SOU PAGODEIRO TAMBÉM
Esta semana, de tanto as pessoas me perguntarem, finalmente resolvi ver o You Tube de Susan Boyle. Tomei mais um murro no olho. Olha, do começo ao fim do vídeo, confesso minha mais profunda emoção para com aquela moça, que ao entrar no palco foi em principio motivo de risos contidos e caras de rejeição, e que ao sair dele, foram trocadas por aplausos efusivos e semblantes extasiados.
Fica claro no vídeo que Susan Boyle sofreu preconceito antes de cantar. Pois bem, nossa Bahia também tem sua Susan Boyle: o pagode baiano. Nossa figura gorda e desengonçada foi acusada de ser uma porcaria ridícula, e de ter letras chulas e de mau gosto. Decerto, talvez, por se tratar de uma expressão musical que foge ao conceito pré estabelecido pelos ilustres, nossa faceira gordinha baiana (o pagode) tenha sido colocada no limbo. Mas pra quem não sabe, o pagode está inserido no contexto da musica baiana há pelo menos 20 anos ou mais. Antes mesmo dele se tornar o pagode que vemos hoje, os artistas de então, como Paulinho Camafeu com suas rodas de samba, Fio Luna (inspirador da Timbalada segundo Carlinhos Brown) com seu samba de praia, e Pintado do Gongo já agitavam as comunidades como um som e um ritmo pra lá de diferente.
O nosso pagode é tão antigo que, naquele tempo, também as comunidades dos bairros saíam na época do São João com seus blocos de sambas, os chamados "sambas de são João", tradição mantida até hoje nos bairros do subúrbio de Salvador. Nesta época também foi feito pelo selo Estalo Produções (selo artístico responsável por lançar vários artistas baianos no sucesso nacional) e produzido por Cristovão Rodrigues (o criador do Axé), radialista e produtor artístico, e pelo também produtor Ricardo Cavalcante (Papá) o primeiro disco de samba gravado na Bahia. Com o titulo de "Unidos do Capim, vários artistas de samba cantaram neste disco. Só para constar, neste disco foi lançado também o cantor Tatau, cantando uma faixa em dueto com Daniela Mercury.
Daí pra frente o pagode começou a aparecer, sofrendo ao longo do tempo diversas mutações rítmicas. Mas o termo "pagode" nunca mais saiu da boca do povo. Seu começo, como muitos pensam, não aconteceu com o sucesso do Gerasamba. Nos primeiros anos da década de 90, uma banda de pagode chamada Só de Onda fez pela primeira vez uma apresentação em um programa de televisão em rede nacional.
Indo ao ar no Programa Livre, com Serginho Groisman, a banda mostrou a todo o Brasil duas dançarinas vestidas de cachorro dálmata, cantando “Melô do Au Au”. Foi o que bastou para tornar o pagode baiano, a partir daquele dia, uma febre no Brasil, que foi invadido algum tempo depois pelo E ó tchan. Dentro dos anos 90, sempre em mutação rítmica, nosso pagode continuou em alta, com varias bandas se alternando na preferência popular, como acontece ate hoje. Podemos citar desta década Samburica (Melô do Tuitui), Gang do Samba, Companhia do Pagode, Nata do Samba, Terra Samba, Raça Pura (O Pinto do Meu Pai), Boquinha da Garrafa, Harmonia do Samba o próprio É o tchan, entre outras.
A historia do pagode se confunde com nosso Carnaval moderno. Dentro da nossa festa eclética, o pagode mostrou que chegou pra ficar, sem dever nada a ninguém. O grande barato do carnaval é saber que todos os ritmos se misturam em uma só alegria. Quem nunca desceu ate o chão? Quem não cantou “Calma” com a Guig Guetto há alguns carnavais atrás, ou então "Kuduro" com o Fantasmão neste mais recente Carnaval ou "Balacobaco", do Parangolé? Ou então não dançou com o Psirico de Marcio Vitor? Ou quem ainda quem nunca foi à “melhor segunda feira do mundo”, com o Harmonia do Samba?
Meu espaço é pouco para falar de todas as bandas de pagode que gosto. No mais, sou pagodeiro também, sou de todo e qualquer ritmo que a Bahia produza. Só em saber que mais um ritmo da minha terra invadiu e leva alegria a todo Brasil, já é motivo de orgulho. Um forte abraço para o pagode da Bahia.