E agora José...

Estive almoçando com alguns amigos em um dia desses e ouvi uma análise interessante sobre o axé: estamos em uma época de vassoura de bruxa – disse o analista – onde interesses outros infectaram o nosso cacau (o axé) e agora os culpados ficam posando de paladinos da justiça, da moral e de bons moços, tentando vender facilidades, como se o problema não tivesse sido criado por eles. O axé está quase morto, disse o amigo, finalizando o pensamento.
E não é que em passado essa semana, vi que realmente a coisa está mais feia do que imaginava. Uma noticia dada pela minha colega Natália Comte dizia: “Esta semana vi uma matéria de Ivetinha e seu jato, aí me lembrei de uma estrela de maior grandeza do axé que está com algumas letras do jatinho atrasadas. Cuidado pra não voltar a andar de Zoomtur, meu bem!”. Mesmo sendo uma pequena alfinetada, vislumbra uma profunda verdade: o ritmo já não encanta como antes.
Salvo os grandes ícones, que estão alicerçados e não padecem dessa possibilidade de perderem espaço de bussines, alguns outros figurantes que tentam passar uma boa imagem com demonstrações explicitas de poder econômico e ostentação, ao que parece estão ficando com as pernas meio bambas.
Até porque esses vícios hollywoodianos como avião, carros importados, casas de praia, apartamentos luxuosos e outras vaidades custam caro e fazem com que o artista tenha sempre que tentar levar uma vida de revista de celebridade, mesmo que nos cofres, e nos pedidos de shows, a coisa esteja a mingua. E foi exatamente isso que a minha colega Natália Comte noticiou.
O que a primeira vista poderia ter passado despercebido, ou apenas um detalhe financeiro, me pareceu mais uma prova viva de que a coisa anda cada vez mais difícil no axé. Ainda mais quando manter as aparências, começa a se tornar um fardo muito pesado, ou no caso do corpo celeste implicitamente citado: que o céu está começando a desabar.
Tenho dito sempre que o processo de decadência do axé parte de vários princípios mas, principalmente da busca do dinheiro fácil, e da “síndrome de Deus” por parte de alguns dos nossos artistas e empresários.
Na música quanto na vida, chegar ao sucesso a qualquer preço tem um custo que se torna ainda maior, quando essa escalada é feita de forma desordenada ou somente pensando em dinheiro pura e simplesmente. Casos como esses da estrela de primeira grandeza que deve algumas “letrinhas” do seu jatinho, fazem parte dessa desordem, que fatalmente ou quase sempre, levam a uma única conclusão: o fim está perto.
Creio que Já falei, pensei e repensei esse assunto, umas três ou quatro vezes. Mas a cada sinal de que a coisa não está boa para a nossa música, fico a me perguntar o que realmente estamos fazendo para tentar melhorar tudo isso, ou quem realmente se importa. Infelizmente ao que vejo, não existe nada sendo feito de forma consistente, ninguém toma a frente para mudar nada, todos só querem garantir o seu pirão, em época de pouca farinha.
Sinceramente ainda espero melhoras em torno do axé. Estando o sertanejo se tornando o pai de todos os ritmos inclusive do nosso arrocha, espero que o mercado musical baiano não espere uma carruagem virar abóbora, pra finalmente alguém fazer alguma coisa.
Luis Ganem
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