Segunda, 16 de Março de 2020 - 11:10

Sosthenes Macêdo

por Ailma Teixeira

Sosthenes Macêdo
Foto: Bahia Notícias

Fortes chuvas que culminam em alagamentos, deslizamentos de terra e até desabamentos de casas não são raras em Salvador. Mas é fato que o registro de casos com vítimas fatais diminuíram. A isso, o diretor-geral da Defesa Civil de Salvador (Codesal), Sosthenes Macêdo, atribui uma série de ações, entre elas a manutenção do Centro de Monitoramento e Alerta de Defesa Civil, o Cemadec.

 

A ferramenta, operada por engenheiros ambientais e meteorologistas, conta com 52 pluviômetros, que possibilitam ao órgão a cobertura de toda a capital baiana atualizada de cinco em cinco minutos. “Isso nos remete a um protocolo que diz que, em caso de chuvas rigorosas, de moderadas a fortes, no espaço de tempo de até 72 horas, superando 150mm com a perspectiva de continuidade de chuvas moderadas a fortes por mais 24 horas, deve-se acionar a sirene”, pontua Sosthenes, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Ele se refere às Sirenes de Alerta e Alarme, instaladas em áreas de risco e acionadas sempre que a comunidade local precisa evacuar o espaço. Foi o que aconteceu em novembro passado, quando moradores de pelo menos seis localidades precisaram deixar suas casas (lembre aqui).

 

Em conversa com o Bahia Notícias, Sosthenes falou do trabalho contínuo do órgão, que não atua apenas na Operação Chuva, destacou a parceria com outras pastas do governo municipal e também as ações de prevenção e contingência. Ele pontua ainda outras medidas tomadas pela Codesal para otimizar o trabalho dos técnicos e garantir o apoio da população.

 

Estamos às vésperas do outono, que é um período mais chuvoso em Salvador. Como estão os preparativos para a Operação Chuva?

A Codesal trabalha o ano inteiro. Acabou essa história da Codesal trabalhar apenas no período das chuvas. Desde 2016, quando o prefeito ACM Neto reestruturou a Defesa Civil de Salvador, nós definimos uma série de protocolos e procedimentos que apontam a prevenção como a nossa prioridade. Temos o Plano Municipal de Redução de Desastres, subdividido em duas frentes. Entre elas, a gente tem o PAE [Plano de Ação Estrutural], que tem a perspectiva de apontar soluções para regiões mais vulneráveis, mas não tem a pretensão de executar esse serviço porque não é nossa função. A Codesal é um órgão de articulação. Temos a diretoria-geral, mais duas coordenações — a de contingência e a prevenção. 

 

O senhor destacou que o período chuvoso tem se antecipado de abril pra março nos últimos anos. Com isso, a prefeitura considera antecipar o decreto da operação?

Nós já temos esse tipo de previsão legal porque a Defesa Civil se incorpora em uma categoria diferenciada, então, nós podemos convocar os profissionais, como foi o caso do dia 26 de novembro. Não estava no período de chuva, não havia Operação Chuva, havia uma frente fria que chegaria no período de verão, já conhecido por pancadas de chuvas. Mas ninguém sabia que viria com aquela violência, com aquele impacto todo, mas, graças ao bom Deus e a todo trabalho de prevenção, não houve nenhuma vítima fatal.

Foto: Bahia Notícias

 

O que tem sido feito para tornar o trabalho de vocês mais eficiente?

O Cemadec [Centro de Monitoramento e Alerta de Defesa Civil]. Com os nossos engenheiros ambientais e os nossos meteorologistas, que analisam cotidianamente [as condições climáticas] porque clima não é absoluto, é tendência. Então, o Cemadec hoje conta com 52 pluviômetros, ou seja, nós enxergamos toda a cidade do Salvador online, de cinco em cinco minutos. Isso nos remete a um protocolo que diz que, em caso de chuvas rigorosas, de moderadas a fortes, no espaço de tempo de até 72 horas, superando 150mm com a perspectiva de continuidade de chuvas moderadas a fortes por mais 24 horas, deve-se acionar a sirene, o que aconteceu naquele momento. Agora, por exemplo, nessa chuva de sexta [06 de março], nós tivemos acumulados maiores do que os 150mm em algumas localidades, mas por que não acionou a sirene? Porque o sistema que estava atuando em Salvador perdeu a intensidade e aí a meteorologia apontava que não teríamos chuvas de moderadas a fortes nas próximas 24 horas. Além disso, duas estações hidrológicas e duas estações meteorológicas foram instaladas no ano passado. A primeira nos possibilitou enxergar em tempo real a quantidade de chuva que estava tendo na cidade e a elevação do rio. Isso tudo posto facilita a vida do engenheiro que está em campo porque, sabedores de onde está chovendo mais, junto com o nosso Sistema de Gestão da Defesa Civil (SGDC), que recepciona todas as ligações feitas para o 199 da Ouvidoria (tem um preposto nosso lá dentro), a perspectiva é que no preenchimento dessa ficha, todos os dados estejam inscritos de forma correta. De tal modo que, quando o profissional vá a campo, ele não tenha nenhum tipo de dificuldade para identificar o problema.

 

Qual o tamanho da equipe da Codesal atualmente?

Hoje nós contamos, dentro da Casa, com cerca de 200 profissionais. Porém, nós temos esse Sistema Municipal de Proteção e Defesa Civil que dá uma capilaridade violenta. Não faríamos nada, por exemplo, não fosse a parceria com a Limpurb na aplicação das lonas pra que não se tenha problema de desabamento por conta de escorregamento de terra.

 

Em novembro passado, nós publicamos uma matéria sobre os recursos da prefeitura, e não apenas da Codesal, contra enchentes. De acordo com os dados obtidos, a gestão havia empenhado 57,45% do orçamento que tinha disponível para limpeza de canais e bueiros. Na sua visão como coordenador da Operação Chuva, falta direcionar melhor os investimentos pra área?

Os recursos são finitos, não dá pra dizer que todos os problemas vão ser resolvidos. Perceba que você vai em busca de soluções para um problema crônico na cidade e os problemas de rupturas de escorregamentos de encostas são reais, primeiro porque ninguém vai morar numa localidade dessa porque quer. Ninguém mora perto de um canal ou constrói com o pilar dentro do canal, com risco de a casa ser levada pela força da água ou mesmo de ser alagada, porque quer. As pessoas vão por que termina sendo a única ou a última opção. Ainda assim, cabe a nós do Poder Público entender esse fenômeno social, antrópico e tomar providências a esse respeito. Por exemplo, por vezes são cortados os taludes mesmo sabedores de que vão ter risco porque é a chance que o cara tem de ampliar a casinha dele. Cabe a gente fazer esse combate no dia a dia e a Codesal faz.

 

Qual a média de tempo para a conclusão do atendimento do momento em que vocês registram a ocorrência, fazem a vistoria e o órgão competente toma as medidas necessárias?

Eu vou falar só do meu porque cada órgão tem um tempo de resposta, inclusive legal e protocolar. Conosco, invariavelmente, quando o risco é iminente, é imediato, A pessoa liga e fala: “acabou de romper uma parede da minha casa”, o profissional se desloca e vai. A árvore que já caiu, a gente já passa pra o órgão direto pra otimizar o tempo e a operação. O risco presumível é muito rápido também. É claro que tem situações, como a de novembro, que saem da regra. Nós tivemos cinco mil solicitações em 20 dias, não é algo normal. Agora tivemos, com essa chuva de fim de semana até segunda-feira, de 280 a 300 [solicitações] no total. Geralmente, a gente faz 100 vistorias por dia, então em dois, três dias a gente consegue equacionar. Até porque a gente aumenta a musculatura do órgão, com mais profissionais, mais engenheiros, mais técnicos… Não tem a coordenação de prevenção e a coordenação de contingência? A de prevenção trabalha o ano inteiro, a de contingência também porque tem solicitação sempre, mas não é com a intensidade do período da chuva. Então, a maioria desses engenheiros se desloca da coordenação de contingência e trabalham na outra. Aí no período de chuva, a gente faz o movimento inverso. A tropa quase toda engrossa as fileiras da turma de contingência porque aí o pessoal não para um dia.

 

Em geral, a população hoje recebe melhor as intimações da Codesal?

Recebe. Quando a gente começa a acertar, muito embora lá atrás já se fizesse o certo, as pessoas aceitam. Além de se publicizar mais também.

 

Ainda estamos no primeiro trimestre do ano, mas em dezembro chega ao fim o mandato do prefeito ACM Neto. O senhor já tem planos definidos para 2021?

Primeiro eu queria dizer que a gente está aqui como soldado do prefeito ACM Neto. Eu tenho um grupo político, que é liderado por ele, por Bruno Reis e por João Roma. Eu deixo bem claro aqui que o prefeito não tratou comigo nada que não fosse Operação Chuva, Defesa Civil, geomanta, plantões... Bruno Reis, de igual modo, e João Roma, por sua vez, colocou uma emenda agora aqui em Salvador, de R$ 1 milhão para ser aplicada em resposta à Defesa Civil. (...) Tudo isso pra dizer que continuar na Codesal também é um desafio. Aí você pode perguntar a ACM Neto, a Bruno Reis e a João Roma.

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