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O troco de palavras

Por Adrielle Coutinho

O troco de palavras
Foto meramente ilustrativa

Na Bahia existem lugares específicos em que tudo acontece. O espaço mais propício para tudo acontecer no dia-dia é o ônibus (mais conhecido popularmente como buzu). Os acontecimentos são da passagem na catraca até a parada do ônibus no ponto.
 
Pegar o ônibus na Lapa, com o sol em temperaturas exorbitantes e com a estação cheirando a “mijo” faz com que a situação se torne mais "agressiva".
 
O cobrador Raishow relaxava na primeira cadeira do ônibus e o ambiente encontrava-se vazio quando entrou uma senhora ruiva, com o máximo de sacola em volta, e direcionou imediatamente a fala ao funcionário:
 
- Psiu, venha me atender aqui, seu cobra!
 
A ruiva estava se referindo à cadeira que tradicionalmente Raishow ocupa. Ele rapidamente resmungou com o motorista:
 
- Puuuuuuurra, que mulé é essa, véi?
 
- A mulé que você tem que atender aqui, ó. (gritando e apontando pra o caixa no ônibus) Eu só vou passar na catraca quando você me atender aqui.
 
O cobrador se dirigiu ao lugar que ocupa, sentou e esperou a senhora pagar. Posteriormente, a ruiva com ar soberbo perguntou:
 
- Esse ônibus é via orla?
 
- É sim, minha senhora.
 
A mulher senta, liga o celular e começa a apreciar Pablo do Arrocha no ônibus. A dona arrisca uns passos de arrocha e chega a cantar. Quem estava presente sabia que a viagem seria longa e difícil. Minutos depois entra um baleiro e pronuncia o mantra:
 
- Boa noite, pessoal. Chegaram as deliciosas balas de chocolate, uma é 30, duas é 50 e quatro é um real, pessoal. Mete mão que é promoção.
 
Chegando à mediação do Centro Administrativo, o motorista passa direto e faz o trajeto Paralela. A ruiva indignada levanta e pergunta ao cobra:
 
- Que zorra é essa, cobrador? Você não disse que essa zorra era via orla?
 
- Eu lá sei o que você quer minha senhora?
 
- Eu só tinha essa passagem, eu só vou descer quando você devolver minha passagem.
 
Nessa hora a senhora entoava todos os xingamentos possíveis e impossíveis.
 
O ônibus parou e os passageiros presentes gritavam “arrasta, motorista”, “leva, motorista”, “estou atrasado nessa zorra”. A mulher, que não aguentou a pressão, desceu do ônibus gritando com todo mundo.
 
Na rua, sozinha e sem dinheiro da passagem, a mulher sai andando e arriscando carona no meio das ruas da Paralela.

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