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Entrevistas

Entrevista

Walter Takemoto e Bruno D' Almeida falam sobre Movimento Passe Livre - 29/07/2013

Por Alexandre Galvão / Evilásio Júnior / Francis Juliano

Walter Takemoto e Bruno D' Almeida falam sobre Movimento Passe Livre - 29/07/2013
Fotos: Cláudia Cardozo/ Bahia Notícias
Sem assumir que são "lideranças" do Movimento Passe Livre (MPL), o psicólogo, sociólogo e especialista em Política Pública, Walter Takemoto, 58 anos, e o professor de Língua Portuguesa, escritor e cineasta, Bruno D’ Almeida, 37, conversaram com o Bahia Notícias sobre os rumos das mobilizações que tomaram as ruas de Salvador no mês de junho. Para eles, apesar da redução no número de manifestantes, os atos não têm data para acabar e serão intensificados com maior "qualidade", pelo menos, até a Copa do Mundo de 2014. Para os ativistas, a questão central do MPL – a tarifa zero no sistema de transporte – não fez parte da chamada "agenda positiva" tanto em nível federal, quanto estadual e municipal. No entendimento da dupla, que assegura não se candidatar nas próximas eleições, a retirada das catracas deve ser bancada pelos próprios empresários. "Os estudos sobre planilha de transporte não correspondem à realidade porque nós sabemos que existe um mundo paralelo de financiamento de campanhas políticas que não está embutido na tarifa. [...] Quem tem que pagar pelo transporte é quem lucra com ele. Ninguém discute que o trabalhador já tem seu transporte descontado. O patrão já paga antecipado ao Setps [Sindicato das Empresas de Transporte de Salvador]. Eles recebem antes mesmo de o serviço ser realizado", pontua D' Almeida. "A grande questão é que existe um pacto entre o poder público e as empresas que tem como objetivo final ampliar o lucro deles", complementa Takemoto. Ex-diretor da Companhia Municipal de Transporte Coletivo de São Paulo (CMTC) na gestão petista de Luiza Erundina, o sociólogo informa que desde 1992 não tem mais vínculo partidário, mas ataca o prefeito ACM Neto, que criticou a participação de militantes no MPL: “ele deveria se desfiliar do DEM, dizer que é apartidário e demitir todos os secretários que são filiados". Ao confirmar que tem uma moto Harley Davidson e viaja para a Europa, ele alerta: "Se a população pobre que vive aqui no Brasil soubesse como o transporte é lá, destruiria tudo que tem aqui, porque é uma vergonha".
 

Bahia Notícias: Quem é o Walter Takemoto?
 
Walter Takemoto: Eu sou nascido em São Paulo, moro na Bahia há 13 anos e vim para Salvador a convite da antiga Faculdade Diplomata. Vim para implantar os cursos de licenciatura e, quando ela foi transferida para a [Avenida] Paralela e iria se transformar na Faculdade Jorge Amado, fui convidado para assumir a administração acadêmica. Fui reitor. Pedi demissão quando começaram a reestruturação para a venda da Jorge Amado para o grupo que hoje é dono da faculdade. A minha relação com o [Movimento Passe Livre] MPL vem de quando eu era diretor da Companhia Municipal de Transporte Coletivo de São Paulo (CMTC), que era a maior empresa de transporte urbano do mundo, na gestão da prefeita Luíza Erundina. Exerci o cargo durante três anos. Foi nesse período que passei a compreender a função social que tem o transporte coletivo e as relações que isso estabelece com a organização da nossa sociedade e o seu modelo econômico. O transporte coletivo é a base de locomoção das pessoas que, fundamentalmente, usam ele ou para trabalhar ou para consumir. Isso significa que, se eu vou trabalhar, eu pago para ser explorado e para gerar lucro para alguém. Se eu vou consumir, eu me desloco para comprar e para gerar lucro para o comerciante e, por isso, quando fui diretor da CMTC comecei a desenvolver uma concepção de que quem deveria pagar pelo transporte não deveria ser o passageiro, mas quem se beneficia da sua locomoção.

Bruno D'Almeida: E aí que entra a contradição. Você precisa fazer um tratamento de saúde e existe uma catraca no ônibus que você tem que pagar se vai ao hospital, ao posto de saúde. Então ela deixa de ser gratuita quando você precisa pagar o ônibus para ir até lá. O estudante encontra uma catraca todo dia e precisa pagar para ter acesso a uma educação gratuita. Há uma contradição no sistema que impede o pleno exercício desses direitos através da cobrança da tarifa.

BN: Por que essa pauta não entrou antes na agenda dos partidos? 

WT: Normalmente, quando se fala em Movimento Passe Livre, começa-se a pensar na Revolta do Buzu, que aconteceu em 2003 e posteriormente em Florianópolis... Mas na verdade essa reivindicação surge muito antes. No final de década de 70, início da década de 80. Em função da crise econômica, São Paulo tinha cerca de 17% da população econômica ativa desempregada e surgiu um movimento contra o desemprego e uma das propostas desse movimento era o passe livre para desempregados, já que, sem emprego, as pessoas tinham que se deslocar a pé para buscar uma oportunidade. E por que não é uma pauta dos partidos políticos? Porque na história dos partidos no Brasil, eles estão mais preocupados com a política institucional ou então com as questões macroeconômicas. Aquilo que diz respeito às questões das pessoas mais simples não integra as agendas, infelizmente. Não é só o problema do passe livre que não está no programa dos partidos. Eles estão preocupados com uma dimensão da vida que não é a dimensão da vida das pessoas normais.
 
BD: Aqui em Salvador, na história recente, tivemos diversas revoltas que antecederam a Revolta do Buzu. Na gestão de [Mário] Kertész teve um quebra-quebra em que vários ônibus foram destruídos. No final da década de 80, na Praça Municipal, também houve uma revolta muito grande para a instituição do passe livre estudantil. Já há, em Salvador, um histórico de revoltas sociais contra o custo da tarifa. Existe uma revolta que vai além do custo da passagem: é uma revolta que vai contra a exploração social. Salvador não tem nem mais os planos inclinados. Só tem ônibus e mais nada.
 

BN: Vocês vêm a participação dos partidos como algo pernicioso para o movimento?

BD: Nós queremos e desejamos que o movimento seja apartidário e sem líderes. Isso começou desde a Revolta do Buzu, em 2003. Existe hoje uma perspectiva de que qualquer pessoa pode participar, sendo de partido ou não. Nós somos apartidários, mas não antipartidários. Elas podem participar enquanto pessoas, mas não como partidos. A gente não pode cair no discurso fascista de ser contra pessoas que tenham filiação partidária, porque a filiação é completamente livre e liberada no Brasil. Vamos ser veementemente contra qualquer bandeira que queira suplantar as nossas reivindicações.

BN: Do movimento da Revolta do Buzu surgiu Nestor Neto, candidato a vice-prefeito pelo PMDB, em 2012, na chapa de Mário Kertesz. Takemoto foi diretor da CMTC na gestão petista de Erundina. Vocês têm algum tipo de filiação partidária e, com o nome destacado nas mobilizações, se identificam como lideranças reconhecidas pelo movimento?

WT: Eu fui filiado ao PT até 1992. Isso é público. Eu falo isso para ninguém me acusar de esconder minhas opiniões ideológicas. Então, em 92, eu me desfiliei por não concordar com os rumos que ele [o partido] estava tomando. Isso não significa que eu não continue lutando pelo que eu acredito. Sem partidos não existe democracia. Em relação a eu me considerar líder do movimento, eu não me considero. Eu, efetivamente, só passei a dar entrevista, de segunda-feira [22] para cá. Outros membros deram muito mais entrevistas do que eu. Talvez tenha ganhado destaque por ser japonês (risos). Aí perguntam: o que é que um japonês está fazendo em Salvador lutando pela redução da tarifa se ele tem uma [moto] Harley Davidson? A questão não é 20 centavos e, muito menos, pela redução da tarifa. A luta é pelo direito de se locomover e das pessoas se apropriarem da própria cidade. Eu não tenho mais idade para ser candidato a nada. Minhas filhas são muito mais velhas do que as pessoas que estão militando. Eu não pretendo. A minha pretensão nesse movimento é que, depois de décadas, foi a primeira vez que a população saiu às ruas e saiu sem o controle dos partidos. Aí é obrigação de quem tem o compromisso com a possibilidade de construir uma outra sociedade e contribuir para que esse movimento possa sair vitorioso, porque ele é fundamental para que o jeito de fazer política mude. 
 
BD: É necessário lembrar que todos que tentaram se forjar como lideranças da Revolta do Buzu perderam as eleições. Quem participou da Revolta sabe que não havia lideranças. Eu não vou me candidatar. Sou cineasta, vou fazer muito filme.
 

 
BN: O movimento reuniu no primeiro ato, na Avenida Tancredo Neves, mais de três mil pessoas. No último, da Paralela ao CAB, não passou de 200. A falta de uma liderança constituída, a exemplo da não criação de uma comissão para conversar com o prefeito e o governador, não seria o motivo de um certo enfraquecimento do movimento? 
 
BD: O que há, na verdade, é uma crise na representação política. Os políticos não entendem que os movimentos sociais não querem criar comissões de líderes para entrar em uma sala fechada, serem cooptados e depois servirem de massa de manobra. Nós desejamos que as negociações sejam feitas de portas abertas, com todos os representantes. Isso é possível? Claro que sim. Anteontem [23], na Paralela, conseguimos marcar uma audiência pública com o presidente da Assembleia Legislativa [dia 8, às 14h30]. Este é o lugar onde desejamos falar. De portas abertas, vistos pelas câmeras e, se quiser falar com um, fale com todos.

WT: Um determinado site disse que eu gosto muito de viajar pela Europa e é verdade. Se a população pobre que vive aqui no Brasil soubesse como o transporte é lá, destruiria tudo que tem aqui, porque é uma vergonha. Por exemplo, quando a Dilma sugeriu uma comissão para discutir a reforma política, os partidos não quiseram. Não é interessante para eles que os professores, por exemplo, elejam um representante para discutir a reforma. Para eles, política é reservada para os políticos, ou seja, para a elite ou para quem serve a ela. 
 
BN: Por que a chamada "agenda positiva", que foi implantada em âmbito municipal, estadual e federal, não foi bem recebida pelo Passe Livre?
 
WT: A grande questão é que efetivamente as reivindicações do Passe Livre não integraram a agenda positiva. Elas ficam no plano de medidas vinculadas à reforma política, mas não tocam nas questões que são centrais para o movimento.

BD: Como por exemplo a tarifa zero que não foi discutida. A população pediu isso, mas o governo faz um pacote de medidas que não discute a questão central do movimento.
 

 
BN: Há um argumento de que, para ter a tarifa zero, o próprio povo pagaria a conta, porque ela seria embutida em outras tarifações.

BD: Isso é falso.
 
WT: Primeiro que nós não defendemos desoneração fiscal e tributária para reduzir o custo do transporte, porque isso significa tirar de recursos sociais para investir em transporte coletivo. Os estados e municípios têm problemas por conta das desonerações de impostos. Quando a Dilma propõe um pacto pela mobilidade urbana, nós sabemos que demora algum tempo para sair do papel. Tem que se pensar um plano de longo, médio e curto prazo que você insira a sociedade. O que você não vê agora. 

BD: A questão é que a gente tem que fugir desse falso debate. Não existe planilha real. Os estudos sobre planilha de transporte não correspondem à realidade porque nós sabemos que existe um mundo paralelo de financiamento de campanhas políticas que não está embutido na tarifa. Nós não queremos entender planilha, nós queremos que ela seja pensada de outra forma. Quem tem que pagar pelo transporte é quem lucra com ele. Ninguém discute que o trabalhador já tem seu transporte descontado. O patrão já paga antecipado ao Setps [Sindicato das Empresas de Transporte de Salvador]. Eles recebem antes mesmo de o serviço ser realizado. Isso já dá para bancar todo o transporte sem catraca. Esse debate é que precisa ser feito. 
 
BN: Essa questão do Passe Livre não pode gerar outro problema? E se o empresário deixar de oferecer o serviço devido à perda de lucro?

WT: Mas isso já acontece. O empresário tem duas formas de ter lucro: uma delas é em conluio com a prefeitura – ele falar que em vez de rodar 10 quilômetros, vai rodar 30 quilômetros e ganhar por quilômetro rodado. E, além disso, ele não lota o ônibus, porque isso aumenta o custo de manutenção. Então, ele vai reduzir o número de passageiros com o ônibus passando direto pelos pontos de parada. Aí você tem a outra forma de remuneração que é por passageiro transportado. O empresário pede os 30 quilômetros, mas passa por vários bairros e, nesse percurso, enche o ônibus três ou quatro vezes. Ou seja, o passageiro que poderia chegar em casa em 40 minutos, chega em duas horas. A grande questão é que existe um pacto entre o poder público e as empresas que tem como objetivo final ampliar o lucro deles. 
 
BD: Nunca se pensou na relação de estímulo ao próprio sistema de consumo através da tarifa zero. As pessoas gastam um terço do seu dinheiro com transporte. Se deixarem de ter esse gasto vai consumir, vai gerar mais arrecadação. É mais dinheiro circulando dentro da própria sociedade de consumo. Em Recife tem ônibus 24 horas – o Bacurau. A vida noturna lá é muito mais movimentada. Isso gera emprego, consumo e renda. A precariedade de Salvador, que não possui ônibus 24 horas e tem uma tarifa cara, estrangula o próprio sistema financeiro da cidade.
 

 
BN: Por falar em sistema de transporte, e o metrô de Salvador? Quais são as reivindicações sobre ele? 
 
WT: Uma das reivindicações do movimento é que a Câmara Municipal instale uma Comissão Especial de Inquérito [CEI], porque [o metrô] é uma vergonha. Qualquer homem público ou soteropolitano deveria ter vergonha da história do metrô daqui. Os vagões já perderam garantia sem nunca ter rodado e todos nós sabemos que foram gastos milhões e milhões de recursos públicos. O Ministério Público Federal está investigando o uso do dinheiro federal que foi injetado no metrô daqui. Nós já falamos para o Governo do Estado da Bahia e para o presidente da Assembleia que nós queremos o debate público sobre qual é o projeto do metrô aqui em Salvador. Nós queremos um projeto de sistema integrado – metrô, ônibus, trem, sistema aquaviário. Nós não queremos que seja um metrô voltado apenas para o turista, como é quase tudo aqui em Salvador. Queremos algo que atenda às necessidades dos bairros periféricos. E quando nós falamos que o bilhete único anunciado pelo ACM Neto não comtempla, é porque, para nós, não dá para desvincular o bilhete único do sistema de transporte integrado. O passageiro que pega o ferry boat e depois pega o ônibus não deveria pagar duas passagens, por exemplo. A proposta do prefeito de bilhete único, com o limite de duas horas, não serve para absolutamente nada. Nós queremos rediscutir isso tudo. É mais fácil tentar acertar com a sociedade do que desconsiderá-la e tentar fazer de forma incorreta. 
 
BD: Agora que o metrô está sob a gestão do Estado, nós queremos ver se vai seguir o mesmo rumo da Arena Fonte Nova. A Arena foi implodida e reconstruída em um ano e meio. Então, já se provou que se pode construir uma obra daquela em pouco tempo. Nós queremos ver se o governo do Estado também se compromete em colocar o metrô da Paralela em operação em tão pouco tempo. Nós gostaríamos que fosse construído com a mesma velocidade. 
 
BN: A ocupação da Câmara é capitaneada pela redução de R$ 0,30 e alguns vereadores acusam que os partidos orquestraram o ato...
 
WT: Essa é a reivindicação principal.

BD: São 24 pessoas dentro e se questiona [a filiação de] quatro. É interessante a gente propor esse debate.
 
WT: Quatro apenas são filiados. Dois do PCdoB, um do PSOL e um do PSB. De 24, tem quatro. 
 
BD: E o holofote é esse, você tem em torno 15% dos ocupantes e se coloca como questão central o partidarismo. Eles são minoria.
 
WT: O mais engraçado desse argumento é que quem ataca esses quatro filiados a partidos como forma de dizer que o movimento está sob controle político são os que fazem política. O ACM Neto é o quê? O [vereador Cláudio] Tinoco é o quê? Eles vêm de um clã político que controlou a Bahia por décadas. Na verdade, é uma piada. A gente tem que dar risada quando vê Tinoco dizendo essas coisas. Quando ACM diz que não negocia com militante político. Então, me parece que ele tá dizendo que não negocia mais com vereadores, porque todo vereador representa um partido, e aí ele deveria se desfiliar do DEM e dizer que é apartidário e demitir todos os secretários que são filiados. O que o prefeito, Tinoco e outros vereadores da situação estão tentando é utilizar a aversão da população aos partidos e aos políticos para atacar o movimento. 
 
BD: Outro argumento que está sendo colocado é que os vereadores não estão conseguindo trabalhar com a nossa ocupação, o que é irônico. Depois da assembleia pública, uma quantidade de integrantes do Movimento Passe Livre passou a acompanhar as plenárias da Câmara e constatamos que eles ficaram uma semana sem trabalhar por falta de quórum. Ou seja, uma semana sem votar um projeto. Passaram uma semana sem trabalhar e, quando a gente ocupa, por uma questão de protesto, eles vêm argumentar que estão sem trabalhar por conta da ocupação.
 
BN: O Movimento Passe Livre tem data para acabar?
 
WT: Não. A diminuição dos manifestantes nas ruas já era de se esperar por conta da repressão da polícia no mês de junho. Quem continuou é quem, de fato, compreende o significado e a importância dessa luta. O que nós vamos, a partir de agora, começar a discutir é a articulação da luta pela qualidade do transporte e pela redução da tarifa, com os movimentos da periferia de Salvador. Nós já começamos a participar de manifestações que estão acontecendo em Plataforma, Cajazeiras, São Caetano, Paripe e Uruguai, em movimentos que surgiram a partir das manifestações do MPL. Há uma mudança de qualidade. Passou-se agora a discutir a redução do transporte relacionada com as questões de vida e transporte das pessoas da periferia. 

BD: Nós estamos vivendo um fluxo de debates, o que é natural. Podemos retornar a ter um grande fluxo de pessoas na rua a qualquer momento. Ano que vem nós temos uma Copa do Mundo...

WT: A pesquisa da Folha de S.Paulo demonstra claramente que todos os partidos, governadores e prefeitos perderam credibilidade de forma avassaladora de junho para cá. Ou os políticos percebem essas mudanças ou os dias deles estão contados.