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Segunda, 28 de Dezembro de 2020 - 11:10

Davidson Magalhães

por Bruno Luiz

Davidson Magalhães
Fotos: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Apoiado pelo PP nas eleições de Salvador, quando recebeu da sigla a indicação de Joca Soares para vice da candidatura de Olívia Santana, o PCdoB não garante retribuir a "gentileza" em outra disputa importante para o aliado: a que envolve a presidência da Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA).

 

A sigla lançou recentemente o nome do deputado estadual Niltinho para concorrer ao cargo. O problema é que esta atitude contraria acordo selado pela legenda junto ao governador Rui Costa. Pelos termos da negociação, agora seria a vez de Adolfo Menezes, do PSD, presidir a Casa. O embate preocupa Rui e setores da base aliada pelo temor de um racha entre os partidos, os maiores do bloco político que dá sustentação ao governo petista. Uma trinca como essa coloca em risco os projetos para as eleições de 2022, quando o grupo tentará continuar no Executivo por mais quatro anos. 

 

Em entrevista ao Bahia Notícias, o presidente estadual do PCdoB, Davidson Magalhães, afirma que o acordo da sigla era com a reeleição de Nelson Leal (PP) para a presidência. As pretensões dele, no entanto, foram contidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que barrou a reeleição para o comando de Casas Legislativas dentro de uma mesma legislatura.

 

Agora, o compromisso do partido, diz Davidson, é com a manutenção da unidade do grupo, independente do partido que lançará candidato. "Na Assembleia Legislativa, hoje, não é que haja processo de descontinuidade, mas estamos trabalhando para manter essa unidade. Esse é um esforço fundamental. Nós temos que saber como fazer esse tipo de enfrentamento. É uma casa política [a AL-BA], base de deputados estaduais que estão espalhados por toda a Bahia. Trincar uma unidade da base governista justamente em uma área tão sensível não é um bom sinal", diz. Leia abaixo a entrevista completa.

 

O partido recebeu apoio do PP, que indicou o vice na chapa de Olívia em Salvador. Isso vai ser levado em conta na escolha de quem o PCdoB vai apoiar na disputa pelo comando da AL-BA, caso haja bate-chapa?

O acordo político-eleitoral foi feito. Nossa bancada tinha acordo com a possibilidade de reeleição de Nelson [Leal]. Estávamos comprometidos com a possibilidade de uma reeleição. O STF brecou, aqui não foi apresentada a emenda. Nós temos alianças diversas. No conjunto do estado da Bahia, temos alianças com o PP, com o PT, o PSD. Nenhuma aliança determina depois os acordos políticos. Você lembra que, na outra eleição para a Assembleia, fomos o primeiro partido a apoiar Nelson Leal. Isso até foi mal compreendido na época. Mas temos uma linha política de coerência, de buscar a unidade do campo que compõe a base do governador Rui Costa.

 

Com essa resposta, pode-se entender que o acordo que vocês tinham era com a reeleição de Nelson e, agora que o STF brecou a possibilidade, não existe mais esse compromisso de apoiar alguém do PP?

Não é que tenha essa relação direta. Somos aliados de primeira hora. Temos uma relação muito próxima. Mas, na Assembleia Legislativa, hoje, não é que haja processo de descontinuidade, mas estamos trabalhando para manter essa unidade. Esse é um esforço fundamental. Nós entendemos que o papel do PP, mesmo porque o vice-governador é João Leão, qualquer alternativa em chapas em 2022 passa pelo protagonismo do PP de João Leão, então a gente precisa ter o máximo de cuidado no tratamento político da sucessão na Assembleia Legislativa. 

 

A unidade do grupo para 2022 passa pela eleição na Assembleia?
É um teste importante.

 

Por que é um teste importante?
Nós temos que saber como fazer esse tipo de enfrentamento. É uma casa política, base de deputados estaduais que estão espalhados por toda a Bahia. Trincar uma unidade da base governista justamente em uma área tão sensível não é um bom sinal. 


Fabrício Falcão foi lançado como candidato na última eleição. Desta vez, vocês pretendem lançar alguém?

Não. O PCdoB tem quatro deputados, não é das maiores bancadas. É muito artificial se fazer isso. Só se fosse uma saída para não ter bate-chapa. Entendemos que não vamos ser fator de desagregação. Colocar mais um candidato seria arrumar mais confusão ainda.  

 

O governador Rui Costa afirmou que a pulverização de candidaturas do grupo político de vocês nas eleições em Salvador não foi uma estratégia dele. A opção dele era por um nome do PT e o candidato Pastor Sargento Isidório, que pontuava bem nas pesquisas. A base, no entanto, saiu com quatro candidatos e, mesmo assim, não conseguiu levar a eleição ao segundo turno, com a vitória de Bruno Reis com mais de 64%. Enquanto tem gente tentando colocar a culpa pelo fracasso da base nas costas de Rui, ele não aceitou a pecha. Ele está certo na avaliação ou a conduta política dele levou a esse resultado?

Essa eleição foi atípica por causa da pandemia. Quem é da oposição não conseguiu fazer campanha. Segundo, tudo que é proibido numa eleição normal foi legalizado na pandemia. Teve distribuição de cesta básica, contratação de pessoas, distribuição de ajuda. Se tinha uma estratégia para Salvador, ela tinha que ser discutida desde a última eleição para cá. As pesquisas mostravam que as duas administrações são bem avaliadas, tanto a municipal quanto a estadual. Mas a gente não teve uma candidatura que tivesse sido construída capitalizando as obras, as ações do governo do estado. Isso ficou muito para última hora. É muita simplificação discutir se pulverização ajudou ou não. Se a gente lançar uma candidata que não era conhecida, no meio de uma campanha, cuja campanha não podia ser feita por causa da pandemia, quando a candidata começou a ser conhecida, terminou a eleição - uma candidata, inclusive, que tinha o mesmo perfil da nossa. Será que é o caminho mais certo? Tem muitos "senões". Mas o principal problema é que não se construiu uma estratégia anterior para ganhar as eleições. A falta de uma coordenação política que atuasse em Salvador com uma estratégia definida: foi essa a principal dispersão. A dispersão não foi de candidatura. Foi a falta de estratégia de um conjunto de ações que, casado com as obras, fizesse capitalização e uma personificação que pudesse representar isso para o soteropolitano. A análise é lá atrás. Depois que você perde a eleição, você monta uma estrutura para ganhar daí a quatro anos. Isso não foi montado. Aconteceu em Salvador o que aconteceu no governo do estado. Aqui nós fizemos a eleição, foi um passeio porque não teve candidato construído para fazer enfrentamento a Rui Costa. O candidato era um, deixou de ser e ficou aquela janela, aquela avenida aberta em Salvador. 

 

Essa falta de coordenação é do governador Rui Costa?
Não. É das forças que compõem o governo.

 

Quais forças? Vocês enquanto partidos também?
A responsabilidade é coletiva. Responsabilidade de não ter cobrado essa coordenação política, de não ter montado a coordenação política para fazer esse enfrentamento. É muito fácil só responsabilizar uma pessoa, mas todo o campo foi responsável. Vocês viram aí que todos os municípios onde a gente disputou as forças locais já estavam organizadas, já estavam fazendo enfrentamento, já estavam se mobilizando. Salvador, a principal vitrine do estado, não tinha isso. 


Sobre 2022, já tem gente colocando a cabeça para fora da toca. O governador Rui Costa já disse ao Bahia Notícias que a tendência é o ex-governador Jaques Wagner ser o candidato do grupo, mas o PSD discorda e afirma que esta é a opinião apenas de Rui e do PT, e que o partido tem a pré-candidatura de Otto Alencar. Você acha que Wagner é o melhor nome para enfrentar ACM Neto nas urnas ou o grupo precisa encontrar um outro quadro para a disputa?

Eu acho que nós temos várias alternativas dentro da base. Evidentemente que se destacam essas duas alternativas, a alternativa Wagner e a alternativa Otto. Mas ainda estamos diante de um quadro muito incerto na política nacional. Teremos um ano de 2021 muito difícil. Os índices de desemprego estão batendo recordes. Em janeiro, teremos mais de 7 milhões de brasileiros que vão entrar para o grupo dos abaixo da linha da pobreza por conta do fim do auxílio emergencial. A crise é muito grande. Eu acho que precisamos ajudar, aqui no estado, no enfrentamento a essa crise. O debate eleitoral de 2022 vai se colocar naturalmente. Não sei se antecipar esse debate de quem vai ser o candidato é o melhor para o nosso campo. Se você me perguntar, é claro que a gente tem muita identidade, no campo político, com o senador Jaques Wagner. Mas a definição de uma candidatura competitiva no nosso campo é uma tarefa a ser preparada a muitas mãos.

 

Você defendeu agora há pouco que o plano aqui em Salvador deveria ter sido construído antes. Você acha que o debate estadual é antecipado?

É diferente. Em Salvador, você não tinha nem nome. Estadualmente, você já tem estrutura, governo funcionando, lideranças circulando e dois nomes postos. Aqui já tem projeto em curso. Nas eleições agora, já foi realizado isso. A exposição das lideranças, a vinculação das obras do governo do estado a essas lideranças é muito forte. Em Salvador, foram apresentadas candidaturas que não foram sendo construídas ao longo desse período. É diferente. Hoje, tanto Jaques quanto Otto e Leão, esses três nomes, estão na passarela há muito tempo. Estão comendo poeira, percorrendo o estado, inaugurando obras com o governador. Aqui é só um processo de afunilamento em relação às condições políticas do país, o enfrentamento nas eleições nacionais, quem vai ser o candidato a presidente. Isso vai influenciar muito na montagem das chapas nos estados. Mas o senador Jaques Wagner é hoje um dos nomes mais fortes. 

 

O governador vai fazer uma reforma administrativa e circulou a informação de que Major Denice pode virar secretária. Uma das pastas que ela pode assumir é a Setre, hoje comandada por você. Você acredita na possibilidade de o PCdoB perder esta pasta como retaliação ao fato de a sigla ter lançado candidatura em Salvador, em detrimento de apoio a um nome do PT?

Não tem lógica isso. Foram quatro candidatos da base. O PCdoB, o Avante, o Podemos e o PT lançaram. Por que o PCdoB poderia ser punido em um processo desses? Não tem lógica. O governador nunca apresentou isso para nós. Ele esteve na nossa convenção, gravou para a nossa candidata. É claro que ele teve a candidata dele, mas não teve nenhuma hostilidade conosco. Reforma administrativa é uma decisão político-administrativa do governador. Retaliação política, não. Ficamos no mesmo campo, lutamos para ter voto para ir ao segundo turno. Essa argumentação não tem base política real.

 

O governador já convocou o partido para conversar sobre os espaços que a sigla terá após estas mudanças no secretariado?

Não, ainda não houve nada, mas reforma administrativa todo governo faz. Isso é a caneta do governador.

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