Albinos são sequestrados e desmembrados em rituais de magia na Tanzânia
Foto: Gustavo Lacerda / Reprodução
O desaparecimento de uma criança albina na cidade de Mwanza, na zona rural da Tanzânia, trouxe à tona um tema pouco investigado pelas autoridades da região até então. Há suspeitas de que a pequena Pendo Emmanuel, de quatro anos, seqüestrada durante a madrugada, foi raptada e vendida para um grupo que realiza rituais de magia com pessoas com albinismo. As informações são do iG. De acordo com Severin Edward, da Sociedade Tanzaniana de Albinismo (TAS, em inglês), o pai de Pendo é o principal suspeito pelo crime. “Homens a tiraram da casa da família enquanto ela dormia. Infelizmente, o caso [de Pendo] não é isolado”, afirmou. Alguns tanzanianos, principalmente os que vivem nas áreas rurais do país, acreditam que albinos possuem poderes mágicos e que rituais com partes de seu corpo podem trazer riqueza e sorte.
 

Foto: Gustavo Lacerda / Reprodução

Ainda segundo Edward, muitos albinos têm olhos, braços e órgãos genitais mutilados ainda vivos, pois os “bruxos” crêem que, para que a mágica seja potencializada, a dor e o sofrimento dessas pessoas precisam fazer parte do ritual. No mercado clandestino, chega-se a pagar em torno de R$ 160 mil por albino – na Tanzânia, uma em cada 1.400 pessoas nascem com albinismo. De acordo com Edward, 35 mil albinos do país vivem aterrorizados com a possibilidade de serem seqüestrados, vendidos e então, torturados. Desde 2006, registra-se um número de 152 casos de agressão contra essas pessoas e, dentre eles, 74 levaram o indivíduo à morte. Ainda houve 58 ataques violentos que deixaram as vítimas sem membros – como braços e pernas – e com cicatrizes permanentes. Said Abdallah, de 47 anos, foi uma das vítimas do grupo. No ano de 2010, enquanto trabalhava no campo, dois homens chegaram e pediram tabaco. Quando o homem largou a enxada com que trabalhava para procurar o produto, foi golpeado por um deles na cabeça e ficou inconsciente. Quando acordou, viu que seu braço esquerdo havia sido mutilado. “Foi uma grande sorte eu ter sobrevivido. Perdi muito sangue e como estava em uma fazenda, poderia ter morrido sem ninguém notar. Ainda sinto muito medo de sair sozinho. Só vou normalmente até a casa da minha irmã. Lá é o único lugar onde sinto medo de cachorros, e não do ser humano”, contou Abdallah.
 

Foto: Arquivo Pessoal
 
Segundo a Sociedade Tanzaniana de Albinismo, as áreas costeiras de Mwanza, Shinyanga, Kagera, Simiyu, Geita e Tabora são os principais locais em que os crimes são cometidos. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) a política também está envolvida na questão: muitos candidatos a presidente recorrem a feiticeiros influentes para conseguir ajuda, o que pode fomentar a violência contra as pessoas com albinismo, uma vez que fortalece e dá prestígio aos rituais. “Queremos abordar a questão do rapto e assassinato de albinos de uma vez por todas, proibindo que pessoas sem escrúpulos continuem matando os albinos e enganando os outros ao dizer que eles podem ficar ricos rapidamente ou se tornarem integrantes do parlamento por meio de bruxaria”, afirmou Mathias Chikawe, ministro dos Assuntos Internos da Tanzânia ao jornal “The Telegraph”. O ministro dos Assuntos Internos da Tanzânia informou que tem realizado investigações em comunidades mais afastadas, principalmente locais em que esse tipo de crime é mais comum. Para Edward, porém, o governo não tem dado a assistência necessária às vítimas. “Não tem havido uma política séria para acabar com os assassinatos, caso contrário eles já teriam terminado. Os sobreviventes levam uma vida terrível e o governo não se importa com eles”, opinou.

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