Servidores criticam serviços de tecnologia da Câmara de Salvador, que gastou R$ 17 milhões em oito meses
Por Redação
A Câmara Municipal de Salvador registrou R$ 16,96 milhões em despesas com tecnologia da informação entre janeiro e agosto de 2026. Apesar do volume de recursos destinado a três empresas do setor, servidores efetivos ouvidos pelo jornal A Tarde relatam problemas recorrentes com computadores, sistemas, conexão de internet e equipamentos de controle de acesso.
Segundo a apuração publicada pelo A Tarde, documentos internos indicam que os pagamentos somaram R$ 16.967.856,67 no período. Os valores correspondem a despesas efetivamente pagas, e não ao montante total dos contratos. Os relatos dos funcionários levantam questionamentos sobre a execução dos serviços, a fiscalização contratual e a comprovação das entregas.
Entre os problemas apontados estão computadores lentos, quedas na rede, programas que travam, demora na manutenção de equipamentos e falhas nas catracas de entrada do prédio. Um dos servidores ouvidos pela reportagem, que teve a identidade preservada por receio de represálias, afirmou que as dificuldades comprometem a rotina de trabalho.
“A Câmara de Vereadores tem milhões em contratos de informática, e o básico continua faltando: aqui, computador não funciona, rede vive caindo, enfim, o sistema não permite que a gente trabalhe com o mínimo de eficiência”, relatou.
SUDOESTE INFORMÁTICA CONCENTRA MAIOR VALOR
A Sudoeste Informática e Consultoria recebeu aproximadamente R$ 9,8 milhões entre janeiro e agosto, o equivalente a cerca de 58% do total destinado às três empresas de tecnologia. Desse montante, R$ 9,26 milhões estão relacionados ao desenvolvimento, à manutenção e ao treinamento na plataforma Maker All, utilizados a partir de acordo com o consórcio ASTEC III, no valor de R$ 12,3 milhões.
O contrato prevê o desenvolvimento e a manutenção de sistemas, portais e aplicativos para a Câmara, além de suporte técnico.
Servidores ouvidos pelo A Tarde afirmaram, contudo, que algumas funcionalidades aguardadas pelos setores ainda não foram disponibilizadas e que falhas nos sistemas voltam a ocorrer mesmo após intervenções técnicas.
Um dos funcionários também questionou a ausência de informações claras sobre a conclusão dos serviços e o funcionamento das ferramentas contratadas. A reportagem destaca que relatórios de execução, documentação técnica e termos de aceite são instrumentos importantes para comprovar a entrega e a aprovação dos sistemas.
O volume de pagamentos, por si só, não comprova irregularidades. A avaliação da execução contratual depende da análise dos serviços previstos, das entregas realizadas e dos mecanismos de fiscalização adotados pela Câmara.
DW3 RECEBEU R$ 5,8 MILHÕES POR EQUIPAMENTOS E SISTEMAS
A DW3 Serviços Especializados registrou R$ 5,8 milhões em despesas pagas pela Câmara entre janeiro e agosto de 2026. Os valores incluem R$ 2,83 milhões pelo aluguel de equipamentos de informática, R$ 1,31 milhão por um sistema de gestão empresarial, conhecido como ERP, R$ 1,5 milhão pelo controle de acesso com catracas e reconhecimento facial e R$ 154,5 mil em ressarcimento por equipamentos danificados no incêndio de fevereiro de 2025.
Apesar dos pagamentos, servidores relataram dificuldades para acessar equipamentos básicos, como impressoras e scanners, além de problemas com computadores utilizados nos setores administrativos.
Um dos entrevistados afirmou que as falhas também atingem o sistema de controle de acesso ao prédio. Segundo ele, as catracas apresentam travamentos recorrentes.
A apuração do A Tarde aponta que informações como inventário dos equipamentos, especificações técnicas, quantidade disponibilizada, locais de instalação e registros de manutenção são necessárias para avaliar a compatibilidade entre os pagamentos e os serviços efetivamente prestados.
DUAS EMPRESAS CONCENTRAM 90% DOS GASTOS
Além da Sudoeste e da DW3, a Câmara mantém contrato com a DO Serviços de Tecnologia. A empresa registrou R$ 1.344.949,12 em despesas entre janeiro e agosto, relacionadas a um sistema de gestão de solicitações e atendimento automatizado.
Considerando os valores informados, a Sudoeste concentrou cerca de 58% dos pagamentos, enquanto a DW3 respondeu por aproximadamente 34%. A DO Serviços ficou com cerca de 8%.
A concentração dos recursos em duas empresas não constitui, isoladamente, evidência de favorecimento ou ilegalidade. A questão levantada pela reportagem é se os objetos de cada contrato estão claramente delimitados e se há mecanismos para evitar sobreposição de serviços e pagamentos por atividades semelhantes.
Os contratos envolvem diferentes soluções tecnológicas, incluindo desenvolvimento e manutenção de sistemas, gestão empresarial, locação de equipamentos e atendimento automatizado. Servidores afirmaram, entretanto, que as responsabilidades das empresas nem sempre ficam claras quando surgem problemas.
CONTRATO DA DO SERVIÇOS TEVE REAJUSTE DE 29%
A DO Serviços de Tecnologia também teve alteração no valor mensal informado para o contrato com a Câmara. O pagamento passou de R$ 130 mil para R$ 168 mil, um aumento de aproximadamente 29%.
Com o novo valor mantido por 12 meses, o custo anual estimado chega a R$ 2,016 milhões, o que representa uma diferença de R$ 456 mil em relação ao custo anual anterior de R$ 1,56 milhão.
O contrato prevê a correção de erros e falhas sem cobrança adicional durante sua vigência e por três meses após o encerramento, com atendimento de acordo com a gravidade das ocorrências.
Diante dos relatos de lentidão e falhas recorrentes, a reportagem aponta a necessidade de esclarecimentos sobre os critérios que justificaram a alteração contratual, os serviços incluídos no novo preço e os indicadores utilizados para avaliar a qualidade do atendimento.
Um reajuste contratual não representa, por si só, irregularidade. Sua análise depende das justificativas apresentadas, das regras aplicáveis e da documentação que fundamenta a mudança.
FALHAS TAMBÉM ATINGEM REDE E PLENÁRIO
Os problemas relatados pelos servidores incluem interrupções na conexão durante procedimentos administrativos, sistemas que deixam de responder e dificuldades para concluir tarefas. Segundo os funcionários, essas situações exigem adaptações na rotina e podem comprometer a produtividade dos setores.
O painel eletrônico utilizado durante as sessões do Plenário também foi citado entre os equipamentos que apresentam dificuldades de funcionamento. A ferramenta integra as atividades legislativas e é utilizada em procedimentos que dependem de seu funcionamento adequado.
Os relatos reforçam a necessidade de verificar a disponibilidade dos sistemas, os registros de manutenção, o tempo de resposta das empresas contratadas e os resultados obtidos com os recursos empregados.
