Fiquei 'a la vonté' para falar
Estou tentando, há um tempo, falar dos novos talentos da música baiana. Sim! Até mesmo porque, como coloquei há uns dois meses, é importante falar sobre a nova geração de artistas profissionais à espera de uma chance de entrar no mercado e, ao mesmo tempo, dar espaço a essa galera tão pouco prestigiada; divulgando seus trabalhos para um público maior, como o do Bahia Notícias, ou os colocando à prova de quem queira ver o novo, o desconhecido, o futuro da nossa música.
Mas, e sempre tem um “mas”, um quê de curiosidade fez sua ação. Outra vez, foi feito um grande desvio no meu texto e lá fui eu conhecer um novo projeto, que inundou as redes sociais na sua divulgação, falando sobre a junção de tarimbados músicos – ou, pelo menos, experientes profissionais da área – que apostaram na visibilidade das suas carreiras para fazer música bacana e divertida, sem a obrigação de um retorno financeiro, ou coisa assim.
Estou falando do Alavontê, projeto criado pelo músico, arranjador e produtor Manno Góes (Jammil); o cantor, arquiteto e empresário Durval Lelys (Asa de Águia); o produtor artístico e também músico "mestre" Jonga Cunha (Banda Eva); Ramon Cruz; Magary Lord; Ricardo Chaves e o radialista, poeta, produtor e multifaceta André Simões. Juntos, e aparentemente ser ter nada pra fazer (diz o release), resolveram, tomando uma boa cerveja gelada – acredito eu – criar um som – ou fazer um som, melhor dizendo – que não tivesse obrigação de nada, tudo à vontade, ou Alavontê, como resolveram chamar.

E lá fui eu ver o Alavontê, muito à vontade, diga-se de passagem. Mas também deveras curioso em saber se era à vontade mesmo, ou conversa fiada, que o som fluiria sem a preocupação dos caras com nada – som, luz, palco, aceitação da galera. Enfim: se as ansiedades e inseguranças normais dos artistas que estão na estrada não estariam presentes no evento.
De chegada, um bom sinal. Músicos renomados, uma boa parte do empresariado musical, produtores e contratantes de fora, a mídia em geral, gente bonita e, para a minha grata surpresa, o prefeito da cidade do Salvador, ACM Neto, para quem abro um adendo: para mim, conotou de forma clara, na presença do prefeito, a preocupação e o interesse direto dele com os rumos da música baiana – no caso especifico do axé – e, de quebra, talvez, em olhar algo do projeto que pudesse vir a ser aproveitado, com pensamentos mais populares. Por exemplo, levar o som da rapaziada para o reeditado projeto Boca de Brasa (fica a dica), ou mesmo dar uma força ao ritmo que a rapaziada representa. Mas, seja lá o que for, o importante é que o homem estava lá. Ponto para ele.
Bom, na visão geral, foi tudo muito bacana. Todos muito felizes, enfim. Aquele velho texto de release. Mas, a mensagem que vi no projeto foi um pouco mais do que bons amigos se encontrando para tocar. Alavontê é, na minha visão, uma crítica ao jeito que os empresários do axé têm conduzido a música baiana, onde nem o novo consegue entrar e nem o velho quer sair. Mesmo com minhas ressalvas quanto a alguns erros do projeto, como o cantor Ricardo Chaves, com suas “tabas” e “bichos” da vida, que na minha visão são desnecessários ao andamento do conjunto, fica claro que a ideia é, mesmo, de ser tudo feito de modo tranquilo e sem arroubos. Nasceu para buscar um nicho de mercado e mostrar que, com vontade, se faz o novo.
Meu espaço para texto é pequeno, mas elejo alguns momentos do projeto para citar: a simplicidade de Durval Lelys – talvez, a maior estrela de todos os “alavontês”, sem se importar em cantar, tocando sua já famosa gaita, como se estivesse começando no Bar do Belisca (ficava no bairro de Ondina) –; o sorriso de Manno Góes, dando risada até do som que ficou “Alavontê”, sem ninguém ouvir nada por um bom tempo; e a cara de criança do mestre Jonga Cunha, que, da percussão, tocava com cara de quem fez traquinagem. Até a tentativa de se reviver o apagado cantor Ricardo Chaves, com seu jeito de eterna estrela, com músicas velhas e cansadas, teve seu ponto positivo. Só fiquei preocupado de ele resolver dizer, empolgado com a festa, “vem, vem, vem, vem comigo veeeeeeeeem, bichooooo” e aquele som de teclado começar a tocar a música faraônica. Cruz credo!