NOSSO PLAYGROUND
Foto: Ag. Fred Pontes/ BN

Esse ano, diferentemente do ano passado, fui para a rua ver o Carnaval. Pra ser mais exato, fui três dias. No sábado à noite na Barra, no domingo e na terça no Campo Grande. Engraçado é que, depois de tanto tempo distante da rua, minha visão das atrações do Carnaval se tornaram iguais às de um turista.
Mas aí é que está o legal disso tudo. É que pude de forma imparcial ver o Carnaval com os olhos críticos de quem vem de fora do estado ou da cidade do Salvador e não como critico do axé.
Pois bem, vou concordar com a frase que tenho ouvido há muito tempo: o carnaval está mudado. Do seu formato à sua finalização, vi um carnaval, depois de muito tempo mais solto, mais leve. Pode ser até que, pelo local onde estava, não tenha conseguido enxergar de forma correta. Enfim, essa impressão ficou em mim.
Vi a Timbalada com Denny provando que consegue segurar a onda sozinho e com um figurino massa. Vi o Asa com Durval Lelys dando Vale-Night pra todo mundo, mas sem receber o seu da mulher (risos!). Vi a minha amiga Alinne Rosa passar perfeita linda e feliz. E rapaz, Troféu Simpatia para Carla Perez! Que moça bonita e simpática ela se tornou. Impressionante como essa moça, além de cada vez mais bonita (o matrimônio fez bem), está simpaticíssima, sempre com um sorriso no rosto, bem falante, atenciosa. Poxa, parabéns, viu, Carla.
Agora dois momentos pra mim foram marcantes no carnaval. Um deles vem de Daniela. Bom, conheço Daniela desde criança. Éramos vizinhos em Brotas e ela e os irmãos costumavam ir brincar em minha casa com os cachorros que na época meus pais criavam. Por um bom período da infância fomos vizinhos ao ponto de meus pais darem um dos filhotes da cria para eles de tanto que gostavam dos cachorros. Pois toda vez que encontro com Daniela e me apresentam a ela parece nunca nos vimos antes e que é a primeira vez (risos).
Mas pois, pois! Já vi Daniela Mercury fazer de tudo. Da vinda dela para a Barra em busca do novo à mudança feita no seu trio elétrico para acomodar um palco na parte de cima e daí poder fazer tudo que desse na telha. E confesso que de nunca consegui ver grandes coisas nisso. Mas, amigo, me tocou profundamente a participação da orquestra que estava com ela no Sábado de Carnaval na Barra.
Vi com olhos de turista. Aplaudi, gritei, me emocionei. Mas também vi como profissional da música, porque sei das dificuldades da operação de uma banda tocando em um trio. Imagine então de uma orquestra, que pela plástica do tocar já é difícil. Imagine agora essa junção com a banda de Daniela em si e em cima de um trio elétrico! Agora te digo uma coisa: o som emitido estava simplesmente sensacional.
Tanto digo que estava que vi a alegria do folião pipoca com aquele espetáculo que Daniela proporcionava. Um folião vibrante, participativo, gostando do que estava vendo e ouvindo, jogando de lado a tese antiga de que o povo só gosta do sucesso atual. Se isso acontecia, não acontece mais, ao menos para a pipoca que estava ali.
E o outro momento vem de Tomate. Penso que agora posso dizer que chega dessa historia de tratar o cara como o “menino”, a “promessa”, a “possibilidade”, pois o que vi foi o “profissional”, o cantor tomate no trio. Tomate realmente me surpreendeu. A figura, em termos de “eletricidade”, não mudou nada. Pulava o tempo, todo colocava e tirava o chapéu. Mas amigo, quem conhece de carnaval percebe quando a maturidade chega ao artista pela tranqüilidade de lidar com o folião sem ficar nervoso e vi isso nele. A calma de levar a galera “na moral” foi digna de quem já deixou há muito de ser promessa. O cara é realidade, isso sim. Realidade.
Gostei e muito das homenagens prestadas pelos artistas atuais aos que já não têm grande sucesso. Pude ver Morais Moreira passar e lembrar dos meus tempos de infância. Cantei com ele “Chão da Praça” “Preta Pretinha”. Rapaz, eu que sou um jovem carnavalesco e era criança na época de Morais fiquei deslumbrando com a passagem dele. Mas o que vi de figuras mais velhas, bem mais velhas que eu, cantando e com cara de choro não está no mapa (risos).
E mais do que justo, o sucesso do “Rebolation” e de "Na Base do Beijo”. Aliás, essa pesquisa da empresa Mídia Clip deixa bem claro pela geração de mídia espontânea quem é a principal artista do mercado baiano. Quem discordar e achar que querer ser Beyoncé, Shakira, Alicia Keys, Rihanna ou qualquer outra diva é somente fazer caras e bocas e gestos pode parar agora mesmo, porque as máscaras já estão no chão.
Bom, fora isso, como disse meu amigo Saulo, nessa terra está cheio de artista de playground. Mas aí me veio o questionamento do que ele queria ter dito com isso. Olha, desde o dia que ele falou até o fim do carnaval eu fiquei, quando não na rua, na frente da televisão tentando identificar os tais artistas e consegui.
E amigo, acho melhor essa galera mudar de playground, porque nesse vai ser descoberto, se é que já não foram.