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Terça, 19 de Janeiro de 2021 - 07:20

Apesar de você, Pazuello

por Fernando Duarte

Apesar de você, Pazuello
Foto: Anderson Riedel/PR

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. O hino da resistência à ditadura militar, lançado por Chico Buarque em 1970, segue atualizado como nunca. Nesta segunda-feira (18), o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, envergonhou o Brasil, mais uma vez, e também a caserna, ao se comportar como um mentiroso compulsivo. O general especialista em logística, como a indicação o apresentava, mentiu ao dizer que nunca recomendou o uso de “tratamento precoce” e reiterou a mentira ao apontar que jamais falou sobre o ‘kit Covid”, cuja lista incluía hidroxicloroquina e cloroquina.

 

Pazuello assumiu interinamente o Ministério da Saúde com um único propósito: liberar o uso da cloroquina, após seus dois antecessores, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, negarem. Os dois médicos sabiam das consequências éticas dessa autorização, porém para o governo federal isso era pouco importante. O remédio sem eficácia comprovada era a menina dos olhos do presidente Jair Bolsonaro que, desde sempre, imitava o canastrão Donald Trump. Passados quase 10 meses do início da crise do novo coronavírus no país, a cloroquina segue como opção para “tratamento precoce” nas indicações do ministério.

 

Tão irresponsáveis quanto Pazuello estão milhares de médicos que seguem prescrevendo a cloroquina para seus pacientes no tratamento de Covid-19. Junto com o vermífugo ivermectina, eles fazem o combo das ilusões que parte da classe médica insiste em vender para a população, mesmo que o restante da comunidade científica assegure a ineficácia das substâncias contra o coronavírus. Porém, como uma parcela expressiva dessa categoria faz parte da elite econômica que ainda dá suporte ao projeto de Bolsonaro para o país, pouco se vê em ações para coibir ou punir os vendedores de feijões mágicos de jaleco.

 

Apertado pela imprensa, o ministro reclamou - de novo e mais uma vez - da atuação dos repórteres. Argumentou nunca ter falado em tratamento precoce, mas sim em “atendimento precoce”. São tantos os engodos e mentiras que uma simples busca no Google gera uma série de notícias para desmentir Pazuello. Até mesmo os veículos bolsonaristas vão comprovar que o ministério falou nesse “tratamento precoce” há apenas uma semana, quando o general-ministro esteve em Manaus (AM) e se negou a enxergar o óbvio, o iminente colapso do sistema de saúde local.

 

O dia também foi marcado pelas falhas logística do especialista na área. Utilizando apenas a Bahia como exemplo, a chegada das doses da vacina contra o coronavírus mudou de horário diversas vezes ao longo do dia, o que atrasou o processo de distribuição para o interior do estado. Ao pensar que essa cena pode se repetir ao longo de toda a execução do Plano Nacional de Imunização, é um momento em que sentar e chorar não chegaria a ser um exagero. Enquanto isso, mais e mais brasileiros terão que lidar com as consequências da Covid-19 que incluem tensão, dor e, por vezes, luto. Apesar de você, Pazuello, amanhã há de ser outro dia. Pois, quando chegar o momento, esse nosso sofrimento, vamos cobrar com juros, juro. Desculpa e obrigado, Chico.

 

Este texto integra o comentário desta terça-feira (19) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para a rádio A Tarde FM. O comentário pode ser acompanhado também nas principais plataformas de streaming: Spotify, Deezer, Apple Podcasts, Google Podcasts e TuneIn.

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