Mineração para Todos: 3º estado em produção mineral, Bahia aposta em diversidade para enfrentar "abismo" com Pará e Minas Gerais
Por Rebeca Menezes
A Bahia é o terceiro estado brasileiro que mais arrecada royalties derivados da atuação de mineradoras, mas ainda vê um abismo no retorno econômico em relação aos líderes do ranking. Mas instituições de pesquisa tem investido para mudar esse cenário e projeta boas perspectivas para o setor nos próximos anos. E a palavra-chave para quem conhece do assunto é diversidade.
Líderes do setor, Minas Gerais e Pará são impulsionados principalmente pela extração de minério de ferro. Em 2025, essas regiões receberam bilhões de reais derivados da chamada Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). De acordo com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), no ano passado Minas Gerais recebeu R$ 3,57 bilhões, e o Pará, R$ 3,09 bilhões. Terceiro estado, a Bahia teve retorno de “apenas” R$ 237,8 milhões. O valor total de CFEM obtido em 2025 foi distribuído para 5.234 municípios brasileiros, o que representa 94% das cidades.
Segundo o site Movimento Econômico, entre janeiro e julho de 2025, três cidades baianas estavam no topo do ranking de arrecadação de royalties da mineração no Nordeste: Jacobina (ouro), Itagibá (níquel) e Santaluz (ouro) aparecem em primeiro, segundo e terceiro lugar, respectivamente. Entre as 10 com maiores números, ainda aparecem Sento Sé (minério de ferro), em sétimo lugar; e Barrocas (ouro), na oitava posição.
“Se começarmos a comparar, por exemplo, Salvador com Belo Horizonte, que são cidades com números populacionais muito parecidos, poderíamos trazer algum tipo de comparação. Belo Horizonte é uma cidade cuja atividade econômica ligada a serviços está muito relacionada à mineração. Aqui em Salvador seria o turismo. Então, Belo Horizonte tem o dobro ou o triplo do PIB de Salvador. E eu acredito que muito disso está ligado a essa diferença, porque as duas têm economias baseadas em serviços, mas em serviços diferentes. Eu acredito que a mineração tem um impacto muito forte no estado e no município. Uma vez que Salvador, ou melhor, que a Bahia consiga se igualar a Minas Gerais, teremos um retorno gigantesco, tanto na capital quanto em todo o interior”, reforçou a Geofísica e mestre em geociências aplicadas Maria Alagia, Diretora de Negócios na Neogeo Geotecnologia, durante o segundo episódio do projeto “Mineração para Todos: Do solo à palma da sua mão”.
A especialista reforça que, nesses casos, os projetos geralmente apontam investimentos imediatos, mas também devem buscar soluções a longo prazo - principalmente considerando que a exploração de minérios é limitada. "Para as cidades que têm mineração, existe um movimento interno, o ESG das mineradoras, voltado para empregabilidade e desenvolvimento da cidade. Então vai desde hospitais, escolas, cursos técnicos, para que a população tenha uma oportunidade de emprego e, para além disso, não fique ligada apenas à mineração, mas também possa ser independente dela”, avaliou.
“Porque essa é uma discussão que sempre trazemos: a mineração normalmente se finda em algum momento. Pode durar 40 anos, pode durar 100 anos ou até mais. Há casos com duração maior. Só que a gente tem que preparar a população para estar com ela e sem ela. Então, uma mineração responsável deixa uma cidade, um município, muito melhor”, frisou.
A geóloga e doutora na pesquisa de fosfato, Maisa Abram, Chefe do Departamento de Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB), explicou que no mundo todo o ferro é a commodity que comanda e impulsiona a mineração - em um primeiro momento.
Porém, já há um movimento de diversificação dos minérios explorados no Brasil. Apesar de ser a principal fonte de arrecadação, o minério de ferro teve reduzida a sua participação de 75% em 2024 para 69% no ano seguinte. E é exatamente aí que entra a estratégia da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) ou do próprio SGB, para desenvolver estudos que gerem dados pré-competitivos, base importante para a atração de novos investimentos.
"A Bahia não tem grandes depósitos de minério de ferro. Existem alguns depósitos, mas nada comparável ao Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, ou a Carajás, no Pará. Mas a gente ganha na diversidade. Temos uma diversidade muito grande de minerais específicos. A única mina de urânio em operação no Brasil fica na Bahia. Temos a única mina de vanádio, a única mina de níquel sulfetado em funcionamento. Temos cromo, temos cobre no Vale do Curaçá… Então existe uma diversidade mineral muito grande, e é isso que consegue colocar a Bahia em terceiro lugar na mineração nacional, apesar de não ter o volume gigantesco que o minério de ferro representa”, destrinchou Diretor técnico da CBPM, Williame Cocentino.
Durante o episódio, os especialistas ainda detalharam o que acontece quando um novo depósito é encontrado, e também quem fica com os minérios identificados. Cocentino desmistificou algumas dúvidas, e tratou ainda sobre a importância do órgão participar do processo de instalação de novas mineradoras, inclusive para a proteção dos donos dos terrenos, e também do meio ambiente.
MINERAÇÃO PARA TODOS
O Bahia Notícias lançou o projeto especial “Mineração para Todos: Do solo à palma da sua mão”, patrocinado pela Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), com o objetivo de traduzir a importância da pesquisa e da indústria mineral para o desenvolvimento do estado e para a atração de novos investimentos e de pesquisas científicas. A proposta é detalhar como a extração mineral tem um impacto real na vida da população, e desmistificar informações que muitas vezes cercam o tema.
Os episódios, gravados em formato de podcast, levantam o debate com especialistas sobre o cenário da Bahia e a posição estratégica do estado neste mercado. O primeiro deles teve como tema “Terras raras não são terras nem raras”, e o segundo "O mundo invisível dos minerais que movem a sua rotina". Ambos estão disponíveis no canal do Youtube do Bahia Notícias.
Para o segundo bate-papo, o Bahia Notícias recebeu o diretor técnico da CBPM, Williame Cocentino; a Geóloga e doutora na pesquisa de fosfato, Maisa Abram, Chefe do Departamento de Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB); e a Geofísica e mestre em geociências aplicadas Maria Alagia, Diretora de Negócios na Neogeo Geotecnologia.
