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Domingo, duas da tarde. Chego cedo ao trio de Mari Antunes. Liberado meu acesso, assim que subo, sou informado pela assessoria da banda que Mari já se encontrava no camarim e me atenderia antes de começar a cantar. Ali aguardando, sou tocado por um detalhe que podia não ser nada, mas para quem acredita na conspiração do universo, era um prato cheio.
O trio estava parado em frente à casa da cantora Ivete Sangalo, mais superpositivo que isso, impossível. Detalhista, percebo, diferentemente do que se possa imaginar, que um artista aspirante ao estrelato pode ter também uma grande equipe, tão qual uma artista consolidada como Ivete. Maquiadores, figurinistas, produtores e mais uma gama de profissionais ali presentes subiam e desciam pela escada do trio, envolvidos na preparação da saída da banda e da cantora, nervosos e preocupados, como se não pudessem errar.
Ao acessar o camarim, encontro uma Mari aparentemente calma, sorrindo o tempo todo. Ganho um abraço e, como faria uma grande estrela, agradece a minha presença. Aqui abro um espaço para falar dela. Mari já tem jeito de estrela, tem alma de artista, e é nítido que ela não caiu de paraquedas ali. Nota-se que nasceu pra cantar, com um fator importantíssimo que faz a diferença: a simplicidade.
Logo de cara, ela me pergunta o que achei do figurino (que naquele dia simbolizava a terra). Alguém da produção de pronto me explica que ali está a terra, o momento de alicerçar, de fincar os pés nos chão. Mari balança a cabeça e concorda com tudo que é dito. Acho bacana, respondo eu. E aproveitando a minha resposta, já emendo perguntando da emoção de estar pela primeira vez na avenida, e no carnaval de Salvador, e ela me diz tranquila que “a ficha ainda não tinha caído, mas que estava tentando não pensar muito nisso, pra não ficar nervosa, e emocionada”.
Em cima do trio, tudo pronto. Vejo um dos empresários da banda fazer uma preleção rápida com os músicos (treze no total, sendo duas mulheres musicistas: Ratinha na percussão e Ana Monterry nos teclados) e dizer que esperaria de cada um deles: no mínimo, o melhor que eles tivessem pra dar. A ansiedade e a expectativa dão espaço a alegria, quando finalmente Mari começa a cantar.
Já no começo, fico olhando para as pessoas tanto nos prédios, quanto nas ruas que paravam, pra ver aquela cantora passar com o nome Babado Novo. Vejo nos seus rostos um misto de interrogação e curiosidade. Alguns balançam a cabeça como em aceitação, outros fazem o sinal de positivo, uns apontam, até palmas são batidas na passagem dela, que fugindo a um script previamente lecionado, a todo instante, agradece, manda beijos, fala com as pessoas se debruçando na varanda do trio, num gesto que toca pela sinceridade com que é feito.
Ao chegar no espaço oficial da folia, o Campo Grande, vê-se na cara dela uma primeira impressão de dever cumprido. Nessa hora, Mari começa a cantar a música “Amor Perfeito” entoando seus primeiros versos que diz: "eu não vou saber me acostumar/sem suas mãos pra me acalmar/sem seu olhar pra me entender/sem seu carinho, amor, sem você". Sem segurar as lágrimas, chora e se emociona, talvez pensando em seu pai, que faleceu há quase quatro anos, e que foi um dos maiores incentivadores da sua carreira. Em soluços, e com a maquiagem toda borrada diz: “vocês não sabem o sonho que é para mim estar aqui hoje”. nessa hora, todos se emocionam: empresários, produtores, a família (estavam em cima do trio, marido, mãe, irmã, etc...) todos se deixam levar pelo sentimento daquela menina, que um dia sonhou em ser famosa.
A todo custo, ela consegue cantar a música e segue falando com cada pessoa presente, tentando não esquecer ninguém, e o trio segue em direção à Avenida Sete e à Praça Castro Alves. No trajeto, às vezes, ela parou de cantar para tomar nebulização. Quando pergunto o porque daquilo, me respondem que a maratona de shows seria grande, e a voz não poderia falhar. Ainda assim, cada ponto histórico do circuito, como o beco do Eva ou a Praça da Piedade, recebe uma atenção especial. Olha, no trajeto da Avenida Sete/Carlos Gomes, um detalhe na avenida chamou a atenção: O incentivo que as pessoas dão aos novos. Os gestos de solidariedade, são tão generosos, tão motivadores que, acredito eu, até os tarimbados, como Bell da banda chiclete com banana, ou uma Ivete Sangalo, se comovem, se emocionam.
Já no fim do percurso, com o cansaço abatendo a todos, se percebe que ela ainda cantaria mais, a despeito dos outros compromissos que teria ainda aquela noite (iria cantar no circuito Barra/Ondina com Daniela Mercury). A menina, risonha e tímida, ainda tinha, pelo que vi, energia de sobra. Na saída, peço uma carona à assessoria e entro em uma van apertada, calorenta e dividida com toda a produção. Mesmo com o aperto, todos falam, todos dão risada como que relaxados, menos a menina risonha e falante, que no fundo da van, calada e tomando a sua nebulização, olhava pelo vidro da janela, com os olhos de uma criança que conheceu o mundo e dele viu que faz parte.