Alta demanda pode transformar disciplina sobre 'Golpe de 2016' em curso de extensão na Ufba
Por Ailma Teixeira
Com a polêmica em torno da implantação da disciplina “Tópicos Especiais em História: o golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil” na Universidade Federal da Bahia (Ufba), a procura de alunos interessados em cursar a matéria eletiva é grande. Tanto que o grupo de professores que participarão do curso já avalia a possibilidade de transformar a disciplina em um curso de extensão. “A atitude reflete um posicionamento político e solidário em relação ao professor [Luís Felipe Miguel, da UNB] que foi ameaçado pelo ministro da Educação. (...) Mas, obviamente, nós vamos adaptar às nossas necessidades e às nossas capacidades”, adianta o professor Carlos Zacarias, responsável pela inscrição da disciplina na grade da Ufba. A iniciativa surgiu depois que o ministro Mendonça Filho criticou publicamente a criação do curso pela Universidade de Brasília, chamando o ato de “uso do espaço público para promoção de militância político-partidária”. Como reação à atitude do ministro, pelo menos quatro universidades repetiram o curso em suas programações (veja aqui). A polêmica chegou ao ponto de o vereador Alexandre Aleluia (DEM) ingressar com uma ação pedindo a suspensão da matéria na Ufba (leia aqui) “O que nós pensamos é tornar essa disciplina o mais plural possível e outras centenas de professores e estudantes se solidarizaram e aplaudiram a iniciativa, o que demonstra que a atitude do ministro foi desastrosa, o que demonstra que nós aqui estamos certos no nosso caminho”, defende Zacarias. No caso da Ufba, o professor conta que 21 colegas, dos cursos de História, Filosofia, Química e outras áreas, devem participar das aulas. O objetivo, de acordo com ele, é ter sempre dois ou três professores à frente da turma. Neste semestre de 2018.1, cujo período começa no dia 2 de abril, as aulas deverão ser ministradas sempre às tardes de quinta-feira. O local e o horário exato ainda não foram definidos, mas a ocupação deve ser em algum auditório da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) por conta da maior capacidade para receber pessoas em relação às salas de aula.

Foto: Reprodução / FFCH
Por outro lado, assim como a implantação despertou a curiosidade e o engajamento de parte considerável da comunidade acadêmica, houve também muita repercussão negativa sobre o fato. No caso da Ufba, Zacarias conta que foi alvo dos mais diversos xingamentos quando anunciou, nas redes sociais, que ministraria a disciplina. Sua publicação conta com mais de três mil comentários. "Eu fui chamado de vagabundo, preguiçoso, maconheiro e você pode imaginar o que o Facebook abriga, então, isso aconteceu de maneira impressionante", conta. O professor observou que esses comentários vinham tanto de perfis falsos quanto de “pessoas de bem”, com trabalho e família. Mas, apesar das ofensas, ele afirma que não chegou a detectar algum caso que lhe represente risco ou seja passível de denúncia. Para Zacarias, toda essa discussão mostra o quanto a democracia “está em risco” e justifica a relevância da disciplina. "Muita gente questiona [o golpe de 2016] e é legítimo que as pessoas questionem, mas já há um razoável consenso na academia brasileira", afirma, destacando que não fala em unanimidade. "Há divergências, a gente polemiza, a gente escreve artigos, uns contra as posições dos outros. Então, não é um curso pra fazer proselitismo partidário. São pessoas com posições políticas diferentes, diversas, todos doutores, todos com currículos consistentes, robustos e a gente vai desenvolver nossas questões", explica. Os estudantes interessados na matéria podem se inscrever regularmente pelo sistema da Ufba, mas a disciplina também está disponível ao público, que pode cursá-la como ouvinte.
