negar o histórico de diversidade. Desde a época que ainda não existia cantor, o instrumental tocava frevo, música de Roberto Carlos, Novos Baianos. Então tinha de tudo um pouco. E a gente tem essa característica de aceitar isso. E é natural que os gêneros que também tem aceitação popular entrem no Carnaval. Para o público, eu vejo como algo positivo porque as pessoas vão ver gêneros diferentes ao mesmo tempo. É bom que não fica uma monocultura. Para a música, pode soar como enfraquecimento, mas o nosso Carnaval nunca foi fechado, que nem o de Recife, por exemplo, que proíbe tocar qualquer coisa que não seja frevo. A gente nunca teve essa característica de ser fechado e é inevitável que a cada ano, se tiver gênero com força para público, vai aumentar essa diversidade.
 
BN - A versão de inverno do Burburinho foi um sucesso na primeira edição. Qual o diferencial para a edição de verão?
 
AP – De cara a gente nota que existe uma evolução no formato do evento. A gente começou no ano passado num espaço para 600 pessoas, na Avenida Contorno, e fizemos três edições. Como senti que tinha mais gente querendo assistir e não dava ali, encerramos a quarta edição no Barra Hall, que já é um espaço para duas mil e poucas pessoas. Também, graças à Deus, vendeu tudo. Então sentimos que tinha essa demanda por um espaço maior. Então evoluímos para um espaço de mais ou menos 1,5 mil pessoas, que é o que a gente faz agora no Hotel Fiesta e começamos bem. E nesse formato que a gente gosta. Colocamos uma banda para abrir, uma banda de funk para fechar. Meu show sempre tem convidados e é bacana porque a gente sabe que o público gosta dessa diversidade, que tem um “quê” de Carnaval.
 
BN - Fora este projeto, o que de novo o público pode esperar de Alexandre Peixe?
 
AP – A gente acabou de gravar um no final do ano passado. É um CD de estúdio com o título “Burburinho” também. Não é marketing não, é que o disco acabou tendo muitas participações bacanas e achamos que, como o burburinho tem essa definição de bochicho, a gente entendeu que o formato do disco, como ele ficou, também era um burburinho. Transitamos ali com artistas diferentes no estúdio. Tem participação de Ivete Sangalo, Reginaldo Rossi, Jorge e Mateus, Márcio Victor, Israel Novaes e Armadinho. Então, se você olhar, tem instrumentista, cantor de arrocha, de pagode, de música brega, de axé, de sertanejo. Então o Burburinho é um pouco disso. A gente quer que isso acabe se desdobrando para um DVD, porque o CD de estúdio nos prepara para ter conteúdo e repertório para um trabalho de imagem. É um caminho natural, mas não temos data ainda.