Sexta, 14 de Junho de 2019 - 11:50

Petrobras não pagou valores prometidos a filmes que premiou em 2018

por Gustavo Fioratti | Folhapress

Petrobras não pagou valores prometidos a filmes que premiou em 2018
Foto: Divulgação

Pelo menos quatro filmes premiados pela Petrobras em cerimônias realizadas nas principais mostras de cinema do país no ano passado não receberam os valores prometidos --entre R$ 100 mil e R$ 200 mil-- mesmo que os títulos tenham sido usados para divulgar a marca da empresa estatal.

Os prêmios eram destinados a impulsionar a distribuição das obras em território nacional. O calote foi dado, por exemplo, no longa "Meio Irmão", que tem direção de Eliane Coster e foi premiado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em outubro passado. A produção receberia R$ 200 mil. 

O mesmo aconteceu com o documentário "Torre das Donzelas", que somou cinco prêmios na Mostra e no Festival do Rio, incluindo melhor filme escolhido pelo público. A ele seriam destinados R$ 100 mil. No Festival de Brasília, os documentários "Bixa Travesty", de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, e "O Outro Lado da Memória", de André Luiz Oliveira, estão em igual situação.

Ao menos três dos filmes premiados colidem com questões ideológicas combatidas pelo governo Bolsonaro, lembrando que o presidente já pediu à direção do Banco do Brasil a censura de um anúncio que celebrava a diversidade de raças e de gêneros. 

"Torre das Donzelas" retrata a prisão de mulheres que, durante a ditadura que seguiu o golpe militar de 1964, combateram o regime, lutaram a favor de movimentos de esquerda e foram consideradas terroristas pelos governantes da época. 

Elas ficaram detidas no presídio Tiradentes, em São Paulo. Entre as entrevistadas, está a ex-presidente Dilma Rousseff. O conteúdo do filme vai de encontro com uma investida específica de Bolsonaro, a de promover uma revisão histórica à favor dos militares.

Já "Bixa Travesty" e "Tinta Bruta" são filmes que põem em cena questões de gênero e sexualidade, justamente aquelas que fizeram o presidente declarar, sobre o comercial do Banco do Brasil, que "qualquer empresa privada" teria "liberdade para promover os valores e ideologias que bem entendem". 

Na visão do presidente, "o que não pode ser permitido é o uso do dinheiro dos trabalhadores para isso [a natureza do conteúdo da propaganda]. Não é censura, é respeito com a população brasileira".

Questionados sobre o cancelamento dos pagamentos da premiação, os porta-vozes da Petrobras se restringiram a dizer que "o orçamento para patrocínios da empresa sofreu redução à luz do plano de resiliência da companhia, divulgado em março" e que "alguns patrocínios estão sendo reavaliados".

O que aconteceu em março foram diversos cortes de patrocínios culturais que atingiram os festivais de cinema, além de companhias de dança e teatro, entre outros projetos. No total, foi anunciada a extinção de 13 patrocínios, que somaram R$ 12,7 milhões se considerados os últimos repasses.

Além de funcionarem como plataformas de exibição de novidades da indústria audiovisual, os festivais impulsionam produções mundo afora. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e o Festival do Rio, aliás, já relatam atrasos no cronograma por causa do cancelamento.

As duas mostras, porém, buscam completar o orçamento de seus projetos com outros patrocínios. No caso do evento paulistano, que está programado para outubro, a Spcine, o banco Itaú e a Sabesp serão parceiros. Os dois eventos estão inscritos na Lei de Incentivo à Cultura, a antiga Lei Rouanet, e ainda dependem de captação.

Segundo Renata de Almeida, diretora da Mostra de São Paulo, a fatia correspondente ao patrocínio da Petrobras em anos anteriores era de 30% dos R$ 6 milhões do orçamento total. "Quero manter a mostra com 300 filmes", diz. "E tentaremos não cortar também a sessão no parque Ibirapuera, com a orquestra", acrescenta, sobre um dos programas mais tradicionais da mostra.

Almeida também diz que "muitos convites para filmes estão parados" por causa da instabilidade causada pela perda do patrocínio, que existia desde o ano 2000. Sobre o cancelamento do pagamento do prêmio, ela avalia que "a Petrobras já foi beneficiada" ao divulgar sua marca em cerimônia realizada no Auditório Ibirapuera e, por isso, deveria honrar o compromisso.

Neste ano, afirma a diretora do festival, provavelmente não serão realizadas as premiações para distribuição.

Situação similar vive o Festival do Rio, também marcado para outubro. "Definitivamente, o cancelamento do aporte da Petrobras impacta muito o evento", diz Ilda Santiago, diretora do projeto. Entre os programas criados a partir da parceria, ela cita sessões ao ar livre, apresentações de música de cinema com a Orquestra Petrobras e o restauro da sala de cinema Odeon.  

"Teremos de nos ajustar a novos tempos reduzindo o número de filmes", diz. "Mas, para nós, não será uma opção fazer tantos cortes, o que acabaria levando a um evento não reconhecível para o público. Vamos tentar respeitar ao máximo as linhas curatoriais."

Santiago ainda não desistiu de cobrar da Petrobras a entrega das remunerações da premiação do ano passado. "Estamos conversando para que os prêmios possam ser pagos, sem danos aos compromissos assumidos com o Festival do Rio e os filmes."

"Estamos decepcionados com a decisão unilateral da Petrobras de não pagar os prêmios. Queremos acreditar que a empresa vai reverter isso", diz Kiko Goifman, diretor de "Bixa Travesty".

Por causa do curto intervalo entre o cancelamento do patrocínio e sua realização em julho, o Anima Mundi também relata dificuldades para montar sua programação (clique aqui e saiba mais).

"Não tivemos tempo hábil para desenvolver novas parcerias", diz Fernanda Cintra, diretora executiva do evento dedicado a animações.

Ela diz que a próxima edição do festival corre o risco de ser realizada de forma precária, com restrições que comprometeriam até o aluguel de equipamentos de exibição. 

Segundo ela, o Anima Mundi já teve orçamento de R$ 2 milhões, dos quais 30% eram de aportes da Petrobras, numa parceira mantida há 22 anos. Nesta edição, o festival está tentando arrecadar R$ 400 mil em um site de financiamento coletivo, o Crowdfunding. 

Até a conclusão desta reportagem, o projeto havia arrecadado R$ 193 mil, 48% da meta. Faltam 14 dias para que o restante seja obtido. Caso contrário, as doações serão devolvidas aos colaboradores.

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