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Coluna

A volta da crise - será?

 

Pra variar, a mesma conversa voltou a rodear o mercado artístico baiano: a crise que está passando o ritmo do axé. Já havia dito em um outro momento que isso era passageiro, e chegou um tempo em que, particularmente, achei que havia acontecido uma reação - o que ainda acho, por sinal. Mas começo a ouvir em um canto e outro que a coisa não é bem por aí. Um quê de insatisfação e preocupação com as nuvens no horizonte começou a surgir.
 
Além disso, existe uma palavra que sempre ronda as conversas da crise: renovação. Mas em se tratando de renovação, dessa vez fiquei me perguntando: existem espaços hoje, na noite de Salvador, para descobrir talentos? Onde, em que bairro, está o espaço que a moçada utiliza pra ser vista e mostrar seu som? Comecei minha trajetória na vida musical em um período da historia da música da Bahia que algumas estrelas foram descobertas tocando na noite. Artistas hoje consagrados tocavam e tocaram em espaços pequenos e barulhentos, mas para um público cativo, que lotava os bares e deixava muita gente de fora. 
 
Quem não lembra por exemplo do bar do Belisca, que ficava no bairro de Ondina, onde Durval Lélys tocava - salvo engano - toda terça ou quarta-feira com a casa lotada, uma moçada bonita, gente querendo entrar que não acabava mais. Acho até que a frase "que galera é essa, meu irmão!" foi dita, pela primeira vez, ali, para o irmão dele, Ricardo Lelis, de tanta gente que ficava na porta para ver Durval cantar (risos!). Aliás, não somente Durval, como uma boa galera da música frequentou e tocou no espaço, a exemplo de Manno Góes (Jammil) e Átila Lima (cantor e compositor), que tocavam nesse começo de carreira juntos, ali no palquinho do Belisca. 
 
E como o belisca, diversos outros bares davam espaço para o novo ser visto. Quem não lembra do Canteiros, Trambar, 33, Portal, Adriano's, Quereres etc. Eles marcaram época, e trouxeram a reboque muita gente boa como: Netinho, Carla Cristina, Ivete Sangalo, Leco Maia, dentre outros.
 
Mas o mais importante celeiro da música desta época foi sem dúvida o Bar Stella Maris. Caramba, como esse bar foi importante para a nossa música e quanta gente boa saiu de lá. Gente do naipe da cantora Daniela Mercury passou por lá e fez história, como o humorista Renato Fechine (que além de ator de humor é produtor, músico, publicitário etc...), o cantor e compositor de boa parte dos sucesso do axé, o paraguaio (sacanagem, ele é uruguaio!) Jorge Zarath, Reinaldo do Terra Samba e Mano Moreno do Braga Boys. Amigo, essa casa foi tão importante para o axé que, voluntariamente, mesmo depois de se tornar conhecidos, alguns artistas continuaram a frequentar o espaço.
 
Olha, isso ficou tanto em minha cabeça que resolvi pedir ajuda aos amigos para saber se existiam novos lugares de boa música e de novos talentos na cidade ou não. Para minha surpresa, obtive boas respostas. Existem sim novos espaços na cidade do Salvador. Existem sim novos talentos surgindo e querendo ser vistos. O que é preciso se mostrar isso, é dar chance a essa galera, que tanto luta por um lugar ao sol.
 
Sei que a crise de axé passa em muito pela forma usurária e predadora com que o contratante de shows foi tratado pelos empresários do ritmo Axé quando ele estava em alta. Se existe algum culpado pela crise instalada hoje na nossa música, somos nós mesmos. Mesmo que hoje ninguém admita o erro, e tente imputar ao sertanejo universitário, ou ao arrocha de Goiás a culpa de tudo (culpa eles têm, principalmente no quesito copiar, mas não de tudo) é importante verificar que árvore em que só se colhe os frutos, sem cuidar, sem se podar pra crescer, seca e morre. Assim se fez com o axé.
 
É preciso dar oportunidade do novo surgir. Cortar custos, se corta. Diminuir cachê, se diminui. Mas sem a renovação, ficaremos fadados ao fracasso por completo, sem sombra de dúvida.
 
Jylló Fonseca, Edu Barreto, Liu Meneses, Ingrid Lino, Laís Marques e Brena Gonçalves, conhece? Não? Pois essa galera e muito mais gente boa está aí fora pra ser vista.
 
Acorda galera, enquanto ainda é tempo!
 
Luis Ganem
Twitter: @luis_Ganem