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Segunda, 10 de Maio de 2021 - 11:10

João Roma

por Bruno Luiz

João Roma
Foto: Rebeca Menezes/ Bahia Notícias (17.06.2019)

Possível candidato ao governo do estado em 2022, o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, pode ficar sem o apoio de um de seus principais aliados, o partido Republicanos. O motivo: a postura crítica do também presidente nacional do Democratas ao presidente Jair Bolsonaro.

 

Segundo o ministro da Cidadania João Roma, filiado ao Republicanos, a sigla decidiu apoiar a reeleição de Bolsonaro em 2022. Com isso, o natural é que, para dar estrutura ao presidente nos estados, a legenda apoie candidatos a governador alinhados com o chefe do Executivo Nacional. "O Republicanos decidiu estar ao lado do presidente Bolsonaro. Eu, hoje, sou ministro do presidente Bolsonaro. Então é natural que o posicionamento do partido na Bahia atenda às premissas nacionais do partido. Vamos trabalhar neste sentido", disse Roma em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Ainda de acordo com o ministro, a postura crítica de Neto em relação a Bolsonaro vai obrigar que o presidente tenha candidato na Bahia para defender o legado do seu governo. "O presidente Bolsonaro terá que defender, sim, o seu legado na Bahia e ter uma estrutura que se traduz através de um palanque eleitoral também. A campanha de reeleição do presidente Bolsonaro não pode ficar inócua na Bahia. Aqui é o terceiro maior colégio eleitoral do país."

 

Questionado sobre se seria o candidato de Bolsonaro, Roma afirmou não ter conversado sobre o assunto com o presidente, mas deu sinais de que pode representá-lo na Bahia em 2022. Por um lado, disse que não pode confirmar se será candidato à reeleição para deputado federal nas próximas eleições. Por outro, indicou ver poucas chances de estar na chapa de Neto, com quem rompeu as relações após aceitar o convite para assumir o Ministério da Cidadania. Leia abaixo a entrevista completa:

 

No ano passado, com o fim do primeiro ciclo de pagamentos do auxílio emergencial, se discutiu a possibilidade de aumentar o valor do Bolsa Família para compensar a perda de renda gerada pelo fim do benefício, além de se fazer um programa social mais robusto. Vocês estão estudando agora alguma mudança no valor e na estrutura do Bolsa Família?
Não só do Bolsa Família, mas estamos estudando a reestruturação de programas sociais do governo para que possamos ser mais efetivos. Não é apenas uma discussão de valores, mas de eficácia de políticas públicas. São maneiras de não apenas amparar a população, mas de viabilizar a emancipação desses cidadãos para que eles consigam ascender através dessa malha de proteção social. Nós queremos, sim, fortalecer, ampliar e não trata-se apenas do Bolsa Família, mas de outros programas sociais do governo federal. Buscamos fazer isso em um curto espaço de tempo. Já me reuni com o presidente Jair Bolsonaro, com o ministro Paulo Guedes, com a ministra da Agricultura Tereza Cristina, pois há uma interface muito grande entre o Ministério da Agricultura e o Ministério da Cidadania. A gente quer que, já em agosto, ao término do pagamento dessas parcelas do auxílio emergencial, essas pessoas possam encontrar um programa social mais robusto.

 

Seria, então, uma unificação de todos os programas sociais? Como vocês estão pensando isso?
Estamos buscando reformular vários programas do governo, não só o Bolsa Família.

 

Você disse que conversou com o ministro Paulo Guedes sobre essa reformulação. Já conseguiu viabilizar os recursos para isto?
Tudo isso recai, claro, no quesito orçamentário. Mas foram reuniões extremamente positivas, e a equipe econômica está sensibilizada para que a gente encontre soluções que viabilizem a permanência desses programas, para que eles não sejam apenas programas transitoriais.

 

No caso do Bolsa Família, há possibilidade de aumento do valor?
No caso do Bolsa Família, não é só uma questão de valor. Naturalmente, teremos uma ampliação dos valores, mas estamos buscando aprimorar e ampliar.

 

Então o programa abrangeria mais gente do que hoje?
Provavelmente.

 

Foto: Paulo Victor Nadal/ Bahia Noticias (24.11.2020)

 

Você declarou recentemente que seria natural o presidente Jair Bolsonaro ter um palanque na Bahia em 2022. Esse palanque passa por uma candidatura sua ao governo do estado? Como você vai atuar na construção desse palanque?
Olha, não há vácuo de poder. O governo federal, através do presidente Bolsonaro, naturalmente, vai necessitar de um palanque na Bahia. Hoje, esse palanque ainda não está pronunciado, uma vez que buscava-se, se enxergava, até então, um alinhamento entre as forças antagônicas ao PT, que elas agissem em conjunto.

 

Que aqui, na Bahia, são representadas pelo DEM.
Exatamente. Com a postura do ex-prefeito ACM Neto de se colocar em uma posição crítica ao governo federal, o presidente Bolsonaro terá que defender, sim, o seu legado na Bahia e ter uma estrutura que se traduz através de um palanque eleitoral também. A campanha de reeleição do presidente Bolsonaro não pode ficar inócua na Bahia. Aqui é o terceiro maior colégio eleitoral do país. Bolsonaro tem pontuado com mais de 20% de intenções de voto do eleitorado baiano. Ele tem muito carinho pela Bahia, tem feito muito e vai, naturalmente, intensificar não só essa agenda como, portanto, sua presença política no estado.

 

Há uma orientação do presidente para que você faça esse trabalho aqui?
Não, é uma leitura política que eu estou fazendo. É natural, um estudo de cenário. Sobre eleições, nós ainda não conversamos sobre eleição majoritária na Bahia, sobre quem vai ser o governador, como serão os palanques. Muita gente tem me perguntado se eu vou ser o candidato de Bolsonaro a governador da Bahia, e eu tenho respondido que não conversei com ele sobre esse ponto específico, mas que é natural que o governo fortaleça sua presença na Bahia. E, como eu disse, não há vácuo na política, então vai ter que ser estruturado um agrupamento de forças para dar suporte, inclusive à reeleição do presidente da República. No plano nacional, você tem, de um lado, o presidente Bolsonaro e, do outro, a oposição a Bolsonaro.

 

Você acha que esse afastamento entre Neto e Bolsonaro, provocado por essas críticas do ex-prefeito ao governo federal, é algo irreversível?
Não sei dizer isso. Eu observo o que vem acontecendo nos últimos meses. Ele vem adotando uma postura crítica ao presidente, mas existem vários cenários na política. De três anos para cá, quantas coisas nós observamos na política? Tantas aproximações e tantos tensionamentos… Os cenários locais estão mudando muito rápido. Em São Paulo, por exemplo, Doria tem 65% de rejeição. Isso, por si só, já sinaliza para uma inviabilização de uma candidatura dele à Presidência da República, além de ser voz minoritária dentro do partido dele, o PSDB. No estado do Rio, você vê movimentações com Eduardo Paes e Rodrigo Maia indo para o PSD. Isso eu estou falando de dois grandes colégios eleitorais. A Bahia, como terceiro colégio eleitoral do Brasil, vai ter que passar por uma reestruturação. Na formação de uma estrutura, desses vetores de força, nem sempre as forças são homogêneas no discurso. Você precisa, muitas vezes, juntar pessoas pelo que as une, e não pelo que as afastam. No meu caso, junto com o meu partido, o Republicanos, nós estamos dando suporte ao presidente Bolsonaro, estaremos juntos na sua reeleição e achamos que esta é a melhor maneira de defender o Brasil, pois, do outro lado, temos uma força que temos antagonismo, representada, principalmente, pelo PT. Essas coisas ficam muito claras. No meu partido, não estaremos no eixo do PT, estaremos no eixo de Bolsonaro. O cenário nacional sinaliza para uma eleição sedimentada entre Lula e Bolsonaro. As chances de uma terceira via nacional, com a presença de Bolsonaro e Lula, se enfraquecem. Diminuem muito as chances de se montar um arco de alianças que viabilize um líder que possa suplantar essas duas correntes no próximo ano. O próprio Ciro Gomes não vai conseguir, na área da esquerda, partidos em torno do seu nome, com Lula candidato. Na direita, também é muito improvável, porque você tem Bolsonaro no governo federal, então isso magnetiza partidos de centro.

 

Foto: Paulo Victor Nadal/ Bahia Noticias (24.11.2020)

 

Você consegue confirmar hoje que será candidato à reeleição para deputado federal em 2022?
Olha, o líder político tem que agir em consonância com aqueles que lhe dão suporte, que são seus apoiadores e o grupo político ao qual ele pertence. Meu encaminhamento hoje passa, obviamente, por um posicionamento, uma aspiração do Republicanos, que, dentro de um projeto de consolidação do partido, dentro da implementação de suas propostas para o que acreditamos ser o melhor para o futuro do nosso país, eu estarei junto com esse agrupamento partidário para tratar do destino político do nosso povo. Não só da dança de cadeiras de cada um. Para aqueles que participam efetivamente da política, temos que enxergar um cenário maior, não apenas a cadeira que cada um está ocupando naquele momento ou vai disputar. A vida política, às vezes, impõe missões que fogem a um planejamento de trajetória, um encaminhamento profissional de aspiração.

 

Hoje o Republicanos está na base de ACM Neto. Você defende que o partido apoie a candidatura de Neto em 2022?
O Republicanos decidiu estar ao lado do presidente Bolsonaro. Eu, hoje, sou ministro do presidente Bolsonaro. Então é natural que o posicionamento do partido na Bahia atenda às premissas nacionais do partido. Vamos trabalhar neste sentido. A presença do Republicanos na prefeitura de Salvador se deve a um somatório de esforços referente à eleição passada, em que contribuímos para a eleição de Bruno Reis. O cenário de 2022 vai derivar, naturalmente, das aspirações e do projeto político do Republicanos, não apenas para a Bahia, mas perante o Brasil.

 

Diante do rompimento das relações entre você e Neto, ainda seria possível ter você em uma chapa majoritária encabeçada por Neto para o governo estadual em 2022?
Eu estou vivendo o maior desafio da minha vida pública, que é a missão de ministro da Cidadania do governo Bolsonaro, em um momento especial da nossa história, que é o enfrentamento a uma pandemia. Por isso, tenho que dedicar todos os meus esforços a desempenhar bem esta minha missão. As tarefas político-eleitorais nós vamos deixar para 2022. Isso, inclusive, será decorrente não apenas do governo Bolsonaro, mas também da gestão que eu for capaz de desenvolver à frente do Ministério da Cidadania.

 

O ex-prefeito ACM Neto enviou alguma mensagem, alguma manifestação pela morte recente da mãe do senhor?
Sim, ele mandou uma mensagem de condolências, e eu respondi agradecendo.

 

O presidente Jair Bolsonaro tem feito críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal na pandemia, de medidas que estão sendo decretadas pelos ministros. Você partilha da avaliação de que há ativismo judicial por parte do STF?
Eu defendo a Constituição, defendo a harmonia entre os Poderes, de que o poder emana do povo. O que estamos verificando hoje no Brasil, no que pese a minha defesa pela segurança jurídica, pelo cumprimento da legalidade, podemos constatar que há um peso maior do Judiciário perante os demais Poderes. Você vê o Judiciário legislando e querendo, muitas vezes, cruzar a esfera do próprio Executivo, o que está além das atribuições do Judiciário. É muito importante que, pós-Constituição de 88, a gente consiga consolidar a eficácia do Estado brasileiro, mas a harmonia e o equilíbrio entre os Poderes. Portanto, é necessário que ocorra, tanto por parte da postura dos integrantes do Judiciário, no sentido de se ater às tarefas pertinentes ao Judiciário, como também ocorra um equilíbrio do Legislativo quanto ao seu protagonismo, assim como o Executivo também. Então, podemos afirmar hoje, sim, que há um desequilíbrio entre os Poderes.

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