Peça "Partiste", clássico do teatro baiano ganha nova versão
No inverno de 2010, a simplicidade e a delicadeza de Partiste, uma peça teatral impregnada de afetos e saudades, tocou os corações dos espectadores baianos. A sensação era de que o público chegava a sentir o cheiro do bolo quente e do café fresquinho que a personagem principal da trama preparava na cozinha de sua casa numa pequena cidade do interior da Bahia. Vencedora do Prêmio Braskem de melhor texto, a obra reafirmou o prestígio do dramaturgo baiano Paulo Henrique Alcântara, autor de outras peças bem-sucedidas, como Lábios que Beijei, Bolero e Maldita Seja. Treze anos após a estreia, Partiste está de volta numa nova encenação, em cartaz de 21 a 24 de setembro, às 19h, no Teatro Martim Gonçalves (Escola de Teatro da UFBA, Canela). A montagem também será exibida nos dias 04 e 05 de outubro, às 19h, no Teatro Gregório de Mattos (Praça Castro Alves). Em ambos os espaços, os ingressos terão preços populares: R$10 (inteira) e R$5 (meia-entrada).
Quem dirige o espetáculo é o ator, encenador, professor e mestrando em artes cênicas Ícaro Bittencourt, um dos talentos da nova geração da cena teatral da Bahia (ele atua como protagonista no longa-metragem Longe do Paraíso, o mais novo filme do cineasta Orlando Senna, lançado em 2020). Ícaro assina, ainda, a direção musical, a produção e o cenário de Partiste (este último em parceria com o conceituado artista plástico Zuarte Júnior, também criador dos figurinos). Em sua concepção cênica, o diretor investe nas memórias e na prosódia de cinco personagens que representam a gente do interior baiano, através de uma encenação na qual o “amor é palavra sem poeira”.
A peça é protagonizada por uma das atrizes mais respeitadas do teatro baiano: Márcia Limma, a consagrada intérprete do solo Medeia Negra, com o qual foi indicada como melhor atriz ao Prêmio Braskem de Teatro (2018) e ao Prêmio Cenym Nacional de Teatro (2019). Márcia participou de espetáculos importantes da cena teatral contemporânea da Bahia, a exemplo de Meu Nome É Mentira (direção de Luiz Marfuz), O Castelo da Torre (Meran Vargens), O Segredo da Arca de Trancoso (Cláudio Machado) e Holocausto Brasileiro – Prontuário da razão degenerada (Diego Araúja).
Em Partiste, a experiente atriz interpreta uma senhora bordadeira, mãe que chefia a economia da casa com a venda de seus bordados e atravessa os dias vivendo as dores, os afetos e as alegrias de sua família na cidadezinha de Livramento de Nossa Senhora. Ela encabeça o elenco formado por Carol Alves, Daniele Souza, Luzia Barbosa e Ruan Passos. Para o diretor Ícaro Bittencourt, trata-se de um espetáculo sobre a vida cotidiana da gente simples dos nossos brasis. Ele dedica a sua encenação “às mais velhas e aos mais velhos que construíram um lugar físico e simbólico aconchegante no interior de nossas famílias, nos acolheram, passaram suas experiências e nos deixaram partir com ânimo, esperança e com as suas bênçãos”.
Acessibilidade
Ícaro Bittencourt dirigiu peças como Quase Nada (do autor cearense Marcos Barbosa) e NA (TAL) REVOLUÇÃO (de sua autoria). Nesta última, teve a ideia de proporcionar uma sessão inclusiva com audiodescrição e intérprete de libras na cidade de Santo Antônio de Jesus, onde nasceu. Na temporada de Partiste, ele volta a investir em propostas de inclusão: elaborou um roteiro audiodescritivo e contou com o apoio de Cíntia Santos (intérprete de libras), Gésner Braga (audiodescritor narrador) e Marcos Lavor (consultor em audiodescrição). Todas as exibições do espetáculo irão contar com esses recursos de acessibilidade.
Autobiografia e invenção
Ao ambientar a ação de Partiste no início da década de 1970, é verdade que o autor Paulo Henrique Alcântara buscou referências na própria infância e no lugar onde nasceu, a cidade de Livramento de Nossa Senhora, no sudoeste da Bahia. Das frutas e comidas típicas de interior ao linguajar, há um sotaque familiar. Mas o resto é ficção. Humor e melancolia, fantasia e angústia, fé e esperança são sentimentos universais, ricamente trabalhados pelo vencedor do mPrêmio Braskem de melhor texto em 2010.
Escrita que persegue a humanidade - vide os textos de Lábios que Beijei (1998), Bolero (2001) e Maldita Seja (2023), dentre outros -, Paulo Henrique define Partiste como um canto de saudade Afinal, foi sob o luto pela partida do pai que ele criou a história e deu vida aos cinco personagens que desfilam em cena: a Mãe, os filhos Dolores, Ceci e Brás e Ruzinha (a tia doente). Misturando autobiografia e invenção, referências literárias - de Jorge Amado a José de Alencar - a televisivas (novelas como Irmãos Coragem e Selva de Pedra), também mostra que a arte pode ser instrumento para se repensar a dor e recobrar a coragem. O curioso é que à lembrança do tempo em que Livramento era um lugar onde havia sempre alguém sentado na porta, com suas casinhas com cara de maconchego, junta-se o fantasma de quem foi e não voltou, partida para a cidade grande e os seus perigos, e a necessidade imperiosa de reter a memória. Coloca no caderno nossas lágrimas e nossos contentamentos. A chegada de um, a partida de outro, o maxixe do almoço. A vida nossa de cada dia dita a Mãe para Ceci, que faz um diário para o irmão Jairo, tido como desaparecido após viagem a São Paulo. Partiste foi publicado em 2015 pelo Selo Literário João Ubaldo Ribeiro (Fundação Gregório de Mattos).
