A visão do sucesso - dois prismas!

CAPÍTULO I - Ivete Sangalo
Sábado de carnaval, três e meia da tarde. Como combinado com a equipe da cantora Ivete Sangalo, chego pontualmente ao trio estacionado no farol da Barra. Estou ali pra fazer uma coluna especial sobre a cantora, a quem acompanharei por todo o circuito. É dia de sol em Salvador, dia de calor, carnaval segue pegando fogo, a alegria e o excesso se misturam em perfeita harmonia, se é que se pode dizer isso. Assim que chego, percebo todo o encanto que Ivete Sangalo erradia. De ambulantes a fãs de carteirinha, todos sem distinção e em um clima quase amistoso, cantam as músicas da artista, em um coro quase uníssono.
Ela chega de surpresa, sai da van e, em vez de entrar no trio, surpreendentemente, conversa e tira fotos ali mesmo com seus fãs. Ivete, desse ponto, parece voltar a ser Ivete Maria, aquela adolescente simpática, brincalhona, a gaiata do Sparta/401. Ela tira fotos, acena, faz caras e bocas e finalmente entra no trio, indo direto para o camarim. E por falar em camarim, o dela é realmente diferente. Feito sob medida para a cantora, foge totalmente ao padrão normal de um trio. Com uma grande ante-sala, onde descansam os músicos da sua banda ou qualquer outro componente do seu staff, tem na parte reservada, detalhes que vão de: Sofá de couro, televisão de 42 polegadas e pasmem, banheiro com chuveiro! O camarim é tão espaçoso, que a permite receber seus convidados com tranquilidade, e sem se apertar.
Mas, se dentro do camarim está tudo tranquilo mesmo com a sua chegada, do lado de fora, um séquito de produtores, diretores, técnicos e todos os outros profissionais envolvidos na “folia de Ivete” estão andando de um lado para o outro, dando os ajustes finais, para começar a festa.
Em cima não é diferente. Num espaço disputadíssimo, anônimos e celebridades se apertam e se dão de forma tão democrática como um grande elevador lotado. Estão todos excitadíssimos em ver a cantora. A expectativa chega a ser tanta que medalhões da televisão nacional se portam como fãs adolescentes, sem exagero algum.
E quando finalmente ela sobe ao trio vestida de toureira, é um alvoroço - dai é que se percebe o domínio que Ivete tem sobre as massas e como ela sabe agradar e entreter seu público. Sempre com uma piada, ou uma gaiatice, nunca perdendo o controle, com palavras beirando ao trocadilho, e conversando como se estivesse em uma roda de amigos. A cada gesto ou frase mais elevada emitidas da sacada de seu trio, um coro de vozes mais que unida reage a um só som, batendo palmas e gritando, como que dando apoio as brincadeiras que a cantora acabou de fazer.
O carro começa a andar e, sempre gentil e cortês, Ivete cumprimenta a todos que estão em cima do trio. O gestos são individuais, ninguém deixa de receber um afago dela. Todos, sem exceção, são beijados e abraçados pela cantora. Lá embaixo uma multidão com cartaz (ou não), grita e tenta a todo custo ser vista. Ela, na medida do possível, até pela quantidade gente que quer sua atenção, sempre sorri, faz posse para uma foto, ou apenas manda um beijo.
Logo no começo do trajeto, um sanfoneiro exibe um cartaz pedindo pra tocar com a cantora. Não sei se o desejo do mesmo era tocar no trio dela, ou fazer um dueto ali na hora. Mas assim que consegue ler o pedido do colega músico, ela para o trio e toca alguns trechos de uma de suas músicas de sucesso em forma de forró junto com ele. É mais uma profusão de palmas e gritos de todos.
Ao que se percebe, aquilo é uma diversão para Ivete. Sempre incorporada ao personagem –nesse caso a roupa de toureira – estar ali cantando para um mundo de gente parece ser algo tão prazeroso que, ela só come quando não tem mais jeito. Nessa hora, pequenos pedaços de algo levado por seu fiel escudeiro Dito são mastigados em uma velocidade impressionante. Ao longo do trajeto, manifestações e homenagens a cantora são feitas aos montes. Tranquila e consciente do seu papel de musa maior, canta de tudo: de funk ao Ziriguidum, sem a distinção ou preocupação de estar dando espaço à concorrência ao prêmio de música do carnaval.
Mesmo cansada e em dado momento com o pés doendo do salto alto (nesta hora Ivete tirou o calçado) percebe-se que, se fosse por ela, o trio faria um retorno e voltaria ao farol da Barra em curso contrario fazendo tudo de novo. Mas já é fim de trajeto, e saindo do trio para a sua van, depois de cumprimentar a todos os convidados um por um que desciam do trio como se estivessem em um avião e ela fosse a aeromoça, a mesma Ivete Maria, a adolescente brincalhona, para na porta da van e acena para sua galera. A impressão que fica é que ela só não ficou por ali, para sair com a sua galera, pelo fato de seu filho estar lhe esperando em casa, e ela ainda ter outro evento pra tocar e cantar o grande sucesso galinha pintadinha muitas vezes quando lá chegar: o Marcelo folia!
Luis Ganem[email protected]
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