Peixe fala de projetos, admite não ter um vozeirão e que já foi chamado de
Por Rafael Albuquerque
Fotos: Tiago Melo / Bahia Notícias
Coluna Holofote: Peixe, quando surgiu a vontade de conciliar a composição com a carreira de cantor?
Alexandre Peixe: Eu acho que a vontade de cantar sempre existiu, até porque eu já fiz barzinho, projetos que não tinham uma estrutura profissional. Acho que depende muito da oportunidade que te chama. A vontade que você tem, mas que você espera para que essa vontade venha ser um projeto de carreira. Foi exatamente quando eu montei o show ‘axé das antigas’ na antiga Fashion Club (Maddre), movimentamos a casa nuns seis meses, e assim aconteceu meu contato com Rodrigo Melo, do Grupo Notável, que me fez um convite formal. Na época eles tinham Claudia Leitte estourada pelo Brasil e outros produtos. Enfim, vimos que tínhamos uma possibilidade real de tocar esse som e ir pra frente. Foi a partir daí que eu decidi levar a carreira de cantor mais a sério. Isso foi há uns cinco anos.
CH: Você se inspirou em algum artista baiano?
AP: Tem muito artista que nasce com o cacoete de ter o traquejo de cantar do artista a, b ou c. Eu nunca vi com comentários de que eu canto igual a ninguém, e também nunca fui afixionado por nenhum artista. Eu sempre tive muita admiração por alguns artistas na Bahia pelo fato de eu ter tido contato antes da carreira de cantor. Praticamente todos os artistas, principalmente os de trio-elétrico, eu tinha contato, principalmente com Bell e Durval. Pouca gente sabe disso, mas Bell foi quem me incentivou a cantar. As pessoas só me relacionam a Bell como compositor, mas ele o primeiro a me chamar atenção para isso. Na época eu gravei até duas músicas no estúdio com Bell. Ele queria me produzir e levar para a gravadora que ele fazia parte, só que eu não tinha banda, e era muito difícil a gravadora abraçar uma história assim ainda sem existir. Faz a palavra dele foi um estímulo que foi muito importante para eu decidir pela minha carreira de cantor.
CH: Seus blocos e seus eventos são conhecidos pela quantidade de gente bonita. Você acha que veio preencher o espaço deixado pelo Bloco Eva que deixou de ser o metro quadrado mais bonito da avenida, como era chamado antes?
AP: É um trabalho de grupo. A Diva, que executa o Harém em parceira do Grupo Notável nesse projeto, desde a época do “axé das antigas” eles convidavam e “pulseiravam” as mulheres quatro dias antes. As pulseiras eram enormes e chamativas. E do buxixo que convidar a mulherada gerava, tiveram a ideia de levar isso para o carnaval. O nome que simbolizava essas muitas mulheres era justamente o Harém. O que eu acho que resgata a pergunta com relação ao Eva é que os blocos abandonaram o trabalho social. Ao longo dos anos o carnaval começou a atrair tanta gente, tanto camarote, a dar tantas opções que o trabalho do corpo-a-corpo, das festinhas, dos comissários foi esquecido. O Harém recuperou o trabalho de galera, de ir aos barzinhos e nas academias convidar, e aí criamos uma identificação com esse público.
CH: Então era seu interesse atingir esse público específico?
AP: Sim. É um grupo que se identifica e por isso a marca Harém acaba tendo esse perfil.
CH: Você toparia participar de eventos populares como Salvador Fest, Pagodão Elétrico ou Muquifest?
AP: Eu já fiz alguns eventos assim. Eu fiz eventos com Aviões do Forró, uma banda muito popular, já fiz evento com Exaltasamba. A gente quando toca no rádio não escolhe a classe social. A gente é artista e quer atingir o máximo que podemos. Queremos ser reconhecidos, admirados. Eu acho que entrarmos num perfil de festa popular é uma oportunidade para transitarmos entre os públicos.
CH: Em seu site há alguns canais de contato com o público. Como é essa relação com os fãs?AP: A questão das redes sociais nos deixa muito próximos e também muito expostos. Mas é uma ferramenta importantíssima, pois ficamos sabendo, em tempo real, se o pessoal gostou dos shows, além de outros benefícios. E toda vez que sou “detonado” ou há alguma reclamação, eu levo para reunião, mando CD autografado, damos um feed back. É um retorno em tempo real.
CH: Bem, onde tem gente bonita tem muita azaração. Você já foi muito paquerado pelas garotas em seus eventos?
AP: Eu lido tranquilamente com isso. Tenho uma relação muito boa com os fãs, pois desde que fazemos as músicas damos uma capitaneada nesse clima de azaração que tem o Harém. Me divirto, levo na esportiva, abraço, dou beijo, tiro foto, mas sempre com uma relação respeitosa. Se não houvesse essa relação eu até sentiria falta.
CH: Em 2008 você casou com a administradora de empresas, Larissa Forgas. Ela tem muito ciúme de suas fãs?
AP: Sim. Quando eu não dou tanta atenção às meninas ela me critica. Ela acha que temos que retribuir o carinho das pessoas. Só quando estou apressado para compromissos que não dá para dar uma atenção maior. Nem sempre a gente está 100% disponível, mas isso não quer dizer que não somos acessíveis ou que não gostamos dessa relação com os fãs.
CH: Você não tem vontade de tocar mais dias no carnaval de Salvador ou é falta de espaço?
AP: Eu tenho vontade de tocar mais dias no carnaval. Eu respeito muito os passos dados de forma segura. O que sempre buscamos com o Harém e com o Open Barra era criar um produto que tenha identificação com a gente. Já toquei em outros blocos sendo contratado, adorei a experiência de fazer isso, mas acaba que a gente não domina a execução do bloco, não domina o marketing do bloco e não domina o social do bloco. Então, acho melhor irmos devagar, mas sempre com produtos com o nosso perfil, da maneira como queremos conduzir a carreira. É claro que o artista sonha em tocar todos os dias no carnaval. A gente faz os carnavais em outros lugares, mas se tivéssemos mais dias no carnaval de Salvador seria bem melhor, porque aqui é o maior carnaval de rua do mundo e a visibilidade é muito grande.
CH: Além do bloco, você também tem o Camarote Harém. É um mercado muito lucrativo?
AP: Ainda é. Tem produtos que com certeza são muito rentáveis, mas o carnaval de Salvador tem um excesso. São tantas opções que o folião tem com blocos, carnavais e circuitos, que para vender 5 ou 6 mil abadas não é muito fácil. Tem muito aventureiro que entra nessa e se dá mal.
CH: Você já tocou no carnaval do Campo Grande? Qual a diferença para a barra?
AP: Já fiz Campo Grande. Acho que a diferença é que lá é o circuito que começou tudo, tem uma mágica especial. Mas a Barra ficou muito tentadora para quem está tocando, pois o tempo inteiro tem um camarote te vendo com uma TV te filmando, e no Campo Grande são só alguns pontos. Por isso acho que os tradicionais estão indo para a Barra. Mas tudo é um ciclo. Vai chegar um tempo que vão perceber que a Barra está saturada. Quem sabe não chega o dia em que vai ser chique tocar no Campo Grande porque a gente vai estar lidando com a simbologia do tradicional. Tem também o tal do circuito Cidade do Axé, que segundo Durval é um caminho parecido com alguns carnavais indoor de hoje. Quem sabe um carnaval como esse não desafogaria mais os outros circuitos e teria um domínio de execução mais privado.
CH: Atualmente, alguns artistas dizem ganhar mais com shows do que com venda de CD’s e DVD’s. E você, ainda aposta nessa mídias como uma fonte de renda ou somente pra registrar seus trabalhos?
AP: Talvez uma artista como Ivete Sangalo venda DVD’s e sobre uma margem para ela. Mas no geral, um DVD virou um panfleto. A gente está planejando fazer um registro visual agora, mas queremos fazer para dar. Tanto que nem queremos gravadora, pois as pessoas não compram porque a pirataria já tomou o mercado por conta do preço. Tem também a falência do mercado fonográfico que não injeta mais, com raríssimas exceções, verba na carreira dos artistas. Então o que sustenta a carreira do artista é o show, e para a gente rodar a indústria dos shows, precisamos chegar com o repertório para as pessoas. Isso gera meio que uma obrigação de gravar CD’s e DVD’s para atualizar as pessoas, e depois voltarmos para fazer shows, que é nossa receita hoje. Temos também as redes sociais onde disponibilizamos as músicas para download. Tenho parcerias com Beto Garrido e sempre peço a ele para disponibilizarmos as músicas gratuitamente para ficarem conhecidas, e depois temos o retorno através do Ecad por conta das execuções.
CH: Você faz muito sucesso em Minas Gerais. Mas tem muito artista que lota casa em outros Estados, mas em Salvador são fracos de público. Você se encaixa nesse perfil?
AP: Eu não sei, pois temos uma sequencia boa de trabalho em Salvador. Estamos sempre próximos do público daqui. Mas Minas é um Estado que tem quase 900 municípios, e os mineiros adoram carnaval. Tem muita micareta o ano inteiro. O público mineiro criou uma identificação com os artistas, principalmente os mais jovens, porque são foliões que acompanham nosso trabalho desde o início.
CH: Voltado às composições, para quais artistas você já compôs?
AP: Aqui na Bahia eu já fui gravado por Ivete, Daniela, Chiclete, Asa, Cheiro, Araketu, Jammil, Tchan, etc. Eu também fui gravado pelos Morenos, banda carioca em que Waguinho cantava, pelo Rastapé, banda de forró paulista, pelo KLB, por Cesár Menoti e Fabiano, Jorge e Mateus, Maria Cecília e Rodolfo, etc.
CH: Mas são músicas que você compõe para determinados artistas ou eles te pedem?
AP: Tem de tudo um pouco. Às vezes você compõe sem pensar em ninguém e surge a oportunidade de mostrar a música, a pessoa gosta e grava. Outras vezes o cara liga, você pesquisa e faz uma coisa mais direcionada para o artista. Mas funciona bem das duas maneiras.
CH: Mas de suas composições, qual mais te marcou ou qual você prefere?
AP: Eu sempre falo quedas músicas que pontuaram minha carreira. Por exemplo, “Tá Tudo Bem”, em 1999, Ivete gravou e foi o Troféu Caimmy de melhor composição. Isso foi importantíssimo. Em 2003 “Voa Voa”, que uma canção minha e de Beto Garrido, foi a música do carnaval. Depois veio uma sequencia com o Chiclete com “100% Você”, “Não Vou Chorar” e “A Fila Andou”, tem também Claudinha que gravou “Me Chama de Amor”. Essa nova geração sertaneja que me procura muito é de grande importância. Talvez da nova geração do axé, eu seja o artista mais envolvido com os músicos sertanejos. Eu acho bacana e nós dialogamos com o público sertanejo numa boa.
CH: Você é muito bom de compor para os outros, mas para você cantar, você prefere você mesmo compor, ou prefere composições de outros artistas?
AP: Eu continuo no mesmo método. Eu gravo as músicas que eu faço, mas também gravo a galera. Eu não sou fechado para isso. Se você ver meu DVD, terá umas seis canções de outros artistas. É claro que a prioridade se inverteu, Quando eu era só compositor, eu queria que a galera gravasse, agora eu gravo e depois enviou para outras pessoas.
CH: Fazendo uma auto-análise, você acha que canta ou compõe melhor?
AP: Olha, eu prefiro ir no caminho de Chico Buarque que eu me identifico muito. Uma vez eu fui dar uma entrevista no rádio e o cara anunciou que ‘Alexandre Peixe era o Nando Reis do axé’ (rsrsrs). Aí eu fiquei pensando: no Titãs ele cantava poucas músicas, mas tinha muitas como compositor. Depois ele passou a ser o principal compositor de Cássia Eller, compôs para Skank, J. Quest, etc, e de repente ele estava fazendo a carreira dele, e eu achei fantástico. Eu não acho que ele seja um cantor, intérprete. Não é um cara que vai pegar o repertório dos outros, vai cantar e chamar atenção pela questão de qualidade vocal, mas eu acho fantástica a forma como ele grava as músicas dele, ele tem uma característica muito própria do canto. Foi por isso que eu citei Chico Buarque. Ninguém vai dizer que Chico Buarque tem um vozeirão, que é um cantor de rádio como os clássicos cantores dos anos 40, mas ele sabe dar vida para as obras que ele cria da forma que ele acha que é melhor. Eu me considero um compositor que canta, como diz Herbert Viana. Se eu não fosse compositor, talvez ninguém quisesse gastar um real comigo, pois eu não tenho um vozeirão. Mas se você se propõe a criar um material bom, a renovar material e produzir conteúdos próprios com seu perfil e sonoridade, você acaba traçando um caminho onde aquilo casa de forma a você dar um recado sem precisar ser um virtuoso da voz.
CH: Agora fale um pouco de sua polêmica música “Ela é Total Flex”.
AP: (rsrs) Sabe que eu nem acho ela polêmica. Vou dar exemplos históricos de marchinhas de carnaval. Tem: “Maria Sapatão, de dia é Maria e de noite é João” e “Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é”. Aí veio Raul Seixas que gravou “Rock das Aranhas”, que trata de uma relação entre lésbicas. Carlinhos Brown gravou “a namorada, tem namorada”. Então, os artistas são cronistas das coisas que estão rolando. Total Flex é uma gíria que trata de uma relação que sambemos que existe. Nós tratamos o tema sem preconceito, sem apologia, sem levantar bandeiras. A gente traz uma temática bacana e não adianta fechar o olho.
CH: Para finalizar, fala um pouco das novidades para verão e para o carnaval?
AP: Eu quero lembrar das redes sociais. Estou no Twitter @AlexandrePeixe, no Facebook.com/alexandrepeixe e no site oficial www.alexandrepeixe.com.br com muitas novidades. Acabei de lançar um disco de remix com o DJ Rambo, tecladista do Asa de Águia, e está disponível no site para ouvir e algumas músicas com disponibilidade para baixar. Agenda e novidades e também estão no site. O camarote Harém continua no mesmo lugar e tem também os ensaios que estão rolando. O verão promete, pois teremos artistas vindos de lugares diferentes aqui para o Harém.
