Amanda Santiago diz que sua alma não é timbaleira e fala do seu novo projeto, Kombinação
Verdadeira, porém, enigmática. Assim pode ser traduzida a cantora e ex-timbaleira, Amanda Santiago. Apesar do tempo longe da Timbalada, ela confessou que hoje, seu trabalho possui influências da escola que foi a banda do Candeal e contou sua relação com seu eterno padrinho, Carlinhos Brown que, inclusive, apoiou a saída de Amanda da Timbalada. Nesta entrevista, Amanda responde sobre suposta briga com integrantes da Timbalada, fala da “amizade” com o cantor Denny e o que pensa da banda sob o comando do mesmo. E quando o assunto é Kombinação, os olhos de Amanda brilham, a voz entusiasma e é impossível pensar o contrário sobre a felicidade de Amanda. Aliás, sempre que o assunto era Kombinação nesta entrevista, Amanda ia direto ao ponto, chegando a disparar: “A alma de Amanda Santiago é Kombinação, lhe garanto isso. Não é timbaleira, não” . Para entender um pouco mais de Amanda Santiago, só lendo esta entrevista e interpretando cada resposta. Aí, você terá que tirar suas próprias conclusões, já que Amanda responde, não se esconde, mas sai pela tangente. Decifre-a se for capaz!
"Muita gente me pergunta porque eu saí da Timbalada. Eu saí porque eu sabia que ia ser difícil"
Coluna Holofote: O que é que Amanda Santiago está fazendo atualmente?
Amanda Santiago: A gente está acertando os detalhes do DVD que vamos gravar no dia 30 de julho, em Aracaju, tem o projeto Kombinação, que é um projeto que a gente vai toda semana para a área de exclusão social, onde a gente pretende incentivar a cultura no bairro. Nesse projeto, a gente conta com o apoio da Piatã FM.
CH: Como é esse projeto:
AS: Toda semana a gente vai num bairro daqui de Salvador e distribui cesta básica, brindes, kit escolar. A gente toca em cima de uma Kombi e são 30 meninos ao redor da Kombi tocando instrumentos inusitados. Nosso foco é mais nas comunidades, nas escolas públicas e particulares, porque foi uma forma que a gente encontrou de incentivar a cultura. O que é que a gente faz? A gente chega nos bairros, fala com rádios comunitárias, uma semana antes e a gente busca saber quais são os artistas que têm naquele bairro. Na verdade, a gente quer descobrir esses novos talentos para minha pesquisa musical. Então, a gente descobre muitos compositores, muitos cantores, muitos dançarinos e aí eles se apresentam em cima da Kombi quando a gente chega no bairro.
CH: Há quanto tempo existe esse projeto?
AS: Eu já estou fazendo esse projeto há um ano.
CH: E de quem foi a ideia desse projeto?
AS: Minha e de Mikael Mutti.
CH: Tem um assunto que é inevitável. Você ia muito bem na Timbalada e, de repente, veio a sua saída. Você acredita que saiu da banda na hora certa?
AS: Exatamente na hora. Timbalada é uma escola e eu saí com 25 anos e trouxe tudo de bom da Timbalada. Tanto que hoje, eu tenho um trabalho de percussão, mas eu procuro sempre inovar, justamente para poder orgulhar a minha escola. Então, eu saí na hora certa para poder mostrar isso para Carlinhos Brown e para a Timbalada toda.
CH: Quando você estava na Timbalada, a gente ouvia falar mais em você. Hoje, fazendo um balanço, você se arrepende de ter saído da banda?
AS: Não. Hoje eu estou fazendo mais um trabalho de base, eu estou olhando mais nos olhos das pessoas, eu estou fazendo esse trabalho nas periferias, eu estou com uma parceria muito forte em Sergipe, inclusive, eu passei pela Timbalada no Lagarto Folia, no trio, e foi tão bom para mim. Então, eu acredito que todos que passaram pela Timbalada já saíram, né? Tem Denny que hoje está lá representando muito bem a Timbalada, mas que eu acredito que também, em breve, vai ter vontade de fazer o trabalho dele, eu acho. Eua Cho que todo mundo tem. Timbalada é a cara de Carlinhos Brown, Brown é a cara do timbau e está tudo misturado entre eles três. E isso tem que servir de lição, de escola realmente para quem sai de lá. Então, eu me sinto muito completa, porque eu entendi o que era a Timbalada.
CH: Mas você está lutando e vendo que não é fácil, até mesmo para você que já vinha de uma história, de uma banda forte. Você acha que o mercado do axé está saturado de cantoras, principalmente?
AS: Não. Tem muita coisa para vir, tem muita coisa para surgir e nós estamos só começando. A partir do momento que você tem artistas tão inventivos como Carlinhos Brown, Daniela Mercury, tão preocupados com a questão do novo aparece cada vez mais a vontade de um artista que está começando, querer mostrar seu trabalho e tem espaço para todo mundo.
CH: Lhe incomoda quando as pessoas se referem a você como ex-timbaleira?
AS: Não, porque o próprio Carlinhos Brown já me disse que eu sou eterna timbaleira e isso me faz muito feliz. Essa é a verdade que tem no meu coração.
CH: Então, a alma de Amanda Santiago ainda é timbaleira ou ser timbaleira se resumia a cantar na banda e pintar o corpo?
AS: A alma de Amanda Santiago é Kombinação, lhe garanto isso. Não é timbaleira, não. Timbaleira é a história de Amanda Santiago. Mas minha alma é Kombinação, é esse trabalho que eu faço hoje e não penso em outra coisa. Eu respiro Kombinação. É um negócio tão mágico na minha vida, que eu sou feliz da vida.
CH: E os fãs da Timbalada, lhe acompanham?
AS: Todos. Até porque, quando eu saí da Timbalada, a 1ª vez que eu apresentei essa banda foi no Sarau du Brown. Brown me deu a oportunidade de cantar na frente do palco dele e eu me apresentei pela primeira vez lá. E para a gente apresentar esse show, Brown me levou no BATV e me mostrou e falou uma coisa muito interessante: “Gente, por que é que Ivete Sangalo é timbaleira, Chiclete é timbaleiro, Durvalino é timbaleiro e Amanda Santiago tem que ser ex-timbaleira? Bota eterna timbaleira” e eu fiquei toda arrepiada. E eu acho que isso aí gerou um conforto para os fãs timbaleiros e isso fez com que eles abraçassem a causa de ficar comigo também. E eu sou muito feliz de tê-los comigo.
CH: Você fala de Carlinhos Brown com muita paixão. Como é a sua relação com ele?
AS: Eu tive a honra de conhecer Carlinhos Brown quando eu tinha dois anos e eu cresci ouvindo tantas idéias, tantas coisas que ele tinha.
CH: Carlinhos Brown é amigo da sua família?
AS: É. E ele tem uma relação muito boa com qualquer pessoa, eu acho que com quem quer que seja que entre na Timbalada. Eu acho que todo mundo que já fez parte da Timbalada tem uma relação muito próxima com a família de Carlinhos Brown, até porque, Timbalada não tem concurso para entrar, é todo mundo muito próximo. E Timbalada e Carlinhos Brown têm essa relação de família comigo. Eu tenho o maior orgulho de falar que ele é meu padrinho, meu padrinho, meu padrinho.
CH: Como você entrou na Timbalada?
AS: Eu entrei na Timbalada quando eu tinha 17 anos e foi graças a Carlinhos Brown, que acreditou mesmo no meu trabalho. Porque eu falava “não quero, não sei cantar” e ele dizia “sabe, ‘vumbora’”.
CH: E hoje, ele te ajuda?
AS: Muito, muito, muito. A gente se cobra muito, a gente se cobra, se vê e a gente tem muito carinho um pelo outro. Eu tenho muito amor por Carlinhos Brown. Eu só saí da Timbalada porque eu tive o apoio dele. Se eu não tivesse o apoio dele, eu não sairia, não.
CH; Então, ele apoiou a sua saída da banda?
AS: Muito. E ele acompanhou cada instrumento novo que eu criava, cada música que eu estava gravando, é uma pessoa que quer muito o meu bem. Foi ele quem me deu a primeira música de trabalho, chamada “Macumba Baby”, eu que amo cantar. É uma pessoa que me quer muitíssimo bem e eu a ele e a toda família dele.
CH: Quem é sua inspiração?
AS: Influência total em Carlinhos Brown e ele adora que eu faça essas coisas, ele adora saber que eu entendi o que ele quis dizer quando ele me falou de Timbalada. Muita gente me pergunta porque eu saí da Timbalada, como você me perguntou e eu saí porque eu sabia que ia ser difícil e é bom que seja. Eu entrei com tudo na minha mão, porque a Timbalada é um reino, é tudo muito lindo e eu entrei numa missão multirracial e consegui atingir esse objetivo. E eu aprendi a cantar na Timbalada. Hoje eu sou uma cantora de verdade.
CH: Amanda, muito tempo já se passou e os rumores de que você saiu por ter brigado na banda persistem. Afinal, você saiu da Timbalada motivada por uma briga?
AS: Como é que pode ter havido briga numa banda tão gigante como a Timbalada, tão linda, que eu levo no meu coração? Seria impossível ter briga. Teve, sim, uma vontade muito grande, minha, em fazer um trabalho que eu já vinha sonhando em fazer. Às vezes, eu estava num show da Timbalada e eu via as asas, os túneis, que hoje compõem o Kombinação, e eu comecei a ver que eu precisava ter o meu início. E quando você sai de uma banda grande, você precisa começar do zero, porque você está começando a sua vida. E eu fiquei com muita vontade desse desafio, porque eu comecei a ver que era muito natural isso. E, olhe, quando você tem uma boa ideia, foco, aí, com certeza, você chega lá. Eu tive uma boa ideia, continuo tendo boas idéias, vivo em torno de pessoas com boas idéias e vou adiante, seguindo minha vida sem me preocupar com o que vai ser daqui para a frente. Eu olho na luz e vou seguindo adiante.

"Eu acho que Ninha está no momento dele, está num momento de descoberta e não descendo ladeira abaixo"
CH: Quando Ninha saiu da Timbalada, muita gente disse que a Timbalada ia acabar, porque as pessoas acreditavam que ele era quem segurava a banda. Você acreditou nisso?
AS: Oxe, nunca acreditei. É porque, quando a gente vive lá, o mundo é diferente. Eu acreditei e acredito na Timbalada. Naquela época, a gente tinha um bom disco na mão, “Alegria Original”, com “Cachaça”. E eu acredito, também, no sucesso de Ninha. Eu vejo, por exemplo, as bandas de pagode. Três cantores numa banda e aí, de repente, um faz um trabalho, o outro, o outro, cada um faz uma coisa e isso não é comentado. As entrevistas não são muito voltadas para esse lance de “ah, você saiu dessa banda e agora?”. Eu fico feliz em saber que o pagode consegue se ramificar e todos conseguem ter sucesso. E nas bandas de axé, isso não acontece. Mas eu acredito no tempo. Hoje eu tenho 29 anos e eu já estou há algum tempo fazendo esse trabalho e estou, a cada dia mais, com a certeza de que eu estou muito, muito feliz. Eu tenho a parceria com Sergipe, tenho o bloco Trote em Feira de Santana, que a gente ganha pelo 3º ano consecutivo como Melhor Bloco, eu participo hoje de todas as micaretas e uma coisa que é muito importante falar: eu nunca tive empresário, é tudo independente.
CH: Dizem as más línguas, que a carreira do cantor Ninha está descendo ladeira abaixo. Você concorda com isso?
AS: Não, eu acho que não. Eu acho que Ninha está no momento dele, está num momento de descoberta.
CH: O que você acha da Timbalada hoje sob o comando de Denny? Você acha que Denny está conseguindo levar bem a Timbalada, mesmo sozinho?
AS: Ele não está sozinho, né? Ele está com o timbau. E Denny é sucesso, sucesso para ele, ele merece, é um menino bom, é um menino que tem uma história boa.
CH: Você e Denny são amigos?
AS: A gente se gosta muito.
CH: Vocês se falam, trocam idéias?
AS: Trocamos energias boas.
CH: Dizem que todo mundo que ganha Troféu de Cantora Revelação acaba se desrevelando. Você diria que é a prova viva desse “ditado”?
AS: Não. Eu não acredito no projeto exclusivamente comercial, projetado para isso. Mas o cantor, a pessoa física, ele jamais se desrevela. O artista que sabe o que quer, ele vai se revelar todo ano e tem artistas que são projetados somente para aquele ano, porque, às vezes, as pessoas não sabem o que fazer com isso no ano seguinte. É porque não tem regra. Às vezes, você projeta um time de empresários, mas faltou a arte e às vezes, você tem a arte, mas faltou o empresário, então, uma coisa precisa muito da outra. Eu sou uma artista independente, tenho a minha arte e estou na busca do empresário ideal, eu quero muito, mas também, estou concluindo o que Amanda Santiago apresentará para o empresário ideal. E as pessoas me cobram muito mais pelo fato de eu ter saído de uma grande banda.
CH: Você já tentou engatar com uma banda própria (Dindy e os Rogérios). O que não deu certo?
AS: Quem disse que não deu certo? Não. É a mesma banda de sempre, só que Carlinhos, naquela época do Sarau Du Brown, ele apelidou dessa forma, porque Dindy é o apelido que ele me chama e os Rogérios foi o apelido que ele deu aos meninos da banda. Mas não era nome de banda, nunca tive nome de banda.
CH: Seus ensaios de verão sempre bombam. Você se considera uma cantora de verão?
AS: Se eu me considero uma cantora de verão? Como é que eu posso ser uma cantora de verão se eu faço Kombinação o ano todo?
CH: O que você faz quando o verão passa, você continua com os ensaios?
AS: Ensaio, não. Eu faço Kombinação. Porque Kombinação é show, menina. Kombinação são duas horas de show. Kombinação é banda, show mesmo, som bom. É aquele som de Kombi “banana, maçã”, é. Eu não vou tirar a essência da Kombi, não. E um dia minha Kombi vai ser uma nave espacial, vai ser meu Trivela, meu Guetho Square. Eu acredito nisso. A gente faz um trabalho sério. Os meninos tocam na Kombi de terno, eu de figurino, eu canto minhas músicas todas, “Macumba Baby”, canto as da Timbalada, “Cachaça”.
CH: E para o próximo verão, quais são os planos?
AS: A Kombi vai para tudo quanto é canto, você não tem noção. “Vamos invadir ‘a la’ boate”! Da mesma forma que eu faço Kombinação nas periferias, eu já fiz Kombinação em festas fechadas de empresas, em aniversários, casamentos, formatura, é só levara Kombinação que já vai pronta, não precisa de palco, já vai com cantor, instrumento, homem de lata, então, nosso ensaio vai para qualquer lugar, com tudo pronto. E quando a gente chega, as pessoas gostam, porque é diferente, é novo e você ouve de tudo, é uma batucada boa.
CH: Você leva sua Kombinação para a periferia. Por que não fazer para as demais classes? Você acha que falta a elite abraçar essa causa?
AS: O foco da Kombinação é a periferia. Sabe por quê? Porque eu acredito muito na opinião popular. Com relação a levar a Kombinação para o centro, para as outras áreas, a gente levou outro dia para a Madrre e foi legal e as pessoas gostaram mesmo. Nas festas fechadas, a gente leva a Kombinação, mas não tem brinde, aí não fica tão bacana, é mais ensaio mesmo e como a gente tem o objetivo de estar ajudando de alguma forma, então, a gente foca mais nas comunidades carentes, porque a gente deu tanto kit escolar, nós ajudamos tanto na educação.
CH: Você está toda apaixonada pela Kombinação, mas você vive de quê? Afinal, Kombinação não paga suas contas, paga?
AS: Não. Kombinação é só dia de quarta-feira. Eu vivo dos meus shows no final de semana. Kombinação para mim é a minha gasolina. Não só porque eu chego num lugar e ajudo as pessoas com os brindes, mas também porque quando eu chego num lugar e um artista local sobe nessa Kombi, o meu show do final de semana fica muito melhor, porque o que eu aprendo com essas pessoas, você não tem noção.
CH: Num dos seus ensaios, no verão passado, você recebeu Alinne Rosa no palco e juntas, vocês cantaram a música “Uma noite e meia”, trilha do beijo de Alinne e Daniela Mercury, que se repetiu em seu show. Afinal, quem tentou beijar quem?
AS: Ninguém, é só olhar o vídeo. Eu vi o vídeo depois e dei foi risada, porque tinha assim na notícia “Amanda tenta beijar Alinne Rosa”. Eu liguei para ela rindo muito e falei “minha filha, eu tentei te beijar” e a gente riu muito com isso, porque eu não tentei beijar Alinne. No vídeo está muito claro. E ela cantou essa música porque o público pediu e eu queria que ela cantasse também. Mas não tenho interesse de beijar, não. Eu só beijo minha Kombi na boca.
CH: Você estava trabalhando junto com o seu namorado, Mikael Mutti. É difícil trabalhar com o namorado?
AS: Ele sempre teve o trabalho dele. A gente fez esse trabalho, porque Mikael é um cara muito criativo e nós começamos a viajar juntos nas idéias e sempre que ele tinha uma ideia ele me dizia e eu ia materializando, mas o projeto Amanda Santiago é de Amanda Santiago. Então, eu não misturei isso. No início dos meus shows, ele até tocava mais comigo, depois a gente começou a colocar outro no lugar. Mas ele sempre me apoiou e eu desejo que ele tenha sucesso nos outros trabalhos que ele tem. Ele tem a banda dele, a “Percussivo Mundo Novo”.
CH: E essa história de que Amanda Santiago está de casamento marcado?
AS: Menina, tudo porque eu participei de um desfile de noivas. E eu estava tão feliz no dia, porque eu estava avisando a todo mundo que eu ia fazer o DVD e aí, como eu estava vestida de noiva, eu estava toda empolgada com a brincadeira e comecei a gritar “eu vou me casar, eu vou me casar, eu vou me casar”, porque eu estava de noiva. Daqui a pouco, quando eu leio o jornal: “Amanda Santiago vai se casar”. “Com quem?”, a única coisa que eu me perguntei foi isso.