
Quem nunca sonhou em ser um cantor de sucesso? Você, artista novato ou leitor amante da música, que agora lê essa coluna, já não se imaginou sendo aplaudido por milhares de pessoas que, insistentemente, mesmo sabendo que não dá para ouvir nada com o barulho do trio ou do palco, teimam em acenar com a mão, na lúdica esperança de serem vistos?
Ou de ter aquele “tudo mais” que acompanha a gloriosa carreira de artista quando explode e suas músicas viram sucesso nacional, já pensou? Viagens intermináveis, hotéis e mais hotéis, todo tipo de gente a vir falar com você, todos a te bajular, a tirar uma foto para publicar nas redes sociais, a fazer questão de pagar a sua conta ou lhe convidar para algum evento ou festa particular.
E o camarim! Ah! o camarim. Aquela coisa de rei: frutas diversas, comidas especiais, as bebidas mais caras que existem, os salgados finos, os sofás e as poltronas para receber os amigos, garçom, segurança, tudo do bom e do melhor. Sim! Porque camarim de estrela que não tiver tudo que o dinheiro pode comprar não é camarim de estrela.
Agora, depois de ter dito tudo isso eu pergunto: pra que serve um camarim de rei desse, que onera em muito o custo do contratante quando sabemos que nem um terço - um terço não, nem a quarta parte do que ali está - vai ser consumido?
Acho engraçado essa história de camarim. Fico até me perguntando quem foi o louco que inventou isso. Vejo os absurdos que se fazem Bahia, Brasil e mundo afora, e fico me perguntando até que ponto vale tanta mordomia fora de hora.
Por conta de uma conversa sobre camarim fiquei tão embasbacado com o que ouvi que pensei que fosse até mentira. Porque realmente é de se perguntar se um artista que pede para o camarim patê de queijo Camembert (queijo francês de pasta mole) ou água mineral da marca Minalba que custa R$ 3 a garrafa de 270ml, deixando claro que, caso esses itens não constem no camarim, o melhorzinho da música não canta, usa isso em casa, e o tempo todo.
Olha, nada contra que, no sucesso do artista, e sabendo ele que o contratante está ganhando fábulas de dinheiro com a voz dele, certos mimos sejam pedidos. Mas sinceramente, usar o sucesso como pretexto para excentricidades que não fazem a mínima diferença é um pouco demais.
Chega a beirar a demagogia ver um artista na televisão pedindo donativos para as crianças com fome em algum raio que o parta desse Brasil e ver a produção dele no show solicitar lagosta pra ele e todos os seus convidados, com risco de o show não acontecer se não vier o prato pedido. Me bata um abacate, me faça uma garapa, duvido que na casa desse ou dessa babaca se coma lagosta todo dia mas como pimenta nos “olhos” dos outros é refresco...
E o mais revoltante disso é constatar que, ao final do show, a estrela vai deixar para trás uma quantidade de comida para abastecer umas 40 pessoas, e que as exigências feitas pela produção nem sequer foram consumidas pelo “ser de outro mundo”.
É até compreensível que a produção queira deixar o camarim arrumado, sem aquela cara de barraco de madeira (quando a estrutura é feita em madeirite), que tenha um ar condicionado, mesas legais e cadeiras e até uma logística de produção bacana como: água, cerveja, refrigerante e sanduíches. Até ai tudo bem. Mas fora isso, tenha dó. Por isso que os caras do sertanejo (e olhe que sou bairrista) estão dando de dez a zero até nisso.
Soube que Gusttavo Lima pede uma galinhada no camarim, e que, normalmente, quando dá, fica esperando no ônibus atrás do palco. E estou falando de um dos shows mais procurados do momento. Lógico, sei também que existe uma raça de empresário e produtor pilantra que se vacilar, nem o mínimo de estrutura quer dar a uma banda. Mas essas “carniças” são poucas e, ao que sei, estão cada vez mais fora do mercado.
Está na hora disso mudar. Show quando é bom tem que ser bom para as duas partes. Do que adianta esse monte de pedidos se o show não vende e o contratante quebra? Que raça de artistagem é essa que só pensa no pirão primeiro? Pediu o cachê, teve o valor pedido pago, estrutura de show atendida, pra que a palhaçada do camarim? Quer dar festa para os amigos? Banque! Mande tirar do cachê seus mimos, suas águas importadas e suas caixas de whisky. Isso tem que acabar, essa história de que artista é excêntrico é conversa para boi dormir. Artista é um trabalhador como outro qualquer, que está ali para defender seu trocado. Pra alegrar e entreter as pessoas e receber por isso. A distinção a ele se faz por deferência, por educação, e não por obrigação como tem sido.
Já passei por isso. Sei o que é ter que comprar algo fora do normal para atender às exigências da produção, e sei também a raiva que dá ver que nada foi tocado ao final do show.
Chega, chega mesmo. Balançar Matheus está ficando pesado, muito pesado!
Luis Ganem
twitter:@luis_ganem