A 'Caetanear' com Saulo Fernandes
"Somos a Bahia de um mar inteiro/Somos a fumaça de um mensageiro/Somos pretos e cantaremos a nossa cor". Vendo esses versos e um pouco mais, foi assim que comecei a assistir ao primeiro trabalho solo do cantor Saulo Fernandes e seu novo DVD ”Saulo ao Vivo”, depois de treze anos à frente da Banda Eva.
Logo de cara, a faixa que abre o DVD “Raiz de Todo Bem”, composição do artista, faz perceber que Saulo, diferentemente do caminho que tem tomado a cambaleante e óbvia música baiana, resolveu resgatar por completo os ritmos que fizeram da nossa terra e da nossa música uma referencia nacional. “Salvador, Bahia/ Território Africano/ Baiano sou eu é você somos nós” são os primeiros versos do samba-reggae que diz ainda no seu refrão: “África iô iô/Salvador meu amor minha raiz/de todo bem de tanta fé/do canto candomblé”. O cantor faz uma lotada plateia cantar em coro toda a musica, como num grito de reafirmação da condição da maioria negra, em uma cidade, quase sempre, preconceituosa.
Após cantar a atual música de trabalho, Saulo atacou com a conhecida “Preta”, que foi a primeira aposta da nova fase do cantor, e sua última música na Eva. Depois disso foi que a coisa ficou mais séria. Eu, sinceramente falando, pensei que veria apenas mais um bom trabalho de um regular artista baiano mas, tive a mais grata surpresa dos últimos tempos.
“Singela Bruta" – para mim, a faixa mais linda do DVD – parceria de Saulo com o compositor Lau, faz um abre alas para surpresas musicais do DVD, com um Saulo expondo sua veia poética, seu lado sensível e seu quê de genialidade. A letra da música retrata e desnuda de forma singular o orgulho feminino de forma exata, simples até. Expõe, sem ofender, a beleza da mulher em ser ela mesma, em ser doce e brava, insegura e orgulhosa, dócil e indomável, tudo isso ao mesmo tempo e, no seu tempo, perfeita!
Daí em diante o DVD se torna uma festa só. Do pagode às levadas a la Luiz Caldas, passando pelo reggae raiz ou nas baladinhas românticas como a releitura em cordas de “Anjo”, “Tão Sonhada” e “Só Por Ti”, a trajetória musical da obra faz com que ela seja consumida com uma profunda curiosidade e expectativa, faixa a faixa, uma após a outra. Uma coisa é fato, neste novo momento de Saulo, ele não está sozinho, de longe vê-se que ele tem o que de melhor um artista poderia querer ao seu lado numa nova fase: excelentes músicos e sinceros amigos.
Da banda que o segue posso destacar dois caras para representar a todos: seu tecladista, arranjador, diretor musical e tricolor Adriano Gaiarsa (Adriano faz uma referencia ao time do Bahia na faixa “Vú que eu te disse”) e o fenomenal e diferenciado baixista Léo Pinheiro. Mas se engana quem acha que o menino vindo da cidade de Barreiras, no interior da Bahia, somente tem essa carta na manga para mostrar. Ivete Sangalo, a quem carinhosamente chama de Maria (a cantora se chama Maria Ivete) faz com Saulo um dueto memorável no melhor estilo Axé anos noventa, que reafirma musicalmente a parceria firmada comercialmente entre eles.
Saulo é sincero, as vezes até se expõe, como no seu making of, quando se emociona ao falar sobre seu fãs. Vi que naquele momento ele sabia claramente da responsabilidade que tinha por todos que o adoram e tenta retribuir da forma que pode esse amor. Saulo compreende essa energia, que de tão forte o faz chorar, e se coloca pequeno diante de tudo isso.
Voltando ao palco. a festa continua, com todo o axé - no sentido próprio da palavra - e com a licença dos seus guias, espíritos da floresta, anjos e um sem fim de entidades presentes e quem fazem parte do mundo místico de Saulo. O desfile de surpresas não para até o fim. Fim, eu disse fim? Creio que falei errado. Tudo no DVD dele é um recomeço, da música ao gesto, de jeito a forma, Saulo pode se dar ao luxo de “Caetanear”, de ser bárbaro, doce e meigo sem parecer piegas, ou caricato sem parecer forçado, apenas sendo Saulo Fernandes.
Lerifore!
Luis Ganem
twitter:luis_ganem
