Flavinho - vocalista do Pagodart
“A galera acha que por eu ser cantor do Pagodart pode se aproveitar”. Assim Flavinho, vocalista da banda Pagodart, define uma das desvantagens da fama. Mas nesta entrevista ele não fala somente dos shows e do DVD, mas do seu passado em Cajazeiras e de sua família. Fala também sobre o acidente que o ônibus da banda sofreu há quatro anos, e sobre a rivalidade que há entre as bandas de pagode. Confira a entrevista na íntegra abaixo:
Coluna Holofote: Conta um pouco de sua história desde sua infância no bairro de Cajazeiras até sua entrada no Pagodart.
Flavinho: Minha infância foi meio complicada, foi de muita briga [rsrsrs], mas tive uma infância boa em Cajazeiras. Sempre gostei de música e meu primo na época tocava bateria com Márcia Freire. Foi quando tivemos a idéia de formar uma banda só de primos. O nome da banda era “Suingue Mirim”. Depois formamos uma banda que a galera de Cajazeiras gostou muito, que era o “Aventureiros do Samba”. Só que o empresário não sabia ainda se iria investir. Por isso montamos a banda “Trakinos”, foi quando eu conheci Valmir, Murilete, JR, Fábio Baratino. Quando fizemos um show no Festival do Interior e gravamos um CD a banda começou a ‘pegar’ em Cajazeira também. A partir daí Murilete me apresentou a Eliomar, que me fez a proposta para vir para o Pagodart, e graças a Deus estou fazendo seis anos na banda.
CH: E você fazia o que antes de apostar na música?
Flavinho: Eu jogava bola [rsrsrs]. Fiz testes no Bahia e no Vitória. Fiquei no juniores do Ipiranga. Com isso eu ‘filava’ muita aula; levava a chuteira na mochila da escola e deixava os livros em casa. Quando meu pai descobriu, tive que sair do time. Logo depois minha namorada engravidou. Com isso eu fui para um lava-jato, porque tinha que pegar um trocado. Depois consegui um trabalho no Banco do Brasil como estagiário, que era de madrugada, no malote. Nessa época eu já estava no “Trakinos”. Mas quando a banda começou a tocar mesmo não deu para conciliar. Daí pedi conselho para minha família sobre o que deveria fazer. Recebi o apoio deles para largar o banco e continuar na banda, pois era o que eu queria. Nessa história toda eu ainda trabalhei uma semana na Papaiz (fábrica de cadeados), onde eu ganharia R$ 250 por mês. Aí recebi a proposta do Pagodart, quando Eliomar falou que me pagaria R$ 200 por show. Eu me tremi todo.
CH: Há cerca de quatro anos o ônibus em que você viajava com a banda sofreu um acidente. O que mais te marcou nesse acontecimento?
Flavinho: Do acidente ficou uma tristeza imensa. Mas o que ficou depois foram as boas lembranças dos amigos (Elieser, Dida e Denis) que perdemos. Toda vez que a gente viaja e passa pelos mesmos lugares vem uma lembrança de tudo.
CH: Houve algum trauma com relação a isso? Vocês pensaram em parar de tocar?
Flavinho: A maioria da banda. Ninguém queria mais continuar. Os nossos familiares ficaram em cima. Até o fato de Edílson jogar um dia depois, nos motivou também. Ele também conversou com a gente dizendo que não poderíamos parar. Até porque não tínhamos outra coisa pra fazer. Só tinha a música. Mas o trauma mesmo é de ônibus. Qualquer curva ou chacoalhada alguém se levanta assustado. Se o motorista correr demais nós também reclamamos.
CH: A banda Pagodart já é conhecida do público baiano e de alguns outros estados. Mas, o que a fama te trouxe de bom e de ruim?
Flavinho: De bom foi que conheci muita gente boa. Mas o que atrapalha um pouquinho é que a galera acha que por eu ser cantor do Pagodart pode se aproveitar de mim. As pessoas esquecem que eu tenho o meu trabalho e minhas dívidas também. Eu sou um cara que sempre morou na periferia e, apesar de ter casa em outro lugar, continuo freqüentando os mesmos lugares, tomo uma cervejinha no buteco, jogo futebol, etc. A fama é boa, mas bastante complicada [rsrsrs].
CH: Você procura dar apoio às bandas de pagode que estão surgindo agora ou que já existiam, mas não são tão conhecidas?
Flavinho: Após uma ano de minha entrada no Pagodart a banda começou a se estabilizar, mas vieram outras bandas bombando também. E aí pensamos o que fazer para não ficar ultrapassado. Mas decidimos fazer nosso trabalho, porque o sol tem que brilhar para todos. O nosso público gosta do nosso trabalho, e o público das outras bandas gosta do trabalho das outras bandas. Então pensamos que o certo era, ao invés de ter disputa, fazer amizade. É o caso da “Muvuketo”. Toda segunda-feira eu estava na Codeba dando canja com eles. Tem o “Fantasmão” também que é parceiro nosso. Mas hoje em dia cada uma já está com sua estrutura. Quando as bandas estouram as pessoas começam a colocar uma contra outra. Eu digo pra deixar os ‘caras’ ganharem o dinheiro deles, pois o Pagodart já toca bem aqui e toca fora também. Inclusive já fizemos até uma turnê em Portugal. Em relação às bandas que estão chegando agora, eu penso da seguinte maneira: se eu não puder ajudar eu também não atrapalho.
CH: A banda Pagodart é conhecida como “Carreta Desgovernada”. Porque esse apelido?
Flavinho: Essa brincadeira foi Babu quem inventou. Logo quando eu entrei na banda já existia essa onda de briga entre as bandas. Com isso a banda chegava nos show e ele [Babu] dizia que o Pagodart ia atropelar e desgovernar tudo. Dessa brincadeira toda Babu colocou o nome de Carreta Desgovernada. Mas depois do acidente trocamos o nome para “Carreta da Alegria”.
CH: As músicas do pagode são marcadas pela irreverência. Mas o que você acha desta época em que o pagode está sendo conhecido pela erotização nas letras?
Flavinho: Nós tínhamos um patrão. E ele dizia que ia ficar chateado se em um show nosso não tivesse muvuca, empurra-empurra. Tinha que sacudir mesmo. E se o show não fosse assim pode saber que ele mexia em nosso bolso. Então o Pagodart sempre tinha que lançar uma música meio polêmica. Como teve “Tapa na Cara”, que foi bem polêmica, e ele começou a apelar pra esse lado. Tinha que ter as músicas ‘normais’ e as de duplo sentido, como “Toma-lhe Fica”. E o próprio público começou a cobrar isso da banda. Todos os compositores chegavam com músicas nesse formato e pensavam logo no Pagodart. Hoje quem está aderindo a isso também é a Black Stiyle. No geral a galera cobra muito da banda, mas atualmente fazemos menos esse tipo de música.
CH: Você acha que o alarde que fizeram em torno da música “A Soma dos Muitos Doidos” foi desnecessário?
Flavinho: Eu acho que o que fez a música crescer foi essa polêmica. No final de uma gravação no estúdio surgiu essa música. Mas não sabia se iria continuar. Só que essa foi a música que a galera gostou, e ‘pegou’ no CD. Disseram que o Pagodart estava na justiça, que ia ficar cinco anos sem tocar. Mas foi nessa boataria que a música estourou. Não respondemos processo nenhum, mas não tocamos “A Soma dos Muito Doidos” na rádio, nem gravamos pra TV.
CH: Em algum show vocês foram impedidos de executar essa música?
Flavinho: Já tocamos para um prefeito que pediu para não tocar a música da maconha [rsrsrs]. Nós aceitamos, mas quando deu um intervalozinho pra tomar uma água, a galera já estava cantando “A Soma dos Muito Doidos”. Como ele era o prefeito, se ele dissesse pra o público parar de cantar, ia se ‘queimar’.
CH: Ainda há muita rivalidade entre as bandas de pagode da Bahia?
Flavinho: Há sim [rsrsrs]. Tem uma galera que teima em dizer que não tem rivalidade. Mas na verdade tem muita briga. Ninguém quer perder pra ninguém. Você percebe a rivalidade na briga pelos horários de tocar nos shows. Às vezes há também problemas entre as produções.
CH: Qual seu objetivo maior à frente da banda Pagodart?
Flavinho: Eu pretendo ficar no Pagodart muito tempo. Ficar de bengala, mas ficar aqui. Nós estamos sempre ensaiando e batalhando pra colocar a banda para a frente mesmo. A banda e a produção trabalhando pra continuar dando alegria a toda galera.
CH: Para surpresa de alguns, a música do carnaval 2008 foi do Psirico. Vocês têm alguma pretensão desse tipo?
Flavinho: A música do Psirico ajudou a todas as bandas de pagode, inclusive o Pagodart. Havia um preconceito com a música de Pagode. Às vezes nossas músicas eram as mais tocadas, mas no carnaval sumia. Então, quando o Psirico ganhou o troféu Dodô e Osmar com a melhor música do carnaval, todos fomos beneficiados. No ano que vem, todas as bandas vão fazer músicas realmente para concorrer. Na verdade a gente já estava cansado de passar na barra e a televisão não filmar. E hoje, através do Psirico, que ganhou uma força da galera do axé, e da própria letra que é boa, todo mundo vai fazer música pra disputar no carnaval. Espero que o que aconteceu esse ano possa acontecer ano que vem.
CH: Você acha que o pagode na Bahia é de qualidade ou tem muita coisa para ser descartada?
Flavinho: Aqui na Bahia a galera gosta da ‘baixaria’ mesmo. Tanto que o pagode aqui rola o ano todo. Apesar de estar surgindo menos bandas, pois casas de shows de bairros foram fechadas por um órgão que todo mundo sabe qual é, posso dizer que o pagode já deu muito e ainda tem muito que render. As festas geram emprego e diversão para o público. Eu sou pagodeiro de coração, e se for pra torcida do pagode estou dentro.
CH: Qual artista você se inspira ou simplesmente admira na Bahia?
Flavinho: Eu gosto muito do Harmonia do Samba. Xanddy fez uma revolução. Ele chegou com aquela quebradeira, e quem não acompanhasse ficava pra trás. E eu comecei a cantar nesse estilo Xanddy. Muitos outros cantores também, mas nem todos falam. Apesar de ter começado com o estilo Xanddy, procurei com o tempo colocar meu estilo, meu jeito. E graças a Deus hoje tá aí o estilo Flavinho. Hoje as pessoas comentam que eu tenho meu próprio estilo, meu jeito de dançar. Mas eu gosto muito de Xanddy. No axé eu me dou bem com Claudia Leitte, Paulinha (ex-Levada Louca), que é minha amiga, e Ivete Sangalo também.
CH: Você acha que tem público para tanta festa de pagode em Salvador?
Flavinho: Com certeza. Se fizer festa de pagode de mês em mês dá muito certo. Você percebe que muitas vezes eles colocam a grade só de pagode e o evento lota. Então as pessoas deveriam respeitar mais um pouquinho o pagode.
CH: Mudando um pouco de assunto, quando filhos você tem?
Flavinho: Tenho três ‘crionças’. Ana Flávia, Flavinho (Siri) e Felipe.
CH: Seus filhos entendem sua ausência na família por conta das viagens?
Flavinho: Entendem. Eu procuro dar a meus filhos o que eu não tive na infância. O que eles me pedem, que estiver no meu alcance, eu dou. Mas também sou um pai brabo. Na hora que tem que ir pra escola ou que está xingando eu sou brabo mesmo.
CH: Fala um pouco sobre o CD que vocês estão lançando e sobre os projetos da banda, inclusive o DVD.
Flavinho: Tem muita música boa; muitas inéditas. A maioria das músicas eu, Franklin e Fábio que compomos. Estamos lançando esse CD agora para a galera aprender as músicas, pra quando chegarem os ensaios que estamos querendo fazer no verão, todo mundo estar com a música na ponta da língua. Logo depois vamos gravar um DVD. Ainda não sabemos se será aqui em Salvador, no Wet’n Wild, em Fortaleza ou em Manaus. Nesse DVD não devemos resgatar muitas músicas antigas, mesmo porque temos muitas inéditas pra gravar. Mas que serão gravadas quando a galera já tiver conhecendo através desse novo CD. Ainda não foi definido se vai ter ou não convidados na gravação, mas o convidado de quebradeira que eu queria é o Xanddy. Para isso temos que acertar ainda a questão das agendas. Os ensaios provavelmente ocorram na Ed Dez, mas não está nada certo ainda. E para o carnaval temos fechado o Bloco Mel e o Traz a Massa.
Por Rafael Albuquerque