Tatau - Cantor
Nesta entrevista, Tatau revela que não tem mágoa de D. Vera, mas ressalta que ele e o Ara Ketu seguem caminhos diferentes, e que o público não precisa escolher entre um e outro. Podem curtir os dois. Tatau fala sobre sua saída do Ara Ketu, a sonoridade dessa nova etapa, o medo dos quarenta anos e principalmente os novos projetos. Leia a entrevista na íntegra abaixo:
Coluna Holofote: Conta um pouco sobre sua trajetória. Como você começou na música.
Tatau: Eu comecei minha história na música de forma contundente na adolescência, quando comecei a curtir os ensaios dos blocos afro. Eu tinha 14 anos e freqüentava o ensaio do bloco Puxado Axé, e me empolguei muito com as músicas e com a batida afro. A partir de então comecei a freqüentar os ensaios do Olodum, Ilê Aye e Muzenza, onde inclusive fiz parte da ala de canto. Desde então eu comecei a tomar gosto pela condição de dançar e de cantar. O Ara Ketu me encantou no ano em que saí no Muzenza e resolvi sair do bloco e observar a passagem dos blocos afro. Fiquei enfeitiçado quando vi. Minha ida para o Ara Ketu na verdade se deu por causa de um amigo meu chamado Antônio Paturi. Eu tinha feito a música “Protesto Olodum” e fui editar na antiga CBS, que se transformou na Sony Music. Como o Paturi era muito amigo da Vera, ele fez essa ligação. Fui para o Ara Ketu como compositor, porque não me considerava cantor na época, mas lá eu fui crescendo junto com todo o trabalho que o Ara Ketu desenvolvia, até eu me transformar no que considero um cantor em evolução.
CH: Como foi sua saída do Ara Ketu? O que te levou a sair da banda?
Tatau: Meu foco inicial era ter uma coisa que eu pudesse chamar de minha obra. Muitas pessoas não sabem, mas eu não era dono do Ara Ketu. Na verdade eu era um funcionário de luxo, muito bem tratado por todos. Tinha amizade com todos, porém, não era meu. E sempre tive vontade de criar alguma coisa, mas nada por vaidade. Eu queria criar com foco, com desenvolvimento, com idéia. Não buscava sair aleatoriamente de um trabalho que eu tinha 23 anos para fazer uma coisa louca. Isso vai ficar muito claro no novo disco, que das 14 músicas eu tenho 12, algumas em parceria. Então, eu queria fazer um trabalho meu, um trabalho que tivesse minha assinatura, meu todo.
CH: Você sente falta de alguma coisa no Ara Ketu?
Tatau: Não. Diria que das amizades, apesar de que boa parte dos músicos que eram do Ara Ketu hoje tocam comigo. A base percussiva, o sopro, o diretor musical continuam comigo. Minha essência continua. Eu posso dizer que não tenho mágoas do Ara Ketu, aliás, eu só tenho que agradecer a banda. O Ara Ketu me deu régua, compasso e papel.
CH: Qual sua relação com D. Vera? E com os integrantes da banda?
Tatau: Não tenho nenhum tipo de problema com D. Vera, com Geraldo, Cristiano e nem com Alessandro. Tenho muito respeito e muito carinho por eles e pela banda. Mas é claro que agora eles continuam com o Ara Ketu e eu agora trilho um caminho diferente.
CH: E agora, em sua nova fase, quais são suas aspirações?
Tatau: Diria que em curto prazo o que aconteceu na minha carreira foi a mudança de endereço. O meu trabalho continua o mesmo, mas é lógico que procurei evoluir na sonoridade. Busquei um trabalho cada vez mais calcado na minha linha de composições. O que eu busco é que as pessoas começem a se acostumar com o Tatau solo. É uma etapa que eu sei que não é fácil, pois é complicado desvincular isso. Eu nunca tive pressa de que as coisas viessem a acontecer. Sempre fui uma pessoa muito tranqüila, pois sei que meu trabalho é sólido. Eu reuni pessoas que acreditam no meu trabalho e que eu acredito no trabalho deles. Acho que tudo vai acontecer; tudo vai dar certo. Eu acredito muito na qualidade do trabalho, e tenho toda paciência do mundo se as coisas demorarem um pouco. Tomara que não, peço a Deus que não. Está tudo acontecendo muito bem em minha vida.
CH: Você acha que o reconhecimento da mídia e do público estão vindo como o esperado?
Tatau: Está sendo maravilhosos. Eu sempre tive uma relação muito boa com a imprensa. No meu histórico com o Ara Ketu a imprensa sempre foi muito cordial comigo. O público tem se acostumado e tem um carinho muito grande por mim. Para o meu primeiro ano em carreira solo - meu disco ainda está saindo - eu posso dizer que após o carnaval eu fiz uma bela quantidade de shows apenas no “nome” e no empenho de minha equipe. Não tinha disco ainda. Tinha uma música que era “Vai dar Praia”, pois eu não poderia começar uma carreia solo sem assunto.
CH: Você está tendo dificuldades para seguir em carreira solo?
Tatau: É inegável. Eu sempre fui um cara muito cabeça tranqüila em relação ao que poderia acontecer em minha carreira. O medo que paira na cabeça de qualquer ser humano são os quarenta anos, porque vivemos num país onde a partir dessa idade a pessoa é considerada velha para algumas profissões. Pesa muito começar um projeto a partir dessa idade. Mas eu penso que as atitudes te renovam, te dão gás. As atitudes de desenvolver um projeto que é seu te dão muito pique e isso te rejuvenesce muito. Então, quando foquei em criar esse projeto, acreditava que com minha empolgação, a empolgação de minha equipe e do público, ganharia um pique no trabalho. Tanto é que hoje me sinto nos meus vinte anos. Estou produzindo muito. A gente se pergunta como será a aceitação do público? Será que meus amigos da época do Ara Ketu continuarão meus amigos? Será que o carinho do público vai continuar? Será que é um momento partidário em que as pessoas vão escolher um lado para ficar? Eu descobri que não. As pessoas não procuram curtir somente Tatau ou somente Ara Ketu. Elas podem curtir tudo.
CH: Você gravou um CD recentemente. Neste trabalho você procurou seguir um ritmo musical ou preferiu misturar?
Tatau: Eu acho que o que mais acertei em minha carreira foram músicas românticas e músicas de carnaval. Nos últimos anos já não gravava mais o segmento romântico no Ara Ketu, e eu busco resgatar isso neste CD. Nove músicas do meu disco são calcadas no segmento carnavalesco, que é uma fatia do mercado que eu gosto muito. No CD tem samba-reggae e inclusive uma homenagem ao bloco Muzenza. É um disco que busquei por dois lados meus que mais repercutiram.
CH: Você acha que Larissa te substituiu a altura no Ara Ketu?
Tatau: Eu diria que a palavra substituir nesse caso não cabe porque o Ara Ketu deixou bem claro que o projeto pós Tatau seria altamente diferente. Primeiro porque vem com uma mulher, que por sinal e muito talentosa, que canta muito bem. Uma figura que eu tive poucos contatos, mas que virei fã do trabalho que ela faz. Eu sei que não está sendo fácil para ela, assim como não está sendo fácil para mim. É natural que ela chegue num lugar e que as pessoas não consigam entender a idéia de que o palco agora é de uma mulher e não mais de um homem. Eu só tenho a desejar sorte a ela, que já segurou uma barra imensa no carnaval.
CH: Para terminar, quais são seus projetos futuros?
Tatau: Já definimos que vão ter os ensaios de verão. Tem quatro lugares que estamos cogitando com muito carinho. No próximo dia 16 vai ser o lançamento do meu CD no Rio de Janeiro, que será muito impactante. O evento contará com shows do Sorriso Maroto, de Perlla e DJ Malboro. Após esse lançamento no Rio, vamos levar esse projeto a São Paulo e trazer para Salvador. Aqui só falta confirmar a data. Em relação ao carnaval, já fechamos com o bloco Nu Outro, mas faltam alguns detalhes para que em breve possamos divulgar a agenda completa.
Por Rafael Albuquerque