'Ninguém vem mais para cá pela música, vem pela pegação', diz Netinho sobre Carnaval de Salvador
Netinho deixou o Carnaval de Salvador este ano para curtir o do Rio de Janeiro. Aliás, não foi só o Carnaval. Ele se mudou de vez para a cidade maravilhosa. Tão maravilhosa que ele faz questão de exaltar as qualidades da capital fluminense. “Surpreso”, foi o termo que o cantor baiano usou ao relatar uma cena em que viu foliões registrarem o desfile de trio elétrico no Rio com iPhones. Ele fala da popularidade do Carnaval de lá e compara com a festa soteropolitana. “Ninguém vem mais para cá pela música, vem pela pegação”, pontuou, falando ainda sobre a necessidade de renovação do Axé. Netinho ainda conta sobre as mudanças que teve que fazer em seu clipe por excesso de “bumbuns e bebidas” e, no alto de seus 46 anos, faz questão de dizer que não se importa com a idade. “Não me assusta nem um pouco”, contou.
Bahia Notícias - Durante o verão de 2013 você ficou a maior parte do tempo fazendo shows no Rio de Janeiro, onde chegou a desfilar em um bloco durante o Carnaval. Por que você escolheu o Rio para passar essa temporada, ao invés de Salvador?
Netinho - Na verdade, eu me mudei para o Rio. Não passei uma temporada. Mudei minha vida para lá, sem deixar minhas coisas aqui em Salvador. Foi uma opção de vida. Acho que para minha música atualmente o Rio é melhor do que Salvador e boa parte de minha carreira foi feita lá. Eu tive um estúdio no Rio, durante 13 anos, em sociedade com Guto Graça Melo. Foi ele quem conduziu minha carreira solo, depois da saída da banda Beijo. E todo mundo da geração da música popular brasileira, com exceção talvez de Roberto Carlos, gravou nesse estúdio. Com essa revolução tecnológica do “home estúdio”, decidimos desfazer o nosso estúdio há cinco anos. Ai eu trouxe minha parte para Salvador. Durante todo esse tempo que eu fiquei lá, fiz grandes amigos, principalmente na área de gravadoras, rádio, TV. Então achei que nesse momento o melhor para mim seria morar no Rio de Janeiro para refazer essas minha conexões. Queira ou não, aqui em Salvador a gente sempre se acomoda um pouco. Mas eu fico lá e aqui. Agora mesmo estou aqui em Salvador gravando o CD “Beats, Baladas e Balanços – Manual para Baladas”, que é um disco para a noite, com músicas para dançar.
BN - Você disse que, para seu trabalho, é melhor estar no Rio de Janeiro. Você acha que a receptividade do carioca é melhor que a do soteropolitano?
N – Eu não falo da receptividade. Falo das possibilidades de mídia. Com essa revolução tecnológica, a internet tomou uma proporção muito grande na vida dos artistas. E como sou um artista que fiz muita TV na minha carreira, quando dei uma parada, em 2003, fiquei anos sem fazer TV. Agora eu sinto essa necessidade, mesmo com a possibilidade da internet. Eu preciso retornar à TV de uma forma intensa como eu já estive. Então esse foi um dos motivos para minha mudança para o Sudeste.
BN - Você disse durante a folia que Salvador não estava pagando bem para desfilar no Carnaval e que por isso você teria escolhido o Rio de Janeiro. Disse ainda que a folia estaria deixando de ser popular...
N – Nesse momento hoje, em que eu me mudei para o Rio de Janeiro, e eu entendo que isso aconteceria com qualquer artista aqui, é muito delicado para mim fazer qualquer observação sobre Salvador. Porque vão ter sempre aqueles que vão dizer que eu só disse isso porque me mudei. Então eu prefiro me calar e deixar que as pessoas percebam por elas mesmas o que vem acontecendo aqui nos últimos anos. Eu não sou a pessoa que vai ficar dizendo isso. E outra, eu não fiz nenhuma crítica. Aconteceu algo engraçado até nesse verão. Eu morando no Rio e Ricardo Chaves, que é meu amigo pessoal, inclusive, teria “descido o pau” no Carnaval de Salvador em vários veículos. Quando eu soube disso, fiz questão de afirmar que sou amigo dele, mas não compactuo com nada do que ele disse. Não escrevi nada e nem critiquei nada de Salvador. O que eu disse após o meu desfile no Rio foi porque eu fiquei impressionado com o que eu vi lá. Milhares de pessoas seguindo o trio elétrico e tinha gente logo embaixo com iPhones tirando foto. Eu até comentei com o menino da banda que aquele pessoal ia ser todo roubado. E não foi isso que aconteceu. O Carnaval do Rio é realmente algo diferente. E tudo aquilo me surpreendeu, como surpreenderia qualquer pessoa daqui de Salvador. Mas só um detalhe: eu ter ficado fora do Carnaval de Salvador este ano foi uma opção minha. Eu poderia muito bem ter alugado um bloco, como tenho feito todos os anos. Mas eu preferi não gastar esse dinheiro aqui esse ano. Mas isso foi uma opção artística minha. Eu posso estar aqui no Carnaval do ano que vem, ou não.
N – Eu acho que com o passar do tempo, em qualquer área profissional, novas pessoas vão surgindo e precisam de espaço. É normal que pessoas que estão há muito tempo não tenham tanto espaço quanto tiveram naquela época. Às vezes o mercado não amplia na mesma proporção que chegam novos artistas. Você vê no mercado sertanejo que duplas como Chitãozinho e Xororó não estão na mídia como estavam há 10 anos. Acho que isso é uma questão natural. Agora cabe a cada um cuidar do seu trabalho, procurando se renovar, lançar produtos novos, se atualizar. Isso depende de cada artista. Acho que uma pessoa que parou no tempo não pode dizer que perdeu espaço. Acho que isso é uma questão individual de cada artista.
BN – Como você entende essa diferença do Carnaval do Rio de Janeiro com o de Salvador?
N – Acho que os dois Carnavais são bem diferentes. No Rio, a prefeitura não permite a venda de blocos, de abadás. A explosão do Carnaval de Rua lá pediu a intervenção da prefeitura, para manter a ordem. E a última coisa que eles querem ver é abadá. Para ter uma ideia, nas duas semanas que antecedem o Carnaval já tem bloco desfilando na rua e continua nas três semanas depois. Você pode fabricar uma camisa, contanto que não exista a condição da pessoa estar utilizando ela para participar do desfile. Compra quem quiser. E uma falha minha foi não ter ensaiado para tocar marchinhas durante o desfile, porque o público do Rio ama esse tipo de música. Eles curtem realmente, é o tom da festa lá. E quando você começa a batida de uma música, o pessoal já começa a gritar e cantar. Eles curtem o som. Isso não acontece na Bahia há muito tempo. Você começa uma música, o pessoal tá virado de costas, paquerando e não quer nem saber. E quem tá trazendo isso para o Carnaval de Salvador são os camarotes, porque tem DJ lá dentro. Ninguém vem mais para cá pela música, vem pela pegação.
BN – Então você acha que o Carnaval de Salvador está perdendo a essência da popularidade?
Bahia Notícias - Durante o verão de 2013 você ficou a maior parte do tempo fazendo shows no Rio de Janeiro, onde chegou a desfilar em um bloco durante o Carnaval. Por que você escolheu o Rio para passar essa temporada, ao invés de Salvador?
Netinho - Na verdade, eu me mudei para o Rio. Não passei uma temporada. Mudei minha vida para lá, sem deixar minhas coisas aqui em Salvador. Foi uma opção de vida. Acho que para minha música atualmente o Rio é melhor do que Salvador e boa parte de minha carreira foi feita lá. Eu tive um estúdio no Rio, durante 13 anos, em sociedade com Guto Graça Melo. Foi ele quem conduziu minha carreira solo, depois da saída da banda Beijo. E todo mundo da geração da música popular brasileira, com exceção talvez de Roberto Carlos, gravou nesse estúdio. Com essa revolução tecnológica do “home estúdio”, decidimos desfazer o nosso estúdio há cinco anos. Ai eu trouxe minha parte para Salvador. Durante todo esse tempo que eu fiquei lá, fiz grandes amigos, principalmente na área de gravadoras, rádio, TV. Então achei que nesse momento o melhor para mim seria morar no Rio de Janeiro para refazer essas minha conexões. Queira ou não, aqui em Salvador a gente sempre se acomoda um pouco. Mas eu fico lá e aqui. Agora mesmo estou aqui em Salvador gravando o CD “Beats, Baladas e Balanços – Manual para Baladas”, que é um disco para a noite, com músicas para dançar.
BN - Você disse que, para seu trabalho, é melhor estar no Rio de Janeiro. Você acha que a receptividade do carioca é melhor que a do soteropolitano?
N – Eu não falo da receptividade. Falo das possibilidades de mídia. Com essa revolução tecnológica, a internet tomou uma proporção muito grande na vida dos artistas. E como sou um artista que fiz muita TV na minha carreira, quando dei uma parada, em 2003, fiquei anos sem fazer TV. Agora eu sinto essa necessidade, mesmo com a possibilidade da internet. Eu preciso retornar à TV de uma forma intensa como eu já estive. Então esse foi um dos motivos para minha mudança para o Sudeste.
BN - Você disse durante a folia que Salvador não estava pagando bem para desfilar no Carnaval e que por isso você teria escolhido o Rio de Janeiro. Disse ainda que a folia estaria deixando de ser popular...
N – Nesse momento hoje, em que eu me mudei para o Rio de Janeiro, e eu entendo que isso aconteceria com qualquer artista aqui, é muito delicado para mim fazer qualquer observação sobre Salvador. Porque vão ter sempre aqueles que vão dizer que eu só disse isso porque me mudei. Então eu prefiro me calar e deixar que as pessoas percebam por elas mesmas o que vem acontecendo aqui nos últimos anos. Eu não sou a pessoa que vai ficar dizendo isso. E outra, eu não fiz nenhuma crítica. Aconteceu algo engraçado até nesse verão. Eu morando no Rio e Ricardo Chaves, que é meu amigo pessoal, inclusive, teria “descido o pau” no Carnaval de Salvador em vários veículos. Quando eu soube disso, fiz questão de afirmar que sou amigo dele, mas não compactuo com nada do que ele disse. Não escrevi nada e nem critiquei nada de Salvador. O que eu disse após o meu desfile no Rio foi porque eu fiquei impressionado com o que eu vi lá. Milhares de pessoas seguindo o trio elétrico e tinha gente logo embaixo com iPhones tirando foto. Eu até comentei com o menino da banda que aquele pessoal ia ser todo roubado. E não foi isso que aconteceu. O Carnaval do Rio é realmente algo diferente. E tudo aquilo me surpreendeu, como surpreenderia qualquer pessoa daqui de Salvador. Mas só um detalhe: eu ter ficado fora do Carnaval de Salvador este ano foi uma opção minha. Eu poderia muito bem ter alugado um bloco, como tenho feito todos os anos. Mas eu preferi não gastar esse dinheiro aqui esse ano. Mas isso foi uma opção artística minha. Eu posso estar aqui no Carnaval do ano que vem, ou não.
N – Eu acho que com o passar do tempo, em qualquer área profissional, novas pessoas vão surgindo e precisam de espaço. É normal que pessoas que estão há muito tempo não tenham tanto espaço quanto tiveram naquela época. Às vezes o mercado não amplia na mesma proporção que chegam novos artistas. Você vê no mercado sertanejo que duplas como Chitãozinho e Xororó não estão na mídia como estavam há 10 anos. Acho que isso é uma questão natural. Agora cabe a cada um cuidar do seu trabalho, procurando se renovar, lançar produtos novos, se atualizar. Isso depende de cada artista. Acho que uma pessoa que parou no tempo não pode dizer que perdeu espaço. Acho que isso é uma questão individual de cada artista.
BN – Como você entende essa diferença do Carnaval do Rio de Janeiro com o de Salvador?
N – Acho que os dois Carnavais são bem diferentes. No Rio, a prefeitura não permite a venda de blocos, de abadás. A explosão do Carnaval de Rua lá pediu a intervenção da prefeitura, para manter a ordem. E a última coisa que eles querem ver é abadá. Para ter uma ideia, nas duas semanas que antecedem o Carnaval já tem bloco desfilando na rua e continua nas três semanas depois. Você pode fabricar uma camisa, contanto que não exista a condição da pessoa estar utilizando ela para participar do desfile. Compra quem quiser. E uma falha minha foi não ter ensaiado para tocar marchinhas durante o desfile, porque o público do Rio ama esse tipo de música. Eles curtem realmente, é o tom da festa lá. E quando você começa a batida de uma música, o pessoal já começa a gritar e cantar. Eles curtem o som. Isso não acontece na Bahia há muito tempo. Você começa uma música, o pessoal tá virado de costas, paquerando e não quer nem saber. E quem tá trazendo isso para o Carnaval de Salvador são os camarotes, porque tem DJ lá dentro. Ninguém vem mais para cá pela música, vem pela pegação.
BN – Então você acha que o Carnaval de Salvador está perdendo a essência da popularidade?
N – E não acho nada! (risos). Não vou ficar falando de Carnaval. As pessoas percebem sem precisar alguém falar.
BN - Você falou sobre esse seu novo trabalho que tem músicas eletrônicas. Ainda tem a referência das batidas locais?
N - Tem. A bateria é toda programada. Eu optei por não ter bateria acústica, porque perde um pouco a limpeza das faixas, por causa da ambiência da bateria. Então o disco está com esse som, mas tem timbal, bacurinha, todos os elementos de percussão que eu sempre usei.
BN – Você definiria como um disco de axé?
N - Eu falo desse e de todos os discos que eu gravei na minha carreira. Se você procurar minha discografia, eu não tenho nenhum disco todo de música de Carnaval. Nenhum, não existe. Sempre tem balada romântica com violão, banda tocando, sem percussão. Sempre fiz vários tipos de músicas em todos CDs. As pessoas não sabem, porque o que tocou mais na rádio foi o axé. Mas no primeiro disco da banda Beijo eu toquei uma bossa nova. É uma característica minha que eu trouxe dos barzinhos em que tocava. Eu toco de tudo. O axé sempre esteve presente e continuará, porque eu amo o axé. Mas eu gosto de gravar outras coisas também. Me considero, acima de tudo, um intérprete.
N - Sem dúvida. Eu acho que esse ambiente da música popular nos últimos anos está muito confuso. Ontem eu liguei a rádio e estava tocando um axé. E eu fiquei tentando descobrir quem era o cantor. Cheguei a pensar que fosse o novo vocalista da banda Eva. Quando a música terminou, eu descobri que era Jorge e Mateus. Se não dissesse que eram eles, você diria que é uma música da Bahia. Então está havendo essa confusão nesse mercado popular. O sertanejo foi o estilo musical que se elevou nos últimos anos, acima de todos os outros no Brasil. Eles estão tomando para eles o formato do axé e gravam cada vez mais músicas no ritmo do axé. Então o que tem acontecido nos últimos anos na Bahia é que as músicas novas lançadas aqui não têm saído do estado. Não sei o que aconteceu, mas elas perderam o apelo nas rádios brasileiras. Não sei se é uma questão dos compositores. Realmente não sei.
BN - Depois de gravar um clipe no Canadá, o vídeo foi censurado por "excesso de bebidas e bumbum". Você acredita que a medida foi adequada, ou dura demais com o clipe?
N – Na verdade, até hoje a gente não sabe exatamente o que aconteceu. Como o clipe se passa em uma “pool party”, a figurinista achou legal vestir as meninas de biquíni, os homens sem camisa, para entrar no clima. Então o foco acabou sendo os bumbuns. Como era uma festa, tinha muita bebida também. Eu tinha acertado com um programa para lançar meu clipe. Eles fizeram um “making of” e tudo. Ai no dia da exibição, 15 minutos antes de ir ao ar, ligaram dizendo que o clipe não ia ao ar. Depois eles explicaram que o clipe tinha sido vetado por causa do horário do programa, que era cedo. Então foi isso o que aconteceu. A edição que está hoje no YouTube já é a nova, sem o excesso de bumbum. O foco não é mais esse, é a cidade do Rio.
BN - Você está com 46 anos. A proximidade dos 50 te assusta? Vai influenciar em algo com relação a sua carreira artística?
N – Tenho orgulho demais de dizer minha idade, porque cuido da minha alimentação, malho todos os dias. E não me assusta nem um pouco. No meu dia a dia eu levo tudo com muita leveza, com muita brincadeira. Sou brincalhão nas coisas que eu faço. Amo o que eu faço. E acho que vou ser assim o resto da vida. Se não for, eu morro (risos).
Fotos: Caroline Prado/ Bahia Notícias
